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Convocado por Carlo Ancelotti para a sua quarta Copa do Mundo, Neymar Júnior é uma figura que transcende as quatro linhas do campo de futebol e tem cada vez mais seu nome debatido nas páginas políticas. Desde 2014 declarando voto contra candidatos petistas, o atleta não possui simpatia de grande parte da esquerda brasileira.
E essa não é apenas uma impressão: pesquisas recentes indicaram que posicionamentos políticos afetaram a opinião sobre a ida de Neymar à competição de seleções mais importante do ano.
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Publicado em 2026-05-27 11:08:56Segundo um levantamento realizado pela Genial/Quaest, cerca de 60% dos eleitores de esquerda se posicionaram contra a ida do jogador à competição e apenas 33% favoráveis; no campo da direita, aproximadamente 58% gostariam que o atleta estivesse na lista de Ancelotti. No quadro geral, o país apresentou uma divisão: 47% se posicionaram a favor, enquanto 45% contra.
Mas o que explica essa rejeição por parte da esquerda?
O apoio de Neymar a Aécio Neves
Doze anos atrás, em um cenário político eleitoral diferente e menos polarizado que o atual, Neymar, à época estrela do Barcelona e candidato ao prêmio de melhor jogador do mundo, se posicionou em favor do candidato Aécio Neves (PSDB) contra a presidente Dilma Rousseff (PT), que buscava a reeleição.
Em um vídeo publicado no Facebook, o atleta afirmou:"Não podemos ter medo de nos posicionar". Ele disse que escolheu apoiar o tucano por se "identificar muito com a proposta que ele tem para o Brasil".
O comunicado veio dias após apoiadores de Dilma usarem uma foto manipulada do jogador, na qual uma mensagem de feliz aniversário ao filho foi alterada para simular apoio à candidata.
"A verdade é que o atleta postou uma foto sua segurando um cartaz com mensagem de parabéns ao filho, por quem ainda declara o seu amor. O que aconteceu é que a frase foi maldosamente alterada em benefício de um partido político", criticou na época a 9ine, empresa que gerenciava o atleta.
O apoio de Neymar somou-se ao de outros famosos futebolistas como Ronaldo, Romário e Ronaldinho Gaúcho, foi bem recebido por Aécio e usado em sua plataforma eleitoral.
Antipatia de comentaristas de esquerda
O ex-futebolista de esquerda Walter Casagrande, crítico de jogadores de futebol que não se posicionam politicamente, mas crítico de Neymar por seu posicionamento político, é um pilar importante para entender a relação conturbada entre imprensa e Neymar.
Pivô do “fim do relacionamento” entre o jogador e a Rede Globo, o ex-jogador do Corinthians sempre fez questão de alfinetar comportamentos extracampo de Neymar, criticando desde o emocional e a vida pessoal do atleta até seus posicionamentos políticos.
Em uma oportunidade, o comentarista afirmou que passaria a não torcer para o Brasil enquanto Neymar estivesse em campo e opinou que o craque "não sabe o que é ser patriota".
"Neymar mostrou sua incoerência, alienação e falta de consciência social [após apoio a Bolsonaro]. Não torço contra a Seleção, mas de hoje em diante, não torcerei mais quando Neymar estiver em campo. Sabem por quê? Porque eu amo o meu país”, disse o comentarista.
O ex-jogador também afirmou que o posicionamento pró-Bolsonaro em 2022 "parece o seu comportamento na Copa de 2018, em que você só se jogava no chão e foi patético. Agora você está no chão novamente, só que com um assunto ainda mais sério”.
“Neymar, agora você precisa jogar bem na Copa para o Brasil ganhar o hexa, porque você apoia um candidato que será derrotado e tentará um golpe de Estado. Ops, desculpa, camisa 10. Você não deve nem saber o que é um golpe de Estado”, disse Casagrande.
Também respeitado no meio jornalístico e com posicionamentos de esquerda, Juca Kfouri é outro comentarista "linha dura" quando o assunto é Neymar, e um dos principais expoentes — sem provas — da tese de que a relação entre o jogador e Bolsonaro tem possível cunho criminoso.
Apoiando-se em uma reunião entre o pai de Neymar, a Receita Federal e o ex-ministro da economia Paulo Guedes, em 2019, o jornalista aponta para uma suposta relação de conveniência entre a família do jogador e o governo Bolsonaro, e já insinuou que “problemas que a família tem com o Fisco” poderiam ter sido usados como elemento de pressão política durante a última gestão federal.
Em seu último comentário sobre o caso, o jornalista criticou a ida de Neymar à Copa do Mundo e opinou: "Neymar é como os Bolsonaros, faz tudo errado mas está sempre no meio da notícia".
Outro comentarista assumidamente de esquerda e crítico do jogador é o ex-atleta Juninho Pernambucano. "Eu fico enojado quando vejo jogadores brasileiros de direita como Neymar apoiando fascistas”, escreveu o ex-comentarista da Globo no X. “Nós viemos de baixo e somos o povo. Como podemos estar do outro lado?”, completou.
"Bibi, estamos chegando"
Antes de mergulhar de vez na campanha de Bolsonaro, um vídeo em que o atleta responde a um convite do ex-presidente e do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, também inflou debates políticos.
Na gravação, ambos os líderes convidam Neymar e o surfista Gabriel Medina para visitarem Israel. O jogador responde: "Olá Bibi e Bolsonaro. Obrigado por nos convidarem. Israel, estamos indo!".
"Bibi" é o apelido de infância do israelense, e até hoje muito popular entre seus apoiadores.
Publicado uma semana antes das eleições legislativas em Israel, o episódio foi classificado pela imprensa local como parte de uma tentativa de Netanyahu de aliar sua imagem a personalidades influentes, além de usar a visita oficial de Bolsonaro como um ganho eleitoral.
Para um dos jornais israelenses mais importantes, o Haaretz, Neymar pareceu "estar ajudando" o líder que tentou — e conseguiu — a reeleição.
O periódico compartilhou críticas de perfis que acusavam o atleta de ser de “extrema-direita” e afirmou: “Muitos brasileiros criticaram a manifestação de apoio de Neymar a Israel e a Netanyahu em particular.”
Apoio de Neymar a Bolsonaro fez esquerdistas celebrarem sua contusão
Após não se posicionar em 2018, Neymar, há poucos dias da eleição de 2022, se manifestou a favor da reeleição de Jair Bolsonaro (PL). O apoio veio através de um vídeo compartilhado em suas redes sociais, em que dançava uma música de apoio ao presidenciável.
Posteriormente, o atleta também participou de uma "megalive" com o mandatário em exercício, na qual declarou que seu apoio era uma retribuição à ajuda que recebeu no "pior momento" de sua vida — sem detalhar exatamente ao que se referia.
Em contrapartida, Lula ironizou o apoio do jogador o provocou: "Não fico puto [com o posicionamento], o Neymar tem direito de escolher o que ele quiser para ser presidente. Eu acho que ele está com medo se eu ganhar as eleições eu vá saber o que o Bolsonaro perdoou da dívida do Imposto de Renda dele. Eu acho que é isso que ele está com medo", disse o atual mandatário ao podcast Flow.
Após críticas ao seu posicionamento, Neymar questionou: "Falam em democracia e um montão de coisa, mas quando alguém tem uma opinião diferente é atacado pelas próprias pessoas que falam em democracia. Vai entender".
Petistas celebraram contusão de Neymar
Alvo de críticas políticas e pessoais por parte de militantes e políticos de esquerda durante a Copa do Mundo de 2022, um mês após o pleito federal, Neymar sofreu um entorse no tornozelo e deixou a estreia da competição chorando. A contusão foi celebrada por expoentes esquerdistas.
“Machucou, agorinha! Tava andando e colocou a mão na perna! Agora, agorinha!”, debochou o deputado federal André Janones (Avante-MG), fazendo alusão a um vídeo do pastor Márcio Valadão.
Na mesma linha, a petista Gleisi Hoffman ironizou a saída do jogador: "Foi tarde".
Já o humorista de esquerda Gregório Duvivier afirmou que zoar Neymar "é um dever cívico".
"'Ah, mas é futebol, não tem nada a ver com política!’ Fala isso pro Neymar, c... Ninguém obrigou ele a declarar voto, entrar na live do B., fazer 22 e prometer dedicar gol pra um bandido miliciano golpista que perdeu a eleição", disse o humorista.
Após as declarações "pegarem mal", Guilherme Boulos (PSOL-SP) minimizou a fala de Gleisi Hoffman e afirmou não achar adequadas as celebrações da contusão do camisa 10.
"Numa democracia ele tem o direito de ter suas posições, e espero que se recupere", disse Boulos à CNN Brasil.
A curiosa relação PCO-Neymar
Apesar de grande parte da esquerda identitária rechaçar a figura de Neymar, existe um pequeno grupo de militantes radicais de esquerda que apoiam o jogador.
Frequentemente, o Partido da Causa Operária (PCO) se manifesta a favor do craque. Isso porque, para a legenda, Neymar representa o "real talento brasileiro" em um esporte dominado pelos "negócios imperialistas".
"Não é porque um jogador apoiou Bolsonaro ou um outro tenha uma opinião atrasada – esses jogadores não são intelectuais, são pessoas do povo – que devemos desconsiderar o seu bom futebol. (...) Não há relação entre torcer contra um jogador porque ele é evangélico, bolsonarista ou outras coisas que o valham", opina o jornal do partido.
Além de defenderem a liberdade do jogador se posicionar politicamente, o PCO se coloca contra "perseguição odiosa da esquerda pequeno-burguesa" contra o atleta.
"Neymar é alvo de uma ampla campanha contra sua pessoa porque representa, no momento, o futebol campeão de cinco taças do mundo, o futebol arte que sempre se livrou da truculência das seleções europeias".
Para o partido extremista que apoia o grupo terrorista Hamas, Neymar "deve ser visto como um patrimônio do povo, na luta pela soberania nacional, por isso a defesa do esporte feita por este diário".
Direita abraçou Neymar
Se por um lado integrantes da esquerda identitária têm uma visão crítica acerca da figura de Neymar, por outro, a direita resolveu "abraçar" o jogador — o que polariza ainda mais sua imagem.
Nikolas Ferreira (PL-MG) é um dos que não escondem sua admiração pelo futebolista. Frequentemente se manifestando em seu favor, o político foi à Vila Belmiro para a reestreia de Neymar no Santos e após a partida, foi presenteado com um autógrafo. "O Neymar voltou para o Santos; e você, quando vai voltar para a igreja?", brincou o deputado.
Ambos aparentam manter uma relação pessoal. Em setembro de 2023, Neymar participou do chá de revelação do jovem congressista.
Outros colegas de Câmara seguem o mesmo posicionamento. Hélio Lopes (PL-RJ) chegou a enviar um ofício para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) suplicando pela convocação de Neymar para a Copa deste ano.
No documento, Lopes pontuou que o jogador "não é apenas um jogador", e sim "o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira e um símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores".
"O presente documento representa apenas a manifestação legítima de milhões de brasileiros apaixonados pelo futebol e pela história da nossa Seleção", diz um trecho.
Após a convocação, o político celebrou e disse que Ancelotti "ouviu o Brasil e não o Lula".
Com posicionamento semelhante, o deputado Sargento Fahur (PL-PR) comemorou a ida do camisa 10 à Copa provocando o PT. No vídeo em que acompanha a lista de selecionados, ao ouvir o nome de Neymar, Fahur e grita: "Chupa PT!".
Também tentando politizar em cima da convocação, o pré-candidato Flávio Bolsonaro, logo após o anúncio do técnico italiano, publicou uma foto dele com o craque.
O Partido Liberal postou um vídeo com recursos de inteligência artificial (IA) que coloca Flávio dentro de um campo, como se fosse um jogador do Brasil. "Hoje tem convocação da seleção e o nosso jogador principal já foi escalado. FLÁVIO É NEYMAR. NEYMAR É FLÁVIO", diz a legenda.