O empresário Leonardo Bortolleto e o comentarista José Eduardo Cardozo debateram, na quinta-feira (5), em O Grande Debate (de segunda a sexta-feira, às 23h), se “a mudança no Paraguai, com a renúncia do presidente Santiago Peña, afeta os interesses do Brasil”.
O assessor especial da Presidência do Brasil para assuntos internacionais, Celso Amorim, se manifestou sobre a renúncia do presidente do Paraguai, diante de um escândalo bancário, expressando esperança de que o episódio permita uma maior aproximação do Paraguai ao Mercosul e ao Brasil.
Amorim também manifestou o desejo de que o Paraguai se afaste do chamado “Escudo das Américas”, grupo criado pelo presidente americano, Donald Trump, sob o pretexto de combater o crime organizado e o narcotráfico.
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Publicado em 2026-11-06 09:58:28O assessor destacou ainda a importância estratégica do Paraguai para o Brasil, citando como exemplo a usina hidrelétrica de Itaipu, de propriedade conjunta dos dois países. A renúncia de Peña, contudo, gerou um amplo debate sobre as consequências políticas e econômicas para o Brasil e para a região.
Debate sobre os impactos políticos
O comentarista José Eduardo Cardozo avaliou que a situação no Paraguai representa um revés para a direita. Segundo ele, o país havia se tornado um “satélite de Donald Trump”, distanciando-se do Mercosul ao aderir ao “Escudo das Américas”.
Cardozo lembrou que o Paraguai era visto por setores da direita brasileira como a “Suíça da América Latina”, e que muitos brasileiros teriam depositado recursos no banco que entrou em colapso em circunstâncias consideradas suspeitas, dada a relação do presidente com a instituição financeira.
“O resultado é ruim e não deve ser comemorado, mas deve ser constatado como um ponto de reflexão”, afirmou Cardozo, acrescentando que o episódio reforça a importância do fortalecimento do Mercosul.
Visão econômica e cautela política
O empresário Leonardo Bortolleto concordou em parte com a avaliação de Cardozo, reconhecendo que a renúncia afeta a direita, mas pediu cautela antes de tirar conclusões definitivas. Para Bortolleto, a renúncia não implica, por si só, culpabilidade, e os desdobramentos ainda precisam ser investigados.
Do ponto de vista econômico, ele alertou que a crise coloca em xeque as chamadas instituições financeiras digitais e pode impactar empresas brasileiras instaladas no Paraguai. “O Paraguai foi abrigo de uma debandada empresarial brasileira nos últimos anos”, afirmou, ressaltando que muitas dessas empresas têm no Brasil seu principal mercado e poderão ser prejudicadas pela instabilidade no país vizinho.
Bortolleto também questionou a premissa de que a mudança no Paraguai beneficiaria automaticamente o Brasil em termos ideológicos. Para ele, é precipitado afirmar para qual direção política o país seguirá após a renúncia. O empresário defendeu ainda que o Brasil precisa concentrar esforços em seus próprios desafios internos, como a taxa Selic elevada, a inflação e o alto índice de inadimplência, antes de voltar os olhos para o cenário paraguaio.
Divergência sobre política externa
Cardozo rebateu a visão de que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deveria reduzir suas atenções ao cenário internacional. Para o comentarista, “um estadista olha o mundo porque o mundo está se globalizando”, e manter relações internacionais é essencial para que o Brasil não fique submetido a uma posição de dependência.
Ele defendeu que olhar para o Paraguai, para a Argentina e para outros países é parte do exercício de governar com visão estratégica.
Bortolleto, por sua vez, manteve sua posição de que a prioridade deve ser a resolução dos problemas domésticos. Ele argumentou que a matemática econômica “não tem direita nem esquerda” e que os desafios fiscais e financeiros do Brasil exigem atenção imediata, independentemente do alinhamento ideológico dos governos vizinhos.
Ambos concordaram, no entanto, que a situação no Paraguai deve ser acompanhada com atenção, sem comemorações precipitadas.