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Não digo que antigamente sempre fosse melhor, mas às vezes era. Naquele tempo, por exemplo, palavras não eram criminalizadas e crianças de 7 anos viviam namoricos ingênuos, com direito a beijinho no rosto e andar de mãos dadas. Se tanto. Foi assim, na condição de namorado, que acabei convidado a ir à casa de Camila. E comer aquela inesquecível nega maluca cujo sabor, textura, esperança e atmosfera busquei por 40 anos.
Lembro pouco e a imaginação provavelmente já se apoderou da realidade. Se fecho os olhos, porém, assim vejo Camila: o nariz muito fino, tipo o da Narizinho, e os cabelos encaracolados à la Shirley Temple. Vestia o uniforme do Madalena Sofia, na época branco e azul-marinho. Depois alguém decidiu mudar para bordô. Havia entre nós um abismo social do qual só fui dar conta muitos anos depois. Não importava. Assim como não importava o nome do bolo. Nunca importou.
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Meu pai, talvez dirigindo um Monza, me deixou ali na casa da Camila. No Jardim Social. Rua Edgard Stellfeld. Aqui novamente a lembrança tenta encontrar a luz entre as heras da imaginação: a escada dentro de casa era sinal de riqueza, bem como o jardim bem cuidado nos fundos da propriedade. Casa de novela. Mansão cuja fachada já tentei reencontrar várias vezes, sem sucesso. Ali passamos a tarde jogando pega-varetas e um outro jogo de cujo nome não me recordo. Tipo uma damas na vertical. Até que nos foi servida a nega maluca. Com Toddy batido.
Cortada em quadradinhos. Perfeitamente doce e achocolatada. Úmida por dentro. Com uma casquinha embaixo e uma cobertura que nunca encontrei igual nem jamais consegui reproduzir. Tinha sabor de inocência, aquela nega maluca. De um futuro que parecia longínquo. Quase inatingível. Inegavelmente seguro. De uma alegria que durante anos se apagou em mim. Eu que volta e meia me lembrava da nega maluca, da Camila e da mansão no Jardim Social, sem entender por que algumas coisas se grudam na memória e outras não.