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A notícia é esta: durante a posse do ministro Nunes Marques como presidente do TSE, Michelle Bolsonaro cumprimentou Alexandre de Moraes com dois beijinhos no rosto. Alexandre de Moraes que, você sabe mas não custa reforçar, é o algoz, ou carrasco, do marido dela, o ex-presidente Jair Bolsonaro. E, como sói neste nosso tempo de julgamentos sumários, o gesto despertou a ira de muitos que correram para xingar a ex-primeira-dama disso e daquilo.
Assim, à toa, quase como quem faz associações a esmo, o caso me lembrou outro, soterrado pelo tempo: o da esgrimista Helene Mayer, a única judia a participar das Olimpíadas de Berlim, em 1936. Na ocasião, Mayer ficou em segundo lugar e, no pódio, saudou Hitler com o bracinho levantado e tal. Depois de expostos os horrores do Holocausto, ela foi cobrada pelo aparente gesto de subserviência ao algoz de seu povo. Um gesto que ela explicou com uma única palavra: medo.
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Mas é a tal coisa. A gente gosta muito de julgar, né? Eu gosto! É divertido. Ainda mais assim, no meio da multidão sem rosto das redes sociais. Dá aquela sensação de superioridade. Aliás, escrevendo essas linhas irônicas me dou conta de que fiz isso há alguns anos, quando Sergio Moro abraçou Flávio Dino. Putz e desculpa. Na ocasião, no calor da hora e no impulso de dar vazão a uma indignação particular que também era coletiva, fui incapaz de me colocar no lugar do ex-juiz da Lava Jato. Acontece e, infelizmente, acontece com mais frequência do que gostaria. Prometo me policiar, mas quero saber de você. É, você. Você cumprimentaria o carrasco do seu marido?
No lugar de Michelle Bolsonaro, não sei como agiria. Talvez tivesse guardado distância, talvez tivesse recusado o cumprimento, fechado a cara, feito biquinho. Como sou meio de lua, talvez tivesse dado até um tapa na cara do sujeito. Não sei e isso de não saber revela, tanto em mim quanto em você que está aí julgando e condenando e xingando, certa deficiência de imaginário. É por isso que, diante de uma cena banal, tendemos a projetar nos envolvidos as nossas próprias experiências e anseios pessoais. A ponto de reduzir dois beijinhos protocolares a um sinal inequívoco de submissão, quando não de traição, heresia ou “analfabetismo político”. Melhoremos, pois.