O uso de testosterona e outros esteroides anabolizantes para ganho de massa muscular deixou de ser um tema restrito ao fisiculturismo. Hoje, aparece nas academias, nas redes sociais e até em conversas informais entre homens jovens que buscam resultados rápidos no corpo. O problema é que, fora de uma indicação médica bem estabelecida, esse uso pode representar um risco importante para a saúde.
É preciso separar duas situações completamente diferentes. Uma coisa é a reposição de testosterona em homens com deficiência hormonal comprovada, sintomas compatíveis e acompanhamento médico. Outra, muito diferente, é a pessoa que tem níveis normais de testosterona e usa o hormônio apenas para ganhar força, aumentar músculos ou melhorar a aparência física.
No segundo caso, não estamos falando de tratamento. Estamos falando de uso suprafisiológico de um hormônio, muitas vezes em doses acima das que o corpo produziria naturalmente. E o organismo cobra um preço por isso.
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Publicado em 2026-07-01 14:35:35O corpo para de produzir o próprio hormônio
Quando a testosterona é administrada de fora, o cérebro entende que já existe hormônio suficiente em circulação. Com isso, reduz os estímulos enviados aos testículos para a produção natural de testosterona e espermatozoides.
Essa interferência pode causar diminuição do volume testicular, queda importante da produção de espermatozoides e infertilidade. Em alguns casos, a recuperação ocorre após a suspensão. Em outros, pode demorar meses ou exigir tratamento especializado.
Muitos homens descobrem esse efeito apenas quando tentam ter filhos. A surpresa costuma ser grande porque existe a falsa ideia de que testosterona melhora a fertilidade masculina. Na prática, em quem usa sem indicação, pode acontecer exatamente o contrário.
O coração é uma das maiores preocupações
Os riscos cardiovasculares estão entre os pontos que mais preocupam os médicos. O uso de testosterona e anabolizantes pode alterar o perfil de colesterol, reduzir o HDL, aumentar o LDL, favorecer hipertensão e elevar o hematócrito, que é a concentração de células vermelhas no sangue.
Quando o sangue fica mais viscoso, aumenta também o risco de eventos trombóticos. Além disso, o uso prolongado pode estar associado a alterações no músculo cardíaco, arritmias e maior sobrecarga para o coração.
Esse é um aspecto especialmente grave porque muitos usuários são jovens, treinam com frequência e se consideram saudáveis. A aparência física, porém, não revela necessariamente o que está acontecendo no sistema cardiovascular.
Fígado, pele e queda de cabelo também podem sofrer
Os anabolizantes orais, em especial, podem provocar lesões no fígado, aumento de enzimas hepáticas e, em situações mais graves, hepatites medicamentosas e alterações hepáticas importantes.
Na pele, os efeitos também são frequentes. Acne intensa, oleosidade excessiva e agravamento da calvície em pessoas com predisposição genética estão entre as queixas comuns. Outro efeito possível é a ginecomastia, aumento das mamas masculinas, causada pela conversão de parte da testosterona em estrogênio.
Esses efeitos não são apenas estéticos. Eles indicam que o organismo está sendo exposto a um desequilíbrio hormonal relevante.
Saúde mental e comportamento
O uso sem controle também pode afetar o comportamento. Irritabilidade, impulsividade, agressividade, ansiedade, alterações de humor e sintomas depressivos podem ocorrer, especialmente em ciclos de uso e interrupção.
Há ainda um componente de dependência psicológica. Algumas pessoas passam a associar autoestima, desempenho e identidade corporal ao uso da substância. Quando param, podem sentir perda de força, piora da disposição e queda da libido, o que favorece a retomada do uso.
Esse ciclo pode transformar uma decisão inicialmente estética em um problema crônico de saúde.
Não existe uso seguro para fins estéticos
Uma das perguntas mais comuns é se existe uma dose segura de testosterona para quem quer apenas ganhar massa. A resposta, do ponto de vista médico, é clara: para quem não tem deficiência hormonal diagnosticada, não há indicação segura para uso com finalidade estética ou de performance.
A testosterona é um medicamento importante quando bem indicado. Mas medicamento não é suplemento, não é atalho de academia e não deve ser usado com base em orientação de amigos, influenciadores ou protocolos vendidos na internet.
Exames laboratoriais isolados também não bastam. É preciso avaliar sintomas, histórico clínico, risco cardiovascular, fertilidade, próstata, fígado, pressão arterial, colesterol e uma série de outros fatores.
O ganho rápido pode custar caro
O uso de testosterona pode, de fato, aumentar força e massa muscular. É justamente por isso que se tornou tão popular. Mas o ganho rápido não elimina os riscos. Pelo contrário: muitas vezes, quanto maior a dose e mais prolongado o uso, maior a chance de complicações.
O papel do médico não é julgar o paciente, mas alertar com clareza. O corpo não deve ser colocado em risco por uma promessa de resultado rápido. Treino bem orientado, alimentação adequada, sono, constância e acompanhamento profissional continuam sendo os caminhos mais seguros para melhorar composição corporal e saúde.
Usar testosterona sem necessidade médica pode parecer uma escolha individual e simples. Mas, na prática, envolve coração, fígado, fertilidade, saúde mental e equilíbrio hormonal. E nenhum ganho muscular justifica colocar tudo isso em risco.
*Texto escrito pelo clínico geral Alfredo Salim Helito (CRM/SP 43163 RQE 132808), head nacional de Clínica Médica da Brazil Health