Entrevista de Gilmar Mendes no Roda Viva é marcada por frases polêmicas sobre o STF e sua própria atuação. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

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Qual é o pronome de tratamento que se deve usar para um “animador cultural”? É importante saber para designar corretamente Gilmar Mendes. Foi assim, afinal, que o ministro do Supremo Tribunal Federal se definiu na espetaculosa entrevista que concedeu ao programa Roda Viva. “Eu me entendo quase que como um animador cultural”, disse ao ser questionado por Mônica Bergamo sobre o trabalho de André Mendonça na relatoria do caso Master.

Mais tarde, na CNN Brasil, Thais Herédia especulou sobre as razões do Ministro conceder a entrevista. “Na comunicação, quando a pessoa resolve dar uma entrevista, ainda mais uma autoridade, a primeira coisa que você pergunta é o seguinte: tá, mas qual é o objetivo? O que você quer com essa entrevista?”. Vou tentar responder à colega.

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Mendes parece ter gostado dessa titulação informal de decano. Dela tirou uma licença para falar em nome da Corte, como se fosse o único a ter uma procuração para representar o “seu espírito”, se é que se pode usar tal termo nesse contexto. E o fez no rastro de silêncio deixado por Edson Fachin, um presidente fraco, vacilante e pouco consistente da defesa de suas próprias pautas, como o já malfadado “código de ética do STF”.

Ao longo dos últimos dois meses, Gilmar Mendes concedeu uma coleção de entrevistas. Tantas que é um desafio até catalogar o que disse em cada uma. Na primeira leva de seu press tour, parecia querer rebater as críticas que eram feitas ao trabalho do STF. Agora, nessa manifestação na TV Cultura, o que fez foi o contrário: atacou seus pares.

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O primeiro, e principal alvo de Mendes, foi André Mendonça, com quem teve uma altercação pública recente. Criticou sua atuação na relatoria do Master. “André Mendonça disse que tinha recebido um advogado fazendo proposta de delação seletiva. Aqui já há uma impropriedade, porque a lei não permite que o relator participe da delação. O acordo é entre o MP ou a PF com o delator. Aqui já há um erro crasso”, disse. Questionado sobre o receio de que a investigação do Master seja alvo de alguma nulidade, futura, Mendes tergiversou. Mas foi enfático o suficiente para traçar em linhas bem evidentes de que isso pode sim acontecer. E o fez estabelecendo um paralelo da investigação sobre Vorcaro com a operação Lava Jato.

Indicado em 2002 para o Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes reuniu, ao longo de sua trajetória, um imperioso poder institucional. E fica evidente que, no crepúsculo de sua passagem pela Corte, decidiu atuar enfatizando menos o seu enorme repertório jurídico e mais a sua faceta política, que vem se ressaltando desde o caso do Mensalão. O jurista e constitucionalista renomado deu lado ao “animador cultural”, ao “ombudsman do STF, à eminência parda da República. Enquanto dava a entrevista ao Roda Viva, Mendes rodava sua cadeira, talvez imaginado que pairava sobre o Brasil, e também sobre o bem e o mal.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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