Quais são os melhores livros de não-ficção deste século? (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

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Além de incompletas e controversas, as listas de livros são também potencialmente perigosas. Porque mesmo as melhores e mais honestas – sendo, naturalmente, apenas uma coleção de títulos – carregam uma pretensão que costuma iludir os leitores médios. A maior parte desses leitores, ao receber uma relação de nomes de publicações interessantes, passa a vista de alto a baixo, avalia e, por fim, coloca-a onde é seu destino inexorável: a gaveta – não sem, antes, acalentar a sensação de ter ficado um pouquinho mais inteligente pelo mero contato visual com uma porção de nomes de livros supostamente bons. Parafraseando Ortega y Gasset, concluamos: a obra de caridade mais própria do nosso tempo é não publicar listas de livros desnecessárias.

Por que, então, organizamos mais uma lista de livros? É que em abril deste ano, a Folha de São Paulo publicou uma lista dos melhores livros brasileiros de não ficção do século XXI, fruto da consulta a cem especialistas convidados pelo jornal. Lembrando o título do livro de Nelson Werneck Sodré publicado em 1960, o resultado da votação dos jurados nos lançou a pergunta: então são estes os livros que se devem ler para conhecer o Brasil? A resposta mais honesta nos pareceu ser: não exatamente.

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A iniciativa da Folha de São Paulo tem mérito. Reunir um júri, pedir justificativas, divulgar critérios: provavelmente deu um trabalho danado, e o resultado — da etnografia de Davi Kopenawa ao relato historiográfico de Laurentino Gomes, passando por Lilia Schwarcz e Heloisa Starling — é uma lista que merece ser discutida.

Porém, curatore, traditore. Toda lista traz a marca de seu idealizador. Quando observamos com atenção os cem nomes convidados pela Folha — majoritariamente oriundos do ecossistema de universidades, da grande imprensa e de instituições culturais de espectro ideológico bem definido —, o resultado não surpreende, fruto que é de um júri recrutado dentro de fronteiras intelectuais que não representam, por amostra, a produção intelectual brasileira dos últimos vinte e cinco anos. A lista da Folha é retrato fiel do pensamento progressista brasileiro contemporâneo e daquilo que ele tolera ler no limite de suas crenças, ou seja, um retrato bastante incompleto da produção intelectual brasileira dos últimos anos. Não há ali liberalismo clássico, nem conservadorismo filosófico, não há livros de crítica à esquerda, não há pensamento católico contemporâneo e não há filosofia acadêmica de orientação não progressista. É que um júri de perfil homogêneo, por mais bem-intencionado que seja, não enxerga, no conjunto, o que está fora do seu próprio repertório.

Para ir além da lista da Folha, eu e o economista gaúcho Lucas Mendes convidamos quinze intelectuais, escritores e pesquisadores brasileiros de formações e tradições deliberadamente diversas para responder à mesma pergunta com critérios mais largos. Perguntamos não quais são os melhores livros — julgamento estético que dificilmente produz consenso —, mas quais são os livros mais relevantes: aqueles que, independentemente de concordarmos com suas teses, contribuíram de alguma forma para o debate de ideias no Brasil. A identificação da relevância do livro foi delineada com base nos seguintes critérios: (i) O livro contribuiu para o debate de temas nacionais – debate histórico, sociológico, cultural, literário, científico, jurídico etc? (ii) O livro contribuiu para o debate interno sobre temas não necessariamente nacionais – filosofia, política internacional, ciência, arte etc? (iii) Embora não tenha gerado debate relevante, o livro permitiu o estudo do tema proposto e sua compreensão de maneira destacada?

Apesar de contar com um número bem menor de contribuições, parece-nos que chegamos a vinte e cinco livros que não podem ser ignorados por quem queira entender o pensamento brasileiro – ou produzido no Brasil – deste século. A lista resultante reúne, lado a lado, autores que normalmente não dividem o mesmo espaço editorial — Paulo Arantes e Olavo de Carvalho, Elio Gaspari e Ricardo Vélez Rodríguez, José Murilo de Carvalho e Flávio Gordon. Essa convivência, rara nos debates públicos nacionais, indica que o exercício funcionou: o resultado não é um espelho invertido da lista da Folha, mas algo genuinamente mais plural — porque o júri que o produziu também era mais plural.

Os dois livros mais votados foram Getúlio, de Lira Neto – considerado o mais ambicioso e rigoroso projeto biográfico do jornalismo literário brasileiro contemporâneo, cobrindo desde as origens gaúchas do político até o suicídio de 1954. Segundo um dos jurados, “é a biografia que você precisa ler para entender o Brasil desde sempre”; e O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, de Olavo de Carvalho, “responsável por apresentar as ideias de Olavo de Carvalho de maneira organizada para o grande público” e “o livro mais amaldiçoado já publicado no Brasil”, segundo a justificativa apresentada por dois jurados.

Aos dois seguem outros seis: À Sombra da Modernidade: Ensaios sobre Antimodernismos, de Fabrício Tavares de Moraes (que busca mostrar que a posição antimoderna não é nostalgia reacionária, mas uma forma específica de lucidez), A Organização, de Malu Gaspar (“uma obra-prima da reportagem”, na opinião de um jurado), A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha (uma história heterodoxa da literatura brasileira que esmiúça o cânone consagrado pela crítica e provoca desconforto em gregos e baianos), Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto (livro que busca desmontar a tese de que o imperialismo britânico foi o motor do conflito, tese que transformava o Brasil num fantoche e Solano López num herói nacional mal compreendido), Marxismo e Descendência, de Antonio Paim (na opinião de um jurado, “Paim é o historiador das ideias filosóficas brasileiras com produção mais sistemática e maior amplitude cronológica”, combinando nesta obra “conhecimento interno da tradição, dado que foi membro do PCB, com a perspectiva crítica madura do pensamento liberal a que aderiu posteriormente”) e O Novo Tempo do Mundo, de Paulo Eduardo Arantes (cuja tese central é que o tempo histórico mudou de estrutura: saímos de um regime em que o futuro funcionava como horizonte de expectativa e entramos num presente perpétuo de gestão de catástrofes, onde a política se reduz a administrar emergências sem projeto).

Participaram da eleição, como jurados: André de Leones, Luis Villaverde, Pedro Adamy, Karleno Bocarro, Martim Vasques da Cunha, Dionisius Amêndola, Alex Catharino, Hugo Langone, Gustavo Ferreira, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, Fábio Bertato, José Lorêdo Filho, Marize Schöns, Felipe Sabino e João Eigen. Nenhum deles votou em obras de sua própria autoria. Para compor a lista final, os organizadores votaram, cada um, em um livro.

Os demais livros eleitos – A Metafísica da Revolução, de Daniel Scherer, Dom Pedro II, de José Murilo de Carvalho e História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira, entre outros – fazem da lista um convite à leitura e à reflexão. Mais do que uma relação de títulos, o que gostaríamos de ver no Brasil – a começar neste ano eleitoral, que promete nos bombardear com uma boa dose de elementos dispersivos – é o renascimento da tradição de debates que episodicamente fez parte de nossa cultura.

Bruno Magalhães é escritor e mestre em Filosofia pela PUC-SP, onde pesquisou a respeito do caráter iniciático da educação filosófica na obra de Platão. Graduado em Direito (UFMG), é procurador da República em Belo Horizonte. Lucas Mendes é graduado em Economia, com MBA em Gestão e Mercado de Capitais. É mestre em Filosofia e Ética (UFSM).

LIVROS BRASILEIROS DE NÃO FICÇÃO MAIS RELEVANTES DO SÉCULO XXI

1. Getúlio, de Lira Neto — Companhia das Letras, 2012 (vol. 1: 1882–1930)

2. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, de Olavo de Carvalho — Record, 2013

3. À Sombra da Modernidade: Ensaios sobre Antimodernos, de Fabrício Tavares de Moraes — Academia Monergista, 2023

4. A Organização, de Malu Gaspar — Companhia das Letras, 2020

5. A Poeira da Glória: Uma Inesperada História da Literatura Brasileira, de Martim Vasques da Cunha — Record, 2015

6. Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto — Companhia das Letras, 2002

7. Marxismo e Descendência, de Antonio Paim — Vide Editorial, 2009

8. O Novo Tempo do Mundo, de Paulo Arantes — Boitempo, 2014

9. A Corrupção da Inteligência, de Flávio Gordon — Record, 2017

10. A Filosofia e Seu Inverso, de Olavo de Carvalho — Vide Editorial, 2012

11. A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de Alberto da Costa e Silva — Nova Fronteira, 2002

12. A Metafísica da Revolução, de Daniel Scherer — Edições Santo Tomás, 2021

13. A Tirania dos Especialistas, de Martim Vasques da Cunha — Civilização Brasileira, 2019

14. As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e a Reacionários, de João Pereira Coutinho — Três Estrelas, 2014

15. Capanema: Biografia, de Fábio Silvestre Cardoso — Record, 2019

16. Dom Pedro II, de José Murilo de Carvalho — Companhia das Letras, 2007

17. História da Literatura Brasileira: da Carta de Caminha aos Contemporâneos, de Carlos Nejar — LeYa, 2011 (há uma edição anterior pela Relume Dumará, 2007)

18. História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira — Estação Brasil, 2017

19. O Liberalismo Francês: A Tradição Doutrinária e sua Influência no Brasil, de Ricardo Vélez Rodríguez — Editora E.D.A., 2023

20. Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen — Record, 2015

21. Pré-História e História: As Instituições e as Ideias em seus Fundamentos Religiosos, de Maurício G. Righi — É Realizações, 2017

22. Trincheira Tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro — Companhia das Letras, 2025

23. As Ilusões Armadas, de Elio Gaspari — Companhia das Letras, 2002 (conjunto de A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada)

24. Estudos Neokantianos, de Mário Ariel González Porta — Loyola, 2011
25. País dos Petralhas, de Reinaldo Azevedo — Record, 2008

Bruno Magalhães é escritor e mestre em Filosofia pela PUC-SP, onde pesquisou a respeito do caráter iniciático da educação filosófica na obra de Platão. Graduado em Direito (UFMG), é procurador da República em Belo Horizonte.

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