Nenhuma democracia sobrevive apenas da repetição da palavra “democracia”, enquanto liberdade, confiança pública e coesão nacional se deterioram silenciosamente. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Democracias não se sustentam apenas por eleições, mas pela capacidade de preservar liberdade, confiança social e senso de pertencimento comum. “Sabor” virou expressão comum na internet para definir algo que preserva a aparência de determinada coisa, mas cuja experiência concreta já não corresponde inteiramente ao que promete. É um meme – mas memes só se espalham porque conseguem condensar percepções coletivas difíceis de traduzir de outro modo. Talvez seja justamente esse o desconforto silencioso que começa a crescer no Brasil.

Vivemos um tempo em que a palavra “democracia” é repetida de forma quase litúrgica por instituições, autoridades, partidos e setores da imprensa. Nunca se falou tanto sobre sua defesa. Ainda assim, cresce entre as pessoas uma sensação difusa de insegurança, desconfiança e distanciamento em relação às próprias estruturas encarregadas de preservá-la.

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E esse é um ponto delicado: democracias não deixam de existir apenas quando acabam as eleições periódicas. Elas também começam a se deteriorar quando passam a sobreviver mais como discurso oficial do que como experiência concreta de liberdade, previsibilidade e pertencimento comum.

Porque democracias dependem de algo muito mais difícil de construir – e infinitamente mais fácil de perder: confiança pública, autocontenção institucional e percepção coletiva de que existe um mesmo conjunto de regras válido para todos. Quando essa percepção começa a desaparecer, o problema deixa de ser apenas político. Passa a ser civilizacional.

O problema das sociedades nunca começa apenas quando perdem prosperidade. Começa quando perdem a capacidade de distinguir entre liberdade real e sua mera aparência. E nenhum povo deveria se contentar apenas com sabor democracia

O Brasil atravessa hoje uma erosão lenta desse sentimento de pertencimento nacional. A polarização permanente transformou adversários em inimigos morais; instituições deixaram de reconhecer seus próprios excessos; decisões relevantes passaram a produzir perplexidade pública crescente; e a sociedade, anestesiada pelo excesso de conflito e informação, reage muitas vezes com humor, ironia ou resignação ao que, em circunstâncias normais, provocaria espanto e mobilização nacional.

O mais preocupante é que tudo isso ocorre enquanto ainda se insiste na preservação da aparência de normalidade. Como se bastasse repetir determinadas palavras para restaurar automaticamente a legitimidade que elas deveriam representar.

A própria história demonstra que nem sempre o nome formal de um regime corresponde integralmente à experiência concreta vivida pela população – como ocorre em países que carregam o adjetivo “democrático” em sua denominação oficial, embora sua realidade cotidiana frequentemente se aproxime muito mais de estruturas rígidas de controle e exceção. Mas legitimidade não nasce de slogans. Nasce de confiança.

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E confiança pública não se sustenta apenas na legalidade formal das instituições, mas também na percepção de coerência moral, autocontenção e responsabilidade diante do país real. Quando autoridades parecem incapazes de reconhecer o impacto de seus próprios excessos, ou quando episódios que produzem perplexidade pública passam a ser tratados com naturalidade burocrática, a distância entre povo e instituições inevitavelmente aumenta.

Nesse ambiente, a sociedade começa lentamente a perder algo ainda mais importante do que consensos políticos: a própria noção de pertencimento comum. E nenhum país permanece funcional por muito tempo quando seus cidadãos deixam de se reconhecer como parte de um mesmo povo.

Não se trata de direita ou esquerda. Nem de negar a importância da democracia. Trata-se de compreender que nenhuma democracia sobrevive apenas da repetição da palavra “democracia”, enquanto liberdade, confiança pública e coesão nacional se deterioram silenciosamente.

A política pode sobreviver ao conflito. O que nenhuma nação suporta indefinidamente é a erosão simultânea da confiança, da liberdade e da ideia de destino coletivo. Por isso, talvez o desafio brasileiro já não seja apenas pacificar. Talvez seja repactuar. Repactuar limites, responsabilidades, autocontenção e, principalmente, a capacidade de voltar a enxergar o Brasil como algo maior do que facções em disputa permanente.

Ronald Reagan afirmou, em discurso ao Parlamento britânico, em 1982, que “a liberdade não é prerrogativa exclusiva de poucos afortunados, mas direito universal de todos os seres humanos”.

A frase permanece atual porque o problema das sociedades nunca começa apenas quando perdem prosperidade. Começa quando perdem a capacidade de distinguir entre liberdade real e sua mera aparência. E nenhum povo deveria se contentar apenas com sabor democracia.

Hudson Alves da Silva Lima, advogado, é pós-graduado em Processo Civil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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