O resgate dos trilhos é o caminho para o Rio
Diego Garcia argumenta, em artigo à CNN Infra, que a disparidade tarifária e a falta de novos investimentos no transporte estruturante forçam o passageiro a escolher alternativas de mobilidade mais cansativas, ineficientes e menos sustentáveis para a cidade
A recente sanção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo (Lei 15.432/2026) inaugurou uma nova era regulatória no país ao romper definitivamente com a dependência exclusiva das tarifas pagas pelos passageiros para o custeio dos sistemas. Ao incentivar o uso de receitas extratarifárias, subsídios cruzados e aportes governamentais voltados à modicidade, o novo texto legal reconhece que a mobilidade de massa é uma engrenagem essencial para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental das metrópoles.
Alinhado a essa urgência nacional, o recém-lançado Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, apresentado pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, mapeou uma robusta carteira de projetos estruturantes cuja premissa central é a devolução do tempo útil ao cidadão, por meio de redes integradas e integráveis. No entanto, para que o Rio de Janeiro se beneficie desse novo ecossistema de investimentos, o poder público local precisa enfrentar, com pragmatismo, os gargalos tarifários que ainda isolam sua população dos eixos de alta capacidade.
Embora o sistema de trilhos do estado do Rio tenha elevado potencial operacional, a falta de investimentos que estimulem o uso do transporte de massa ainda impõe ao cidadão uma jornada ineficiente, longa e cansativa. Neste ano, o Governo do Estado anunciou o custeio de R$ 0,30 por passagem do metrô, evitando o reajuste tarifário. Ainda assim, a tarifa atual — fixada em R$ 7,90, a mais cara do país — reforça a necessidade de uma política consistente de subsídios e expõe o risco do ciclo vigente: o alto custo expulsa o usuário, e a queda na receita compromete a sustentabilidade econômica do serviço e dos investimentos. A tarifa cobrada nos trens é de R$ 7,60, situando-se também no rol das mais custosas para o cidadão.
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Publicado em 2026-07-15 09:26:16A lógica atual não apenas ignora a função social do transporte de grande capacidade, como também induz o passageiro a buscar soluções menos eficientes e menos sustentáveis. O Estado tem, contudo, a oportunidade de se espelhar em exemplos como São Paulo e Salvador, onde o subsídio público cobre entre 53% e 59% do custo real da operação, garantindo tarifas de R$ 4,40 e R$ 5,20, respectivamente, e assegurando a manutenção da demanda. No fim do dia, quem ganha é o cidadão: mais tempo, mais segurança e melhor qualidade de vida.
Dados de monitoramento de mobilidade urbana frequentemente apontam o Rio de Janeiro entre as cidades com os maiores tempos médios de deslocamento do mundo, ultrapassando uma hora por trecho. Essa ineficiência logística drena a produtividade e a qualidade de vida do trabalhador, que se vê obrigado a desperdiçar anos de sua vida útil em trânsito e baldeações.
Paralelamente, a busca por alternativas mais baratas tem impulsionado a migração para o transporte individual, notadamente as motocicletas. O resultado é um aumento preocupante no número de acidentes e óbitos, o que gera pressão adicional — e evitável — sobre o sistema de saúde pública fluminense. Além disso, com relação às emissões de gases poluentes, de acordo com a CNT (Confederação Nacional do Transporte), os carros e motos são responsáveis por 70% das emissões totais nos centros urbanos brasileiros.
O governo pode liderar a transição para um modelo economicamente e ambientalmente sustentável. Atualmente, o sistema de trilhos responde por apenas 0,3% das emissões urbanas de CO2, enquanto o transporte por ônibus emite 11,65 vezes mais gases poluentes por passageiro-quilômetro. No entanto, a política vigente destina 90% dos subsídios do Bilhete Único Intermunicipal (BUI) aos modos rodoviários e às vans. Reverter essa lógica é um passo fundamental para alinhar o Rio às tendências globais de descarbonização e eficiência energética.
A equalização tarifária dos sistemas de trilhos com o sistema municipal de ônibus da capital — isto é, a adoção de uma tarifa universal de R$ 5,00 — é uma medida urgente para resgatar a demanda e melhorar a qualidade de vida da população. É fundamental que as pessoas possam escolher seus modos de deslocamento com base na conveniência, e não apenas no preço. Esse ajuste funcionaria como um catalisador imediato para o retorno da população aos sistemas sobre trilhos, demonstrando um compromisso pragmático com a eficiência da mobilidade urbana.
A viabilidade financeira dessa redução é de baixo custo e pode ser sustentada por um rearranjo das políticas e recursos já existentes. Uma alternativa interessante é a implementação de um adicional de R$ 1 por viagem em aplicativos de transporte e entregas, valor que seria direcionado ao subsídio do sistema público. Bastante comum em outros países, essa lógica garante que quem utiliza transporte individual também contribua para a mobilidade coletiva da cidade.
Medidas como essa permitiriam, além do benefício direto da redução da tarifa para todos os passageiros, também o financiamento de investimentos de expansão. Cálculos preliminares indicam que as novas receitas poderiam gerar um superávit anual superior a de R$ 200 milhões. Esse fôlego financeiro viabilizaria novos investimentos em transporte, como os propostos pelo BNDES, além de aliviar custos sociais relacionados à saúde e a acidentes.
O momento exige uma visão que priorize a dignidade do passageiro, a sobrevivência e a expansão do transporte de massa. Reduzir a tarifa dos trilhos ao valor do ônibus municipal é o gesto necessário para resgatar a competitividade do Rio e garantir um futuro urbano mais humano e seguro. Adiar essa modernização é renunciar a uma oportunidade concreta de transformar a realidade de milhões de cidadãos fluminenses.
* Diego Garcia é vice-presidente da Alamys (Associação Latino-Americana de Metrôs e Subterrâneos) e gerente-executivo no MetrôRio