Trump sugere que deu "permissão" ao Fed para elevar juros

Presidente dos EUA afirma ter conversado com Kevin Warsh antes da primeira alta de juros do banco central americano em três anos; Federal Reserve subiu taxa entre 3,75% a 4% ao ano

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A primeira alta de juros do Federal Reserve em três anos inaugurou uma nova reviravolta na já incomum relação entre o presidente Donald Trump e o banco central mais poderoso do mundo.

Trump chamou atenção na noite de quarta-feira ao sugerir que deu a Kevin Warsh, o presidente do Fed escolhido a dedo por ele, permissão para elevar os juros — mesmo sendo o movimento "errado".

O presidente deu a entender que Warsh não teve escolha senão apoiar o aumento de juros porque o chefe do Fed estava em minoria no comitê "hostil" de definição de taxas que ele supervisiona.

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"Conversei com Kevin e disse que ele poderia muito bem votar com o conselho porque não ia fazer diferença… Eu disse: "Faça o que quiser porque não importa", porque ele não tem os votos", disse Trump a jornalistas.

As declarações levantam muitas questões sobre o quanto — se é que há algum — Warsh está consultando um presidente que tem se mostrado disposto a cruzar linhas vermelhas em sua busca por uma redução drástica nas taxas de juros.

Essas questões são especialmente sensíveis porque o Fed foi concebido para ser isolado dos ventos políticos de Washington.

Os banqueiros centrais são obrigados a tomar decisões de trilhões de dólares sobre elevar ou reduzir as taxas de juros com base no que é melhor para a economia, e não para o partido político no poder.

De forma reveladora, alguns observadores do Fed e ex-autoridades reagiram às declarações com incredulidade.

"É um comentário incomum e lamentável. Claramente, o presidente do Fed não precisa da permissão do presidente da República para elevar os juros", disse Eric Rosengren, ex-presidente do Federal Reserve Bank of Boston, à CNN na quinta-feira.

"A implicação é que o presidente do Fed recebeu um salvo-conduto. Não tenho a menor ideia de quão verdadeiro foi o comentário."

Krishna Guha, vice-presidente e chefe de estratégia econômica e de banco central da Evercore ISI, que criticou os tropeços iniciais de Warsh, descartou as afirmações de Trump.

"O mercado acredita — e com boas razões — que Kevin Warsh foi o dono desta decisão e que o comitê estava fortemente unido por trás dele", disse Guha.

"Não há nenhuma evidência aqui nem para o mercado em geral de que Warsh foi arrastado para isso por colegas — ou que recebeu permissão do presidente."

"Ficamos em nossa faixa"

O risco é que Trump alimente as suspeitas que circularam em Wall Street neste verão de que Warsh pode não ser verdadeiramente independente.

Isso é perigoso porque um Fed fazendo o jogo da Casa Branca poderia perder o controle das taxas de juros definidas pelo mercado, aumentando dramaticamente o custo de hipotecas e financiamentos de automóveis.

E uma perda de confiança na independência do Fed poderia desestabilizar as expectativas de inflação entre investidores e consumidores.

O Fed se recusou a comentar à CNN sobre as declarações de Trump.

Por sua vez, Warsh esquivou-se das perguntas relacionadas ao homem que o indicou.

"Não sou um boletim de Wall Street. Parte da independência do Federal Reserve é ficarmos em nossa área. A independência é uma via de mão dupla", disse Warsh durante a coletiva de imprensa na quarta-feira.

"Deixaremos que as pessoas que fazem política comercial e política fiscal fiquem em suas áreas também. É assim que podemos nos posicionar aqui e dizer as coisas como as vemos."

Questionado por um repórter sobre quando falou pela última vez com o presidente, Warsh disse: "Não tenho nada a dizer sobre conversas com o presidente."

Tim Mahedy, CEO e economista-chefe da firma de pesquisa Access/Macro, disse ter achado a resposta de Warsh "estranha".

"A resposta certa seria: "Não falei com o presidente." Não acho que o presidente esteja falando com Warsh de antemão. Isso seria chocante", disse Mahedy, ex-funcionário do FMI e do Fed de San Francisco.

De acordo com o The Wall Street Journal, Trump entrou em contato diretamente com Warsh nos dias que antecederam a reunião crucial do Fed.

A conversa entre os dois homens começou como um bate-papo amigável antes de se voltar para o elefante na sala: o iminente aumento das taxas de juros, informou o jornal.

Um porta-voz da Casa Branca disse à CNN que a administração não vai comentar sobre discussões privadas que possam ou não ter ocorrido.

"O dia em que o Fed se tornou de Warsh"

O outro risco é que, intencionalmente ou não, Trump diminua Warsh como um líder ineficaz — justamente quando ele parecia estar começando a encontrar seu ritmo.

"Isso faz parecer que Warsh não tem controle sobre esse comitê, como se ele fosse completamente ineficaz em convencer seus colegas", disse Mahedy.

Warsh saiu da reunião com uma imagem de independência. Não apenas presidiu uma alta de juros que a Casa Branca não queria, como também a explicou com clareza e com o apoio unânime de seus colegas — incluindo o ex-presidente do Fed Jerome Powell.

"Pareceu o dia em que o Fed se tornou o Fed de Warsh", disse Guha, da Evercore. "Ele estava muito mais seguro, coerente e crível ontem. O que ele está dizendo basicamente faz sentido."

Mas agora, se Warsh e a maioria de seus colegas no comitê decidirem contra uma alta de juros, ele enfrentará questionamentos sobre se o presidente colocou o dedo na balança.

No passado, a maioria dos presidentes fez questão de evitar até mesmo a aparência de interferência no Fed, pois era amplamente aceito que um Fed independente gera confiança.

Trump elogia Warsh — por enquanto

Nada disso quer dizer que Trump atacou o Fed de uma forma que teria perturbado os investidores.

Na verdade, a reação inicial de Trump à primeira alta de juros sob Warsh foi relativamente branda, especialmente em comparação com sua condenação implacável e profundamente pessoal de Powell, seu último presidente do Fed escolhido a dedo.

Enquanto Trump chamou os colegas de Warsh de "muito hostis" e "muito políticos", ele destacou o chefe do Fed com elogios. "Ele é um bom homem, Kevin Warsh", disse Trump.

"As pessoas temiam uma reação feroz do presidente contra essa decisão de elevar as taxas e uma retomada do conflito entre a Casa Branca e o Fed", disse Guha.

É claro que a relação entre Warsh e Trump continuará a evoluir, provavelmente guiada pelo que acontecer a seguir com a inflação, os custos de crédito e o desempenho do S&P 500 e as importantíssimas taxas do Tesouro.

Mahedy disse que teme que a relação se deteriore caso o Fed liderado por Warsh continue a elevar as taxas — como muitos suspeitam que será forçado a fazer.

"Não é difícil imaginar mais culpa sendo atribuída ao Fed e a Warsh – e então vai começar a parecer muito com Powell", disse Mahedy. "É uma espécie de desastre de trem – mas em câmera lenta."

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Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/trump-sugere-que-deu-permissao-ao-fed-para-elevar-juros/