Youtubers redefinem terror nos cinemas e conquistam Hollywood
Obras como "Backrooms" e "Obsessão" subvertem o que se pode entender por um bom cinema
Criadores que começaram produzindo vídeos para o YouTube estão transformando ideias nascidas no ambiente digital em fenômenos do terror nas telonas mesmo com baixo orçamento. As obras mais recém-lançadas, "Backrooms: Um Não-Lugar", de maio, e "Obsessão", que estreou em abril, registraram sucesso estrondoso de bilheteria, provando que ideias simples, por vezes criadas com foco na comunidade digital, têm potencial narrativo de se tornarem grandes franquias.
Criatividade em formatos de contar histórias se mostrou promissora em fundar enredos que prendam a atenção do público. O ambiente digital pode funcionar como uma espécie de laboratório: uma narrativa pode nascer como um vídeo independente, ganhar milhões de visualizações, criar teorias entre fãs e só depois chegar ao radar dos grandes estúdios.
Em "Backrooms", explora-se uma lenda urbana e um conceito de terror digital (creepypasta) bombados no mundo digital, derivados de uma dimensão paralela ou uma falha na realidade. A ideia central é que uma pessoa pode, por acidente, "atravessar" a nossa realidade e ficar presa em um labirinto infinito de salas vazias e assustadoras.
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O responsável por popularizar a versão mais conhecida do fenômeno foi o criador digital Kane Parsons, 20, que, ainda adolescente, começou a produzir vídeos em estilo “found footage” -- formato que simula imagens de arquivo supostamente encontradas -- para explorar aquele universo. O sucesso chamou a atenção da indústria e abriu caminho para uma produção voltada ao cinema.
"Backrooms" quebrou recordes e detém a maior bilheteria do estúdio A24, em apenas dez dias. O filme ultrapassou obras da produtora como "Marty Supreme" e "Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo", e conquistou US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) até o momento.
"Obsessão" repete o feito histórico, sendo o maior sucesso da produtora Focus Features. Com um orçamento de produção de apenas U$750 mil (aproximadamente R$ 3,8 milhões), o filme ultrapassa os US$ 200 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão) em bilheteria mundial. Ainda, a obra apresentou uma "longevidade rara" nas telonas, caindo apenas 7% em público em seu quarto fim de semana.
A obra é de Curry Barker, 26, quem niciou sua trajetória fazendo curtas e esquetes de comédia no canal do YouTube "That's A Bad Idea". Em 2024, lançou o filme found footage independente "Milk & Serial" no YouTube, produzido com um orçamento de apenas US$ 800 (cerca de R$ 4 mi). O vídeo viralizou e catapultou sua carreira.
Outro caso celebrado nos últimos anos veio justamente de uma dupla que construiu carreira na internet: Danny Philippou e Michael Philippou, conhecidos pelo canal de vídeos RackaRacka.
Os irmãos australianos chegaram aos cinemas com “Fale Comigo”, lançado em 2023, um terror sobrenatural sobre um grupo de jovens que descobre uma mão embalsamada capaz de permitir contato com espíritos. No site Rotten Tomatoes, responsável por reunir as opiniões da crítica especializada, a produção tem 94% de aprovação.
"Faça Ela Voltar" (2025), também dos irmãos, apresenta 89% de aprovação.
O terror, que sempre dependeu de criar mitos, encontrou na internet um novo lugar para nascer. Criadores também parecem entender o poder de uma história vingar.
Como todo produto que ultrapassa o filme e vira parte da cultura pop, "Obsessão" e "Fale Comigo", por exemplo, possuem um elemento físico palpável para conquistar o público consumidor. De um lado, um graveto que se parte ao meio para realizar um desejo. Do outro, a escultura de uma mão que, ao segurar em outra, teletransporta seu dono para o mundo dos mortos.
Esses objetos funcionam como uma espécie de “assinatura” dos filmes: são fáceis de reconhecer, reproduzir e compartilhar, criando uma conexão que vai além da experiência no cinema. Assim como outros ícones do terror -- como a boneca Annabelle.
Um objeto curioso ou uma cena marcante pode ganhar vida própria em vídeos, memes, teorias e produtos derivados.