A obesidade não é uma escolha. O tratamento, sim, deve ser uma escolha possível, acessível e livre de preconceitos. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Durante décadas, a obesidade foi tratada como uma consequência simples de escolhas individuais. A narrativa era conhecida: comer menos, se exercitar mais e ter disciplina. Quem não conseguia emagrecer era frequentemente visto como alguém sem força de vontade. Hoje, a ciência já demonstrou que essa visão é limitada, injusta e, principalmente, prejudicial.

A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Envolve fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais, psicológicos e sociais. Ainda assim, continua sendo uma das poucas condições médicas em que o paciente frequentemente é responsabilizado pela própria doença.

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Esse estigma não é apenas uma questão de preconceito. Ele produz consequências reais. Pessoas com obesidade costumam adiar consultas médicas por medo de julgamentos, recebem diagnósticos tardios e, muitas vezes, têm suas queixas atribuídas exclusivamente ao peso corporal, mesmo quando existem outras doenças envolvidas. O resultado é pior acesso à saúde e maior risco de complicações.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que, em 2022, cerca de 890 milhões de adultos viviam com obesidade no mundo. A prevalência global mais que dobrou desde 1990, atingindo aproximadamente 16% da população adulta mundial. Hoje, uma em cada oito pessoas no planeta vive com obesidade.

Quando deixamos de enxergar a obesidade como uma falha moral e passamos a reconhecê-la como uma doença, abrimos espaço para algo essencial na medicina: o cuidado baseado em ciência, empatia e respeito

Mais preocupantes ainda são as projeções para as próximas décadas. O World Obesity Atlas 2025 estima que o número de adultos com obesidade poderá ultrapassar 1,13 bilhão até 2030, um aumento superior a 115% em relação aos níveis observados em 2010. Os pesquisadores alertam que a maioria dos países ainda não possui políticas públicas suficientemente estruturadas para enfrentar esse crescimento.

Nos últimos anos, a chegada de novas medicações para o tratamento da obesidade trouxe uma mudança importante para o debate público. Pela primeira vez, milhões de pessoas passaram a enxergar a doença sob uma perspectiva biológica. Ao mesmo tempo, surgiram novas distorções. Medicamentos passaram a ser vistos como soluções mágicas, enquanto pacientes continuam sendo julgados por utilizá-los.

A verdade é que não existe tratamento simples para uma doença complexa. A obesidade não se resolve com uma única estratégia. O cuidado exige acompanhamento médico, mudanças sustentáveis no estilo de vida, suporte nutricional, atenção à saúde mental e, em muitos casos, medicamentos ou cirurgia bariátrica. Assim como acontece com hipertensão, diabetes ou asma, o tratamento precisa ser individualizado e de longo prazo.

Outro ponto que merece atenção é a falsa ideia de que a obesidade deve ser tratada apenas quando provoca limitações físicas evidentes. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, esteatose hepática, apneia do sono e diversos tipos de câncer. Muitas dessas complicações se desenvolvem silenciosamente durante anos.

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Além disso, a discussão sobre obesidade frequentemente ignora os determinantes sociais da saúde. Nem todas as pessoas têm acesso aos mesmos ambientes, alimentos, oportunidades de atividade física ou acompanhamento médico especializado. Falar sobre responsabilidade individual sem considerar essas desigualdades significa ignorar uma parte importante do problema.

Um estudo global publicado na revista científica The Lancet em 2024 trouxe outro alerta importante: o número de pessoas vivendo com obesidade no mundo já ultrapassa 1 bilhão. A pesquisa, que analisou dados de mais de 220 milhões de indivíduos em cerca de 190 países, mostrou que a obesidade cresceu em praticamente todas as regiões do planeta e em todas as faixas etárias. Entre crianças e adolescentes, a prevalência quadruplicou nas últimas três décadas.

Mais recentemente, uma análise publicada em 2025 apontou que, mantidas as tendências atuais, mais da metade dos adultos do mundo poderá viver com sobrepeso ou obesidade até 2050. O estudo classificou esse cenário como uma ameaça sem precedentes para os sistemas de saúde, devido ao aumento esperado de doenças crônicas e dos custos assistenciais.

Talvez a principal mudança que precisamos fazer seja cultural. Precisamos parar de associar peso corporal a caráter. Ninguém culpa um paciente hipertenso por apresentar pressão alta. Ninguém acusa uma pessoa com diabetes de falta de esforço porque sua glicemia está descontrolada. Com a obesidade, porém, esse julgamento ainda é comum.

Quando deixamos de enxergar a obesidade como uma falha moral e passamos a reconhecê-la como uma doença, abrimos espaço para algo essencial na medicina: o cuidado baseado em ciência, empatia e respeito. A obesidade não é uma escolha. O tratamento, sim, deve ser uma escolha possível, acessível e livre de preconceitos.

Igor Viana é médico clínico com especialização em endocrinologia e atua no diagnóstico e tratamento de doenças metabólicas, obesidade e condições relacionadas à longevidade e qualidade de vida.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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