A proibição do presidente Donald Trump sobre bebidas alcoólicas canadenses entra em vigor nesta terça-feira (29), uma medida sem precedentes que ressalta o colapso em uma das relações comerciais mais estreitas do mundo.

A proibição, que afeta US$ 800 milhões em bebidas alcoólicas canadenses importadas pelos EUA no ano passado, marca a mais recente investida em uma guerra comercial de retaliações que já inclui tarifas altíssimas e uma proibição de bebidas americanas em Ontário e em outras províncias canadenses.

No entanto, especialistas afirmam que a maioria dos consumidores americanos dificilmente perceberá a proibição de imediato, em parte devido a brechas, isenções e ao fato de que os distribuidores tiveram tempo para estocar bebidas alcoólicas canadenses importadas antes de a proibição entrar em vigor.

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Ao mesmo tempo, com o cenário comercial com o Canadá evoluindo rapidamente, qualquer coisa pode mudar a qualquer momento.

Horas antes de a proibição entrar em vigor, Trump disse estar confiante de que os EUA sairão na frente e espera que o Canadá venha até os americanos com um acordo em breve.

“Eles querem fazer um acordo conosco, nos ligam o tempo todo. O problema é que trataram os Estados Unidos de forma muito injusta”, disse Trump a repórteres na segunda-feira.

“Nas próximas três ou quatro semanas, eles virão até nós e dirão: “Vamos eliminar todas as tarifas“, afirmou Trump. O primeiro-ministro canadense Mark Carney, no entanto, não disse nada nesse sentido.

As letras miúdas

Uísque e licores, duas das principais exportações de bebidas alcoólicas do Canadá para os EUA, estão isentos da proibição quando vendidos em recipientes maiores que quatro litros. Nesses casos, também não estarão sujeitos a nenhuma tarifa.

Mas fazer essa mudança exige ter os recipientes adequados disponíveis ou obtê-los do zero, para então reembalar as versões menores mais comumente vendidas em lojas de bebidas.

Tudo isso pode aumentar os custos das empresas — e potencialmente ser repassado aos preços pagos pelos consumidores.

A Crown Royal parece estar especialmente bem posicionada, já que a empresa já envia remessas a granel de uísque para os Estados Unidos, onde engarrafa todos os produtos vendidos no mercado doméstico.

Além das isenções para remessas a granel, pouquíssimas bebidas alcoólicas enviadas do Canadá foram poupadas.

“Usar proibições de importação contra um aliado não tem precedentes e representa um grande desvio da política comercial dos EUA”, disse Inu Manak, pesquisadora sênior especializada em política comercial no Peterson Institute for International Economics.

“Isso é algo muito simbólico de se atacar. Envia uma mensagem e é mais uma forma de escalada com o objetivo de trazer os negociadores canadenses de volta à mesa. Mas o primeiro-ministro Carney não está com pressa para fechar um acordo antes das eleições de meio de mandato (dos EUA).”

Alguns funcionários e executivos do setor de bebidas alcoólicas expressaram consternação com a escalada da guerra comercial.

“É realmente lamentável que nosso setor tenha sido arrastado para isso”, disse Chris Swonger, presidente e CEO do Distilled Spirits Council of the United States (DISCUS), um grupo de comércio do setor.

“Nós, destiladores americanos, exportamos para o mundo inteiro. Não queremos tarifas aplicadas aos nossos produtos e não queremos tarifas aplicadas às nossas importações. Gostamos de competir pelo gole e pelo sabor, não por tarifas.”

Swonger descreveu a proibição de álcool americano por algumas províncias canadenses como um “erro desnecessário” e expressou esperança de que a proibição americana force uma mudança de política.

“Estamos trabalhando muito para trazer os dois governos de volta à mesa e resolver isso”, disse ele.

Manak observou que as províncias canadenses proibiram o álcool americano apenas em resposta às ameaças de tarifas dos EUA.

“Na linguagem do recreio, foram os Estados Unidos que começaram. O Canadá estava respondendo”, disse ela.

E agora os funcionários americanos estão respondendo a essa resposta, demonstrando como um ciclo escalatório de retaliações mútuas sai do controle.

Confusão na torneira

Um gerente de uma loja de bebidas em Niagara Falls, Nova York, localizada a menos de cinco milhas da fronteira canadense, disse à CNN que está confuso e preocupado com a proibição americana de álcool canadense.

“Temos muitos clientes canadenses e muito licor canadense. Isso não é bom para os negócios”, disse o gerente, que falou sob condição de anonimato. “As pessoas têm liberdade para beber, não é?”

Um funcionário de uma loja de bebidas em Port Huron, Michigan, próxima à fronteira com Ontario, disse igualmente à CNN que muitos de seus clientes compram uísque canadense, incluindo Crown Royal, Black Velvet e Rich and Rare.

Mas o funcionário de uma loja de bebidas alcoólicas em Michigan acrescentou que o movimento de clientes canadenses diminuiu significativamente no último ano, aproximadamente.

“Temos muito menos clientes canadenses do que tínhamos antes”, disse ele.

Para impor a proibição do álcool canadense, Trump está se baseando na Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, a infame lei comercial que agravou a Grande Depressão (e que foi hilariamente mencionada no filme “Ferris Bueller”s Day Off”).

A lei permite que o presidente dos Estados Unidos imponha tarifas de até 50% ou até mesmo proíba determinadas importações quando outro país discrimina o “comércio dos Estados Unidos”, de acordo com o estatuto.

Mas como nenhum presidente antes de Trump usou a lei dessa forma, os tribunais não se pronunciaram sobre o que o governo deve provar para atender aos seus requisitos.

Além do álcool, produtos lácteos canadenses, como o soro de leite, e motocicletas também estão sujeitos a proibições, com o governo Trump alegando, da mesma forma, tratamento injusto às empresas americanas.

No total, as proibições abrangem cerca de US$ 1 bilhão em mercadorias que os EUA importaram do Canadá no ano passado, de acordo com dados federais de comércio.

A proibição parcial canadense de bebidas alcoólicas americanas tem sido prejudicial para a indústria americana.

As exportações de destilados americanos para o Canadá despencaram 70% após as províncias canadenses começarem a retirar vinhos e destilados americanos das prateleiras das lojas em março de 2025, de acordo com a DISCUS.

Mas a indústria de bebidas alcoólicas canadense é especialmente dependente dos consumidores americanos.

Cerca de 93% dos destilados canadenses foram destinados aos Estados Unidos em 2025, de acordo com a DISCUS.

“Vai ser absolutamente devastador para o Canadá e para os destiladores canadenses”, disse Swonger.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/proibicao-de-bebidas-alcoolicas-canadenses-entra-em-vigor-nos-eua/