Proteção financeira ainda é desafio para brasileiros
XII Fórum FenaPrevi discute longevidade, mudanças no trabalho e caminhos para ampliar acesso a seguros e previdência
A possibilidade de perder renda diante de uma doença, invalidez ou outro imprevisto está entre as preocupações dos brasileiros. Ainda assim, seguros e previdência privada fazem parte da vida de uma parcela da população.
A diferença entre o receio de enfrentar essas situações e o preparo para elas foi um dos temas do XII Fórum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada, realizado quarta-feira (16.09), em São Paulo, pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi).
Com o tema “O Amanhã se Constrói Agora”, o encontro reuniu executivos, especialistas, representantes do governo, órgãos reguladores e entidades do setor. Em cinco painéis, a programação tratou do comportamento dos consumidores, do seguro de vida universal, dos desafios da distribuição, do futuro da aposentadoria dos brasileiros e dos efeitos da longevidade e das mudanças nas relações de trabalho.
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Publicado em 2026-09-23 15:32:18A abertura trouxe os resultados da quarta edição da pesquisa FenaPrevi/Datafolha sobre a percepção dos brasileiros em relação à proteção e ao planejamento. Realizado em julho de 2026, o levantamento ouviu 1.908 pessoas com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Os números mostram diferenças entre preocupação e preparo. A falta de acesso a atendimento médico em caso de doença preocupa 72% dos entrevistados, mas somente 28% dizem ter tomado alguma medida para se preparar para essa situação. A morte de um familiar é temida por 70%, enquanto 22% adotaram alguma ação. Uma doença grave preocupa 63%, mas 34% afirmam ter tomado alguma medida de proteção.
A pesquisa mostra ainda que 41% possuem algum seguro ou plano de previdência privada. O seguro funeral aparece em 30% das respostas, seguido pelo seguro de vida, com 18%. A previdência privada é citada por 9%.
Para Edson Franco, presidente da FenaPrevi e CEO da Zurich Brasil, a renda é apenas um dos fatores por trás da baixa contratação de produtos de proteção.
“Eu acho que o primeiro componente é educação financeira, falta de capacidade de planejamento e desinformação”, afirmou.
Por que a proteção ainda fica para depois?
A percepção sobre o custo traz outro dado. Entre os entrevistados que não possuem seguro de vida e o consideram caro, 45% não sabem quanto custa o produto. Na abertura do fórum, Franco acrescentou que apenas 10% fizeram uma cotação.
“Não há como não falar mais uma vez do enorme gap de proteção securitária que existe no nosso país, em particular naquilo que se refere aos produtos de proteção à renda, seja em casos de doença, invalidez, morte prematura ou falta de planejamento previdenciário”, disse.
O presidente da Fenaprevi também relacionou a necessidade de proteção às transformações demográficas. Viver mais traz questões sobre aposentadoria, gastos com saúde e cuidados na velhice.
“E não se trata apenas de dinheiro. Trata-se, principalmente, de planejamento”, afirmou Franco.
Ao comentar os resultados da pesquisa, ele também chamou atenção para a necessidade de tornar as alternativas de proteção mais conhecidas.
“As pessoas já se preocupam com essas questões, só não sabem que existem produtos para cada perfil e que cabem no bolso delas”, afirmou.
Proteção para quem trabalha por conta própria
O crescimento do trabalho autônomo, dos microempreendedores individuais e das atividades mediadas por plataformas apareceu no primeiro painel, dedicado aos resultados da pesquisa. Para quem depende diretamente da própria capacidade de trabalhar, uma doença ou um acidente também pode interromper a renda.
Ângela Assis, vice-presidente da FenaPrevi e presidente da Brasilprev, falou sobre a necessidade de adaptar produtos, linguagem e canais de distribuição a esses profissionais. Coberturas para perda temporária de renda e parcerias com plataformas digitais foram algumas das possibilidades abordadas.
A executiva também citou soluções híbridas, que reúnem diferentes tipos de proteção em produtos mais simples, e a importância de comunicar benefícios que podem ser utilizados diante de imprevistos durante a vida.
Novos produtos e o papel dos corretores
O segundo painel, “Como Aumentar a Proteção Securitária da População – O Papel Relevante do Seguro de Vida Universal”, tratou de uma modalidade já presente em outros mercados e em fase de regulamentação no Brasil. Participaram também Regis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, e Alessandro Octaviani, superintendente da SUSEP, além de representantes de empresas do setor.
A conversa abordou a flexibilidade do Seguro de Vida Universal, sua adaptação a diferentes necessidades ao longo da vida e as condições para o desenvolvimento do produto no país.
Na sequência, o painel “Os Desafios da Distribuição” reuniu representantes de seguradoras e corretores para tratar de qualificação profissional, especialização, tecnologia e atendimento a consumidores com diferentes perfis.
Bernardo Castello, primeiro vice-presidente da FenaPrevi e diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência, destacou a variedade de conhecimentos exigidos dos profissionais.
“O corretor precisa estar preparado para uma conversa muito mais ampla. Não basta conhecer cobertura e processo de subscrição. É preciso entender tributação, legislação, ITCMD e reforma tributária, porque a venda de seguro de vida passa por identificar os momentos e as necessidades do cliente.”
Empresas podem ampliar acesso à previdência
A participação das empresas na previdência também apareceu nas discussões. Segundo dados apresentados no primeiro painel, os incentivos fiscais à previdência empresarial no Brasil estão concentrados nas companhias tributadas pelo lucro real, enquanto os planos corporativos representam menos de 10% dos ativos da previdência privada aberta.
Ângela Assis citou experiências de países como Estados Unidos, Austrália e Canadá, onde as empresas têm participação importante na formação da poupança previdenciária. No Reino Unido, o ‘auto enrollment’ prevê a inclusão automática de trabalhadores em planos de previdência, mecanismo usado para estimular a formação de reservas.
“Tenho convicção absoluta de que nós não vamos democratizar a previdência no Brasil se não ampliarmos os incentivos para as empresas”, afirmou.
Aposentadoria em debate
O assunto teve continuidade à tarde em “A Necessidade de uma Nova Previdência”. Hélio Zylberstajn, professor sênior da FEA-USP, e Paulo Tafner, diretor-presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e pesquisador associado da Fipe, apresentaram propostas para o sistema previdenciário.
Envelhecimento da população, relação entre contribuintes e beneficiários e mudanças no mercado de trabalho estiveram entre os temas abordados. A pesquisa FenaPrevi/Datafolha mostra que, entre os brasileiros que ainda trabalham, 59% gostariam de se aposentar até os 60 anos, mas apenas 28% acreditam que conseguirão. Outros 32% estimam que só deixarão o mercado de trabalho a partir dos 61 anos. Entre os 38% das pessoas não aposentadas que pretendem contar com o INSS na aposentadoria, 65% não sabem quanto receberão na aposentadoria.
O desafio de financiar uma vida mais longa
Na última discussão do dia, o painel “Como Proteger uma Sociedade que Envelhece e Vive por Mais Tempo?”, reuniu Edson Franco; os economistas Eduardo Giannetti e Ana Paula Vescovi; Dyogo Oliveira, diretor-presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg); Devanir Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira das Entidades de Previdência Complementar (Abrapp); e Nilton Molina, presidente do Instituto de Longevidade e Fundo de Pensão MAG.
A conversa tratou das consequências econômicas e sociais da maior longevidade, com reflexos sobre aposentadoria, trabalho, cuidados na velhice e financiamento da Previdência Social.
As mudanças nas relações de trabalho também entraram na discussão. O crescimento de modalidades de contratação fora do emprego formal reduz a parcela de trabalhadores que conta com benefícios vinculados à carteira assinada e altera a base de contribuições para o sistema previdenciário.
Prêmio reconhece iniciativas de educação
No encerramento, a FenaPrevi lançou um prêmio que irá reconhecer iniciativas voltadas à educação securitária e previdenciária, o Prêmio FenaPrevi Multiplica. A apresentação foi feita por Carlos Eduardo Gondim, diretor estatutário da federação e diretor-executivo de Soluções de Acúmulo da Porto Seguro.
Na primeira edição, não haverá divisão por categorias. Serão escolhidas três iniciativas que já estejam em andamento e apresentem resultados e impacto. Podem concorrer ações de comunicação, engajamento, educação e produção acadêmica, entre outras. Os projetos serão avaliados por um comitê independente, e a cerimônia de premiação está prevista para o início de 2027.