O que está acontecendo no mercado de títulos nos EUA?
Rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos mantém ritmo de alta em meio à economia aquecida, avanço da inflação e expectativa por novo aumento dos juros
O mercado de títulos está em uma queda implacável. No mais recente marco duvidoso para os títulos do Tesouro dos EUA, o rendimento do título de referência de 10 anos acaba de atingir seu nível mais alto desde o estouro da bolha das empresas ponto-com, na década de 1990.
Os títulos do governo americano continuam sendo o mercado financeiro mais importante do mundo, amplamente considerado o lugar mais seguro para os investidores alocarem seu dinheiro. Em tempos difíceis, os operadores buscam a segurança do mercado de títulos dos EUA.
Não é isso que está acontecendo aqui. Pelo contrário.
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Publicado em 2026-10-02 04:00:00Os motivos para o colapso dos títulos são numerosos e, de certa forma, contraintuitivos: a economia dos EUA está forte — provavelmente forte demais, sustentada por gastos massivos com inteligência artificial.
A inflação está alta demais, com os preços pressionados pelo aumento dos custos de combustível. O Federal Reserve provavelmente tentará desacelerar tudo isso novamente.
O fraco mercado de títulos e os rendimentos em alta estão prejudicando o poder de endividamento dos americanos. As taxas de juros atreladas ao mercado de títulos, incluindo hipotecas e financiamentos de veículos, continuam subindo.
A taxa de um empréstimo imobiliário de 30 anos superou 7% pela primeira vez desde o início de 2025 na semana passada.
Enquanto isso, os investidores continuam saindo do mercado de títulos, vendendo seus papéis e exigindo taxas mais altas nos leilões de títulos do governo, à medida que a inflação segue em alta.
Preços mais elevados corroem os investimentos ao longo do tempo, e os detentores de títulos querem garantir que serão compensados pelos efeitos dos preços mais altos da gasolina e do diesel sobre seus investimentos.
Mas os rendimentos mais altos ainda não atraíram investidores suficientes para testar novamente o mercado de títulos. Isso está empurrando os rendimentos cada vez mais para cima, rompendo barreiras que não víamos há décadas.
A 5,34%, o rendimento de 10 anos não estava tão alto desde 2002. Recentemente, havia atingido seu nível mais alto desde 2007, e os rendimentos dos títulos do Tesouro de 30 anos dispararam para o nível mais alto em mais de duas décadas.
"Há uma carnificina no mercado de títulos", disse Neil Wilson, estrategista do banco de investimentos Saxo. "A preocupação é que o crescimento dos EUA está muito mais forte do que o esperado."
Os dados do governo dos EUA continuam apresentando evidências de uma economia aquecida. Talvez uma economia superaquecida.
Um relatório sobre o Produto Interno Bruto — a medida mais ampla da atividade econômica dos EUA — mais forte do que o esperado foi divulgado na quarta-feira (30), além de um relatório de inflação que mostrou os preços subindo bem acima da meta do Fed.
Os detentores de títulos estão elevando os rendimentos na expectativa de que o Fed continue a aumentar sua taxa de juros de referência em sua próxima reunião, ainda neste mês.
O desemprego está baixo — o relatório de empregos de setembro, a ser divulgado na sexta-feira, deve mostrar que a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%, um nível que os economistas chamam de "pleno emprego".
O consumo das famílias segue robusto, impulsionado por um mercado de ações forte. E os gastos anuais em infraestrutura de inteligência artificial agora são medidos em trilhões de dólares e devem continuar crescendo — mesmo com a manutenção das altas taxas de juros — ao longo desta década e além.
As preocupações com a dívida também têm pesado sobre o mercado de títulos, à medida que os gastos massivos do governo por ambos os partidos políticos colocam o país em uma trajetória fiscal insustentável.
Os problemas do mercado de títulos estão longe de ser exclusivos dos Estados Unidos. Preocupações com a dívida e a ressurgência da inflação em decorrência dos altos preços do petróleo e dos combustíveis elevaram as taxas em todo o mundo.
O título do governo britânico de 30 anos atingiu 6% na quinta-feira pela primeira vez desde 1998.