A primeira vez que Yenier Cruz foi levado a uma jaula metálica, conhecida como “zona de relaxamento”, foi depois de denunciar maus-tratos por parte da equipe do Alligator Alcatraz (“Alcatraz dos Jacarés”, em português).

Ele conta que ficou cerca de cinco horas trancado em um espaço que, segundo um relatório do DHS (Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos), media aproximadamente 1,30 metro de comprimento por 1,30 metro de largura e 2,36 metros de altura.

“Com uma temperatura horrível de cerca de 38°C e uma tela contra mosquitos — afinal, aquilo ali onde estávamos era um pântano”, conta Yenier, um imigrante cubano que permaneceu detido sob custódia do ICE durante um ano e meio, período em que foi transferido para vários centros de detenção, entre eles o Alligator Alcatraz.

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De acordo com um relatório de 34 páginas da Inspetoria-Geral do DHS, entre 17 de julho de 2025 e 18 de janeiro de 2026, 79 imigrantes permaneceram de minutos a horas confinados nessas pequenas celas metálicas.

“Fiquei sabendo da ‘caixa’ três dias depois que meu pai foi detido; comecei a fazer perguntas e a investigar se aquilo era permitido sob o regime de detenção federal e se estava em conformidade com as normas, e pensei: ‘Isso vai contra as normas de detenção’”, conta Arianne Betancourt, filha de Justo, outro ex-detento do centro.

A prisão, localizada nos Everglades, na Flórida, foi promovida por autoridades estaduais e funcionários do DHS.

O presidente Donald Trump visitou as instalações em julho de 2025. Na ocasião, o governador Ron DeSantis afirmou que as instalações seriam temporárias. As operações foram encerradas em meados de junho deste ano.

Alex Lanfranconi, diretor de Comunicação de DeSantis, defendeu o uso da área de confinamento ao afirmar que ela se destinava a detidos com antecedentes criminais violentos que, segundo ele, não conseguiam manter uma conduta pacífica enquanto aguardavam a deportação.

Ele também garantiu que, se pudessem, reduziriam ainda mais o tamanho do espaço.

“Temos o Departamento de Segurança Interna dizendo que não era responsável pelas operações do dia a dia. Temos o governador dizendo: ‘Ah, não seguimos as normas, nós as excedemos’. Mas ninguém diz: ‘Bom, tentamos ser o mais cruéis possível nesta instalação remota e, infelizmente, não conseguimos sair impunes’. Porque foi exatamente isso o que aconteceu”, afirma Betancourt.

Um uso “incompatível com as normas”

O inspetor-geral do DHS, que visitou as instalações em janeiro deste ano, afirmou que o uso de espaços tão restritivos “é muito pouco convencional e não se ajusta às normas de tratamento humano”, além de ser “incompatível com as normas”.

Justo Betancourt, que já havia denunciado as condições extremas do centro em maio, afirma que se pode falar muito sobre o assunto, mas que é preciso vivenciá-lo para compreender sua dimensão. “Eles nos deixaram destruídos psicológica e mentalmente; é triste”, diz ele.

O DHS havia descrito anteriormente Betancourt como um “estrangeiro ilegal criminoso de Cuba” e apontado que ele tinha antecedentes criminais por venda e posse de substâncias ilícitas.

Betancourt chegou aos Estados Unidos ainda adolescente, há cerca de quatro décadas.

Uma verificação de antecedentes feita pela CNN confirmou a existência de casos relacionados a drogas, além de várias infrações de trânsito e uma denúncia de agressão.

Todos esses processos estão encerrados: alguns resultaram em condenações, outros foram arquivados e, em outros, nenhuma medida judicial foi tomada.

Tanto Yenier Cruz quanto Justo Betancourt estão atualmente em liberdade. Cruz foi libertado mediante um recurso de “habeas corpus”, após permanecer um ano e um mês sob custódia migratória.

Quanto a Justo, sua família afirma que ele já havia cumprido sua pena, enquanto sua defesa conseguiu sua libertação por meio de um segundo recurso de “habeas corpus”, no qual argumentou que “o governo ainda não tinha um plano para sua deportação e não o tem”, segundo sua advogada.

Um recurso anterior havia sido rejeitado, de acordo com sua filha Arianne.

O relatório menciona que essas “áreas de calma” destinavam-se a permitir que os detidos se acalmassem e tivessem “tempo a sós”, segundo a equipe do centro, que afirma ainda que os próprios detidos pediam para passar um tempo nos pequenos recintos metálicos.

Na segunda vez que Yenier ficou nessa “caixa”, ele conta que foi por se recusar a assinar certos documentos. “Li o que os documentos diziam e quiseram me forçar a assinar, mas recusei. Pois bem, às 22h me colocaram naquela jaula, num frio extremo, até as 4h da manhã”, relata Cruz.

Arianne Betancourt, que também é ativista da Workers Circle — uma organização sem fins lucrativos —, diz que conseguiu conversar com vários detidos que passaram por essas celas em forma de jaula.

“O mais triste de tudo é que a tortura se tornou tão normalizada que, quando eles relatam a experiência na caixa, descrevem-na como se fosse um dia qualquer, dizendo algo como: ‘Ah, sim, um dia me colocaram na caixa; fiquei lá umas 16 horas, acorrentado ao chão, e depois me deixaram sair’”, disse ela.

Mas, para Yenier, as jaulas não foram a pior parte. “Um dia me levaram a um banco que eles têm lá: colocam você contra a parede, você passa as mãos por baixo da cadeira, eles algemam seus pés, puxam-nos com uma corrente e fecham com um cadeado; fiquei assim das 9h às 17h. Cortaram a minha circulação a ponto de eu ainda ter as marcas.”

Após a publicação do relatório, um porta-voz do DHS dos EUA respondeu às acusações em um comunicado, afirmando que a instalação “Alligator Alcatraz” cumpria as normas federais de detenção e que qualquer alegação de condições desumanas era falsa.

“Todos os detidos recebem alimentação adequada e assistência médica, além de terem oportunidades de se comunicar com seus familiares e advogados. Garantir a segurança, a proteção e o bem-estar das pessoas sob nossa custódia é uma prioridade máxima para o ICE”, diz o comunicado do órgão.

O DHS também afirmou que o histórico de Yenier Cruz González inclui acusações de tráfico de pessoas, violência doméstica, não comparecimento a tribunal, furto, agressão e lesão corporal.

No entanto, a CNN não encontrou condenações criminais relacionadas a essas acusações nos registros judiciais disponíveis: várias acusações foram retiradas e, em outros casos, os documentos consultados não indicam o desfecho.

A CNN também não encontrou registros de acusações de tráfico de pessoas.

Para Michelle Fuentes, filha de outro ex-detento de “Alligator Alcatraz”, pensar em seu pai nessas jaulas provoca indignação. “Fico revoltada que o mundo seja assim, que essas coisas estejam acontecendo justamente agora.”

O relatório também afirma ter encontrado pelo menos um caso em que as jaulas metálicas poderiam ter sido utilizadas como instrumento disciplinar. Embora a equipe do centro tenha dito que os detentos não eram trancados, os investigadores observaram mecanismos de fechamento nos recintos.

“Sinto que essas pessoas tinham autorização para fazer isso conosco, para nos maltratar; fizeram isso comigo e fizeram com pessoas muito mais velhas, muito mais vulneráveis. Estou tentando contar tudo isso porque não quero que aconteça com mais ninguém”, afirma Yenier.

 



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/tortura-foi-normalizada-dizem-ex-detentos-de-alcatraz-dos-jacares/