Tem dias em que a neblina não se dissipa (Foto: ChatGPT)

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O homem é mau. E reina na maldade. Shakespeare escreveu isso há trocentos anos. Constatou. Insuportavelmente pessimista e fatalista. É uma frase que pesa toneladas e que pesa ainda mais quando dividida assim, por um ponto final. No original é só um verso. Contra o que expressam essas palavras, tenho lutado há anos. Não, digo, o homem não é mau, não é mau, não é mau. E não reina na maldade, não reina, não reina. Repito isso feito mantra. Que hoje perdeu o efeito. Só hoje, espero.

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Trata-se do Soneto 121, que já usei para falar de Renan Calheiros. Isso é o que eu chamo de jogar pérolas aos poucos, eu sei. Trata-se de uma tradução mais popular e vulgar. Não exata. Há outra mais profunda, de Vasco Graça Moura, e que conclui assim o soneto em que Shakespeare fala dos oblíquos: “e, todos maus, governe a malvadez”. São os maus que governam a malvadez ou é a malvadez que governa os maus? Os maus que são todos, diga-se. Questão tostines para você se deleitar. Por uns cinco segundos, se tanto, que é o máximo que todo mundo aguenta hoje em dia.

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Pai Nosso

Oblíquos e maus, portanto, somos todos, curvados pelo peso do mundo. Da vida. Nossa retidão é esporádica. Distraídos, logo cedemos às muitas tentações que nos cercam. Às incontáveis pressões do cotidiano. E isso apesar do Pai Nosso! O curioso é que é nesses raros momentos de retidão que tentamos subjugar os outros, reduzindo o ângulo da obliquidade deles. Dobrando-os. Até, com sorte, reduzi-los ao nada que satisfaz a nossa vontade de sermos o tudo. Ah, o mal que só triunfa na solidão de se saber o único bom e reto.

Daí o paradoxo, a incoerência e a confusão que servem de adubo à poesia e à conversa. Repare: somos governados pela maldade (ou maldavez) na medida em que usamos essa mesma maldade para governar os outros. Ou reinar sobre os outros. Que seja. Estas, pois, são as armas do demônio: mentira e perversidade. Xingamento. Cizânia. É, tem dias em que a neblina não se dissipa. Pelo contrário, ela me envolve com uma treva branca e fria que me cega para o pouco que há de bom no mundo.

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