Quem passa alguns minutos no TikTok já deve ter esbarrado em vídeos que explicam “gatilho”, “trauma” ou “apego ansioso” em uma linguagem que parece saída de um consultório de psicologia. Será que estamos aprendendo a falar de nós mesmos, ou só decorando novos termos dos quais não temos a menor ideia?
Para tirar isso a limpo, a pesquisadora Zoe Stephens, do Scripps College, nos EUA, submeteu 95 universitários americanos, de 18 a 24 anos, a vídeos do TikTok com therapy-speak — algo como “terapeutiquês” em uma tradução livre — ou a vídeos neutros. Em seguida, os participantes preencheram questionários sobre alfabetização, consciência e estigma em saúde mental.
O resultado foi particularmente provocador: quem assistiu aos vídeos relatou ter ficado mais atento sobre a própria saúde mental, mas não melhorou o conhecimento técnico sobre o assunto. Além disso, houve um sinal de aumento do estigma, mas o resultado perdeu significância estatística após uma correção mais exigente.
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Publicado em 2026-09-15 03:00:00Há na pesquisa esse lado positivo: pessoas que nunca pensaram sobre saúde mental passaram a reconhecer que determinados comportamentos ou sentimentos merecem atenção. Já o letramento — a capacidade de reconhecer sintomas e entender conceitos — não mudou entre os dois grupos.
O problema começa quando a palavra substitui a conversa. Assim, um termo positivo como “validar o sentimento” — que significa reconhecer a emoção da pessoa, mesmo sem concordar com os fatos — vira fim de papo quando alguém diz: “você está invalidando meus sentimentos”.
Por que a linguagem da terapia se espalhou tanto pelas redes?
A explosão de termos como “gatilho”, “limites” e “gaslighting” nas redes não aconteceu de uma hora para outra; só ficou mais visível. Um estudo na JAMA Pediatrics mostrou letras de rap citando depressão dobrarem de 16% para 32% entre 1998 e 2018. Hashtags de saúde mental somam bilhões de visualizações no TikTok, e vídeos curtos viraram porta de entrada para esse terapeutiquês.
O formato de conteúdo pode explicar uma parte do sucesso, aliado a uma linguagem acolhedora e a promessa de nomear, em poucos segundos, algo que o usuário sente, mas não consegue explicar. O combo é um caminho simples para falar de emoções — um diferencial importante para quem lida com informações, notificações, telas e estímulos digitais
Só que tem uma pegadinha por trás dessa simplificação. Um levantamento de 500 vídeos com hashtags de saúde mental no TikTok encontrou conteúdo enganoso em 83,7% deles — e em 100% dos vídeos sobre TDAH. Em muitos casos, não havia sequer um aviso de que quem falava não tinha formação na área.
É justamente esse descompasso que o estudo do Scripps College consegue medir: falar mais sobre saúde mental não significa necessariamente entendê-la melhor. Pior: usar esses termos sem conhecimento pode reforçar estereótipos sobre quem vive, de fato, um transtorno mental, embora esse traço não tenha sido estatisticamente validado.
Dá para usar o vocabulário da terapia sem exagerar no diagnóstico?
Nas conversas do dia a dia, esse hábito já começa a aparecer. Um desconforto vira “gatilho”, qualquer DR vira “gaslighting”, uma pessoa desagradável vira “narcisista” e toda expressão dolorosa é rotulada como “trauma”. Em outras palavras, podemos acabar tratando como problema psicológico aquilo que é apenas uma reação normal às dificuldades da vida.
Em um estudo de fevereiro de 2023, pesquisadores de Oxford chamaram atenção para um possível efeito desse mecanismo: quando a pessoa interpreta um desconforto normal como sinal de um problema psicológico, pode começar a evitar situações que considera difíceis. Essa fuga pode acabar aumentando o próprio mal-estar.
Não se trata aqui de evitar a linguagem psicológica. Na verdade, esse vocabulário técnico pode ser o primeiro caminho para reconhecer um sofrimento antes impossível de explicar. No entanto, quando pouco compreendido, pode virar rótulo, atalho argumentativo ou até uma forma de calar o outro.
Talvez a principal conclusão do estudo de Zoe Stephens seja que consciência e conhecimento não são a mesma coisa. O perigo dessa confusão é que, quando todo mundo é narcisista, ninguém mais é. E, se qualquer conflito é gaslighting, fica muito mais difícil denunciar uma forma séria e prejudicial de manipulação psicológica.