Após uma recuperação nas cotações em junho e julho, o mercado de leite deve entrar em uma trajetória de desaceleração no segundo semestre.
A avaliação é do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Paulo do Carmo Martins, que aponta uma combinação de fatores para pressionar os preços pagos ao produtor: avanço da produção, menor poder de compra das famílias, aumento do endividamento dos consumidores e incertezas climáticas.
Segundo Martins, a valorização registrada no início do segundo semestre já era esperada pelo comportamento sazonal da atividade. Durante a entressafra, período em que a oferta de leite diminui, os preços tradicionalmente reagem.
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Publicado em 2026-07-31 18:00:20“O comportamento de junho e julho era esperado. Agora, a tendência é de queda. A questão é saber em que velocidade isso vai acontecer”, afirma Martins.
A intensidade da redução das cotações, no entanto, dependerá principalmente da capacidade de consumo das famílias brasileiras. Para o pesquisador, o cenário econômico deve limitar a demanda por produtos lácteos nos próximos meses.
“O endividamento das famílias continua elevado e a renda começa a mostrar sinais de enfraquecimento. Quando o orçamento aperta, o consumidor passa a fazer escolhas dentro do supermercado”, explica.
Derivados mais caros sentem primeiro a retração
O impacto da perda de renda tende a ser mais forte sobre produtos de maior valor agregado, como queijos especiais, iogurtes, sobremesas lácteas e manteiga. Já o leite UHT, por ser considerado um item básico da cesta de compras, tende a sofrer menos.
“O setor de lácteos é muito sensível à renda. Quando o consumidor perde poder aquisitivo, ele reduz primeiro o consumo dos produtos mais caros. Isso acaba afetando toda a cadeia e diminui a capacidade da indústria de pagar mais pelo leite ao produtor”, afirma Marti
Comportamento dos preços dos derivados
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o comportamento dos derivados foi diferente no atacado paulista em junho. Enquanto a muçarela e o leite em pó permaneceram praticamente estáveis, com leves altas de 0,08% e 0,38%, respectivamente, o leite UHT registrou queda de 3,07%.
Com isso, as médias ficaram em R$ 35,19 por quilo para a muçarela, R$ 31,89 por quilo para o leite em pó e R$ 4,53 por litro para o leite UHT.
Segundo pesquisadores do Cepea, a queda do UHT refletiu um descompasso entre oferta e demanda: a produção permaneceu elevada, mas a comercialização não acompanhou o mesmo ritmo, pressionando as cotações.
Na primeira quinzena de julho, porém, houve reação nos preços. A muçarela avançou 0,41%, chegando a R$ 35,33/kg, enquanto o leite UHT subiu 5,81%, para R$ 4,79/litro. Apesar da alta, o mercado continuou desaquecido, com menor saída de produtos em razão do período de férias escolares.
Produção cresce, mas cadeia passa por transformação
Além dos fatores conjunturais, o setor leiteiro enfrenta uma mudança estrutural. De acordo com Martins, produtores de menor escala vêm deixando a atividade diante da elevação dos custos e da necessidade de investimentos em tecnologia.
Enquanto isso, propriedades mais tecnificadas seguem ampliando produtividade e escala.
“Os pequenos estão saindo da atividade porque têm dificuldade para acompanhar o aumento dos custos. Já os produtores maiores continuam investindo para produzir mais. O foco hoje é ganhar eficiência”, afirma.
Esse movimento tem alterado o perfil da produção brasileira, com concentração crescente em sistemas mais eficientes e profissionalizados.
Clima pode limitar queda das cotações
Apesar da expectativa de maior oferta, o clima continua sendo uma variável importante para o mercado. A possível influência do fenômeno El Niño pode trazer excesso de chuvas para a Região Sul, principal polo produtor de leite do país.
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná já superam a Região Sudeste em volume produzido, segundo dados do setor.
Caso ocorram precipitações intensas, a produção pode ser afetada, reduzindo a disponibilidade de leite e limitando a queda dos preços.
“O impacto vai depender da intensidade das chuvas. Se houver excesso de precipitação no Sul, isso pode reduzir a produção de leite e limitar a queda dos preços”, avalia Martins.
Para o segundo semestre, o cenário projetado combina maior disponibilidade de leite, demanda interna mais fraca e incertezas climáticas, indicando um mercado mais pressionado para produtores e indústrias.