A combinação de margens apertadas, endividamento e sucessivas perdas provocadas por eventos climáticos pode criar um ambiente mais favorável para o avanço do mercado ilegal de sementes no Brasil. O alerta é da diretora de Biotecnologia e Germoplasma da CropLife Brasil, Catharina Pires, que afirma que produtores mais descapitalizados tendem a ficar mais suscetíveis à compra de insumos de menor preço e origem irregular.

Segundo a executiva, esse cenário é especialmente preocupante em estados como o Rio Grande do Sul, onde agricultores enfrentam uma sequência de dificuldades provocadas por estiagens, enchentes e quebra de safras.

“Em momentos em que o agricultor está mais pressionado e menos capitalizado, aumenta o risco de decisões mais arriscadas. O produtor acaba sendo tentado por opções aparentemente mais baratas, mas que podem ampliar ainda mais sua vulnerabilidade”, afirmou.

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Embora a CropLife Brasil não disponha de dados atualizados sobre a evolução da pirataria após 2024, a entidade afirma que o contexto econômico atual pode favorecer esse mercado ilegal. Por isso, Pires afirma que a entidade intensificou ações de comunicação voltadas aos produtores e ampliou o diálogo com órgãos de fiscalização e demais entidades da cadeia produtiva.

Segundo ela, “o setor de sementes acompanha o nosso ambiente econômico, assim como qualquer outro setor industrial. Câmbio, preço de commodities e o humor do mercado podem impactar”, afirmou. Ela acrescenta que, entre as empresas associadas à entidade, a principal preocupação tem sido justamente o avanço do comércio ilegal. “O que eu escuto das nossas associadas é que a questão do comércio ilegal e da pirataria é o que tem realmente preocupado e criado um gargalo importante para esse segmento industrial”, disse.

De acordo com a diretora, a concorrência com sementes comercializadas ilegalmente reduz espaço para o crescimento das empresas que atuam dentro da legislação e pode afetar a capacidade de investimento em pesquisa e inovação. “Esse comércio ilegal tem deixado o setor sementeiro em uma situação que preocupa. Estamos falando de um setor que tem sido uma engrenagem fundamental da inovação agrícola no Brasil”, afirmou.

O cenário observado atualmente ganha relevância diante dos resultados do levantamento realizado pela CropLife Brasil em parceria com a consultoria Celeres, divulgado em 2024. O estudo estimou que 11% das sementes utilizadas no plantio de soja no país eram de origem ilegal, percentual que chegava a quase 30% no Rio Grande do Sul.

A pesquisa também calculou que o impacto econômico da pirataria de sementes de soja alcança R$ 10 bilhões por ano, considerando os efeitos ao longo da cadeia produtiva. Segundo o levantamento, a eliminação desse mercado poderia representar um aumento anual de R$ 2,5 bilhões na receita dos produtores rurais, R$ 4 bilhões para o setor de produção de sementes, R$ 1,2 bilhão para a agroindústria de farelo e óleo de soja e R$ 1,5 bilhão nas exportações do agronegócio.

Além disso, o estudo estima que a pirataria de sementes pode resultar em uma perda de aproximadamente R$ 1 bilhão em arrecadação de impostos ao longo de dez anos.

Os dados também indicam impactos sobre a produtividade. De acordo com a pesquisa, a produtividade média da soja brasileira na safra 2023/24 foi de 59 sacas por hectare, enquanto o uso de sementes ilegais esteve associado a uma perda média de 17% na produtividade, o equivalente a cerca de quatro sacas por hectare.

A CropLife Brasil afirma que pretende repetir o estudo a cada cinco anos para acompanhar a evolução do mercado e avaliar os efeitos das iniciativas voltadas ao combate ao comércio ilegal de sementes.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/pressao-financeira-amplia-risco-de-pirataria-de-sementes-no-agro/