O que os russos esperam das eleições parlamentares de Putin

Muitos cidadãos duvidam da capacidade do voto de mudar algo, enquanto observadores apontam para resultados predeterminados

Zahra Ullah, da CNN

“Os candidatos não compareceram ao nosso estúdio, então vou me despedir por enquanto”, disse Elizaveta Dorokhina, apresentadora da emissora estatal Russia-1, aos telespectadores, com três pódios vazios visíveis ao seu lado no estúdio.

A transmissão passou para um intervalo comercial.

Nenhum dos seis candidatos registrados em Ryazan — cidade situada a cerca de 200 quilômetros a sudeste da capital russa — compareceu a um debate televisionado antes das próximas eleições.

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A Rússia realiza eleições parlamentares, as primeiras desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em um cenário político no qual a oposição crítica é praticamente inexistente, com opositores impedidos de participar ou que fugiram do país.

Os eleitores escolherão 450 membros da Duma Estatal, a câmara baixa do parlamento russo.

O estúdio vazio oferece um vislumbre do ritual democrático que a Rússia faz questão de exibir: os candidatos, os debates, a aparência de escolha.

Projetar estabilidade e uma imagem de observância dos devidos processos tornou-se um pilar da Rússia do presidente Vladimir Putin.

A votação ocorrerá ao longo de três dias, com início na sexta-feira.

Espera-se amplamente que o partido Rússia Unida — que apoia Putin e domina a política interna russa há mais de 20 anos — conquiste a maioria das cadeiras.

Entre as áreas onde haverá votação estão partes da Ucrânia controladas pela Rússia: Crimeia, Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia.

O único partido antiguerra registrado da Rússia, o Yabloko — "maçã" em russo —, teve permissão para participar por um breve período antes de ser barrado pela Suprema Corte no mês passado.

Grigory Yavlinsky, cofundador do Yabloko e proeminente político liberal russo, disse à CNN que o Kremlin foi surpreendido pelo apoio ao partido e à sua mensagem central, que pede um cessar-fogo na Ucrânia.

"Aqueles que se opõem são párias e inimigos."

Embora o próprio Putin não esteja na cédula eleitoral, o líder russo, há mais de duas décadas no poder, exerce uma influência dominante sobre a política do país.

“O sistema político russo é um regime rígido e personalista, com instituições que são meras imitações”, disse à CNN Andrei Kolesnikov, analista político sediado em Moscou e colunista das publicações "The New Times" e "Novaya Gazeta".

“As eleições não têm impacto algum na natureza das políticas, que já estão predeterminadas. O objetivo principal é demonstrar ao público o ‘efeito da maioria’: todos apoiam as políticas de Putin, e aqueles que se opõem a elas são vistos como párias e inimigos”, acrescentou Kolesnikov, que foi classificado como “agente estrangeiro” pelas autoridades russas.

A votação ocorre em um cenário de tensões sociais crescentes na Rússia, enquanto o Kremlin continua a promover a guerra na Ucrânia — agora em seu quinto ano.

Restrições à internet e a repressão à sociedade civil e à dissidência estão afetando muitos russos, ao mesmo tempo em que ataques ucranianos de longo alcance trazem a guerra para o cotidiano da população de uma nova maneira.

Os ataques de drones de Kiev em profundidade no território russo, concebidos para forçar o Kremlin a negociar, destruíram a ilusão de que as consequências do que Moscou chama de “operação militar especial” estão distantes da realidade dos cidadãos russos comuns.

Alguns desses ataques resultaram em mortes e ferimentos (embora em escala muito inferior à observada na Ucrânia); no entanto, um aspecto crucial é que os ataques a refinarias de petróleo do país provocaram escassez generalizada de combustível, gerando filas de carros nas grandes cidades, enquanto ataques aos maiores varejistas online da Rússia aumentaram a pressão sobre uma economia de guerra já sobrecarregada.

Essa apreensão refletia-se no estado de espírito dos eleitores em Moscou, em um dia frio e límpido de setembro, uma semana antes das eleições.

Raisa, uma eleitora de Moscou que — assim como todas as pessoas com quem a CNN conversou — preferiu não revelar seu nome completo, disse querer a eleição de "pessoas dignas", que "pensassem nas pessoas comuns" e em suas necessidades.

Ao ser questionada sobre como espera que seja o futuro, ela respondeu: "Eu provavelmente diria o que muita gente diria: pacífico. Quero muito que tudo isso acabe", referindo-se à guerra com um gesto sutil.

Marina Alexandrovna, de 73 anos, disse à CNN que estava indecisa sobre em quem votar, mas que "sempre vota", acrescentando: "Não importa quem vota, mas sim quem conta os votos".

Sobre o atual clima político na Rússia, ela comentou: "Sabemos como é a vida, quais leis estão sendo aprovadas. Não gosto disso, mas não há nada que possamos mudar".

As autoridades de Moscou introduziram incentivos materiais para os moradores da capital — na forma de pontos que podem ser trocados por prêmios — caso votem online ou em terminais eletrônicos nos locais de votação, em vez de utilizar cédulas de papel.

Críticos há muito veem com desconfiança a implementação do voto eletrônico pelo Kremlin, argumentando que o sistema é menos transparente.

Um aspecto marcante destas eleições é a candidatura de 186 veteranos da guerra na Ucrânia à Duma Estatal, além de mais de 1.500 ex-militares que também concorrem a cargos regionais e municipais.

Esse movimento ocorre após o lançamento, por Putin, em 2024, do programa "Tempo de Heróis", destinado a capacitar veteranos com experiência de combate para atuar no governo e no serviço público.

Nenhum dos veteranos de guerra contatados pela CNN quis conceder entrevista.

Único partido antiguerra impedido de concorrer

Pode-se dizer que quem foi excluído da disputa eleitoral revela mais do que os candidatos autorizados a participar.

O partido Yabloko foi excluído poucos dias após ter seu registro eleitoral aprovado, depois que o Rodina — um partido nacionalista pró-Kremlin (cujo nome significa "Pátria" em russo) — moveu uma ação judicial alegando financiamento estrangeiro e violações de direitos autorais.

A liderança do Yabloko sustenta que a medida teve motivação política.

Na sede do partido em Moscou, um contador registra o número de dias transcorridos desde a invasão em larga escala da Rússia, em fevereiro de 2022, ao lado de uma reprodução de uma pintura de Vasily Vereshchagin que retrata uma pirâmide de crânios humanos cercada por corvos.

O pintor russo do século XIX ficou famoso por suas representações dos horrores da guerra.

A imagem parece um memorial particular dedicado ao movimento antiguerra da Rússia, que foi sufocado.

A decisão inicial do Kremlin de permitir que o Yabloko concorresse às eleições parlamentares foi um "experimento de baixo risco", afirmou Irina Busygina, cientista política russa atualmente radicada em Berlim.

Busygina acredita que, assim que os operadores políticos do Kremlin perceberam um aumento no interesse online pelo Yabloko — com seus apelos por um acordo de paz com a Ucrânia, especialmente entre as gerações mais jovens —, eles agiram para neutralizar o partido, que havia registrado centenas de candidatos em todo o país.

“(Putin) não estava preparado para uma situação em que um partido democrático liberal como o Yabloko tivesse um apoio tão forte no país”, disse o cofundador Yavlinsky.

“Ainda não temos democracia na Rússia. Iniciamos nossas reformas há 30 anos, mas fracassamos completamente; é por isso que temos um sistema autoritário que não está preparado para eleições democráticas.”

Yavlinsky acrescentou que aqueles autorizados a concorrer nas eleições "apoiam 100% a atual linha política do Kremlin", enquanto o Yabloko é uma força de oposição que defende "uma alternativa, a transição para um cessar-fogo imediato e negociações com a Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos".

O cofundador, que atua há 35 anos na política russa, não espera surpresas nestas eleições, mas disse esperar que a Rússia inicie negociações diplomáticas com urgência.

Moscou precisa "encontrar uma linguagem comum com a Europa, com a Ucrânia e com os EUA, pois esse é o único caminho a seguir. É preciso evitar a possibilidade de uma guerra nuclear", afirmou.

Observadores podem questionar o sentido de realizar eleições onde não se permite uma oposição significativa e o resultado parece amplamente predeterminado.

A Rússia critica há muito tempo a ausência de eleições na Ucrânia durante o período de guerra, chegando a classificar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, como "ilegítimo" por ter ultrapassado o fim de seu mandato sem convocar eleições.

Zelensky afirma que realizar eleições enquanto a Ucrânia está envolvida na guerra é "impossível".

A Constituição ucraniana proíbe a realização de eleições sob lei marcial, regime instaurado após a invasão em larga escala pela Rússia em 2022.

Especialistas concordam amplamente que os resultados eleitorais serão usados ??para fortalecer o mandato de Putin em tempos de guerra.

Canais de redes sociais russos têm fervilhado com rumores sobre uma nova mobilização após as eleições para reforçar o contingente militar da Rússia na Ucrânia — algo que o Kremlin nega veementemente.

Segundo Kolesnikov, "as eleições serão apresentadas como uma nova legitimação da operação (militar) especial e da repressão política interna — a mais brutal de todas —, bem como das restrições aos direitos dos cidadãos, que agora são muito mais severas do que qualquer coisa vista no final da era soviética".

No entanto, nas ruas de Moscou, alguns permanecem otimistas de que o futuro será melhor.

Oleg, de 63 anos, disse esperar que “surja alguma estabilidade para as pessoas comuns... e que, daqui para a frente, nossos laços com pessoas de bem no exterior melhorem. Tanto no Ocidente quanto no Oriente”.

A insistência de Putin em abordar as “causas profundas” da guerra e em alcançar seus objetivos originais — incluindo a desmilitarização e a subjugação da Ucrânia — sugere que isso ainda pode estar muito distante.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-os-russos-esperam-das-eleicoes-parlamentares-de-putin/