Centenas de pessoas foram presas após distúrbios em Paris, durante comemorações pelo título do PSG na Liga dos Campeões. (Foto: Valentina Camu/EFE)

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Ao longo dos últimos 2 mil anos, o cristianismo moldou profundamente a civilização ocidental. Suas ideias acerca da dignidade humana, da família, da responsabilidade moral, da limitação do poder político e da liberdade de consciência contribuíram para formar as instituições que ainda sustentam grande parte do mundo livre. Entretanto, o Ocidente contemporâneo vive uma crise peculiar. Enquanto continua desfrutando dos frutos de sua herança cristã, demonstra crescente desprezo em relação às próprias raízes. Suas elites culturais, acadêmicas e políticas lideram a destruição da legitimidade da civilização que receberam.

Após a conquista da Liga dos Campeões pelo Paris Saint-Germain, celebrações que deveriam ser pacíficas rapidamente degeneraram em episódios de violência, depredação, saques e confrontos com as forças policiais. Embora não haja estatísticas oficiais sobre a religião dos envolvidos, imagens e relatos sugerem que uma parcela significativa dos agitadores era composta por jovens de origem imigrante oriundos das banlieues, muitos deles pertencentes a famílias muçulmanas – um padrão frequentemente observado em distúrbios urbanos ocorridos na França nas últimas décadas. Mais do que um incidente isolado, cenas como essas alimentam um debate mais amplo sobre coesão social, identidade cultural, integração e a capacidade das sociedades ocidentais de preservar a ordem e transmitir seus valores às novas gerações.

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É nesse contexto que pensadores como o psicólogo evolucionista Gad Saad, autor de A mente parasita (Trinitas), chamam atenção para fenômenos que, segundo eles, vêm sendo amplamente ignorados pelas elites políticas e culturais do Ocidente. Entre esses fenômenos estão as transformações demográficas, os desafios da integração cultural e o crescimento da influência do islamismo em diversas sociedades ocidentais. A observação central de Saad é simples: civilizações dificilmente preservam sua identidade quando deixam de acreditar na legitimidade de sua própria herança.

A memória das antigas terras cristãs

Um dos argumentos apresentados por Saad é histórico. Durante os primeiros séculos da era cristã, regiões como Egito, Síria, Líbano e Iraque tinham expressivas populações cristãs. Em alguns casos, os cristãos constituíam a maioria da população. O Egito, por exemplo, foi um dos grandes centros do cristianismo antigo. Ali surgiram clérigos como Atanásio de Alexandria e Cirilo de Alexandria. Contudo, após séculos de domínio islâmico, os cristãos coptas passaram de maioria para uma minoria que hoje representa aproximadamente um décimo da população.

As elites culturais, acadêmicas e políticas do Ocidente lideram a destruição da legitimidade da civilização que receberam

O caso do Líbano também merece atenção. Durante grande parte do século 20, os cristãos maronitas constituíam a principal força política do país e o Líbano era frequentemente descrito como o país mais cristão do Oriente Médio. Contudo, a chegada maciça de refugiados árabes palestinos, a instalação de bases armadas da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em território libanês e a subsequente guerra civil contribuíram para desestabilizar profundamente o país, e alterar o equilíbrio político tradicional que por décadas favorecera as comunidades cristãs.

Processos semelhantes ocorreram em outras partes do Oriente Médio e do Norte da África. Esse declínio do cristianismo se deu após períodos de forte perseguição, discriminação legal ou pressão econômica. A lição histórica é simples: a composição religiosa e cultural de uma sociedade não é permanente. Civilizações podem mudar profundamente ao longo do tempo.

Um ponto crítico do islamismo é a antiga instituição do dhimmi. No passado, nos territórios islâmicos, judeus e cristãos podiam praticar sua religião, mas sob um status jurídico inferior ao dos muçulmanos. Em troca de proteção estatal, pagavam impostos específicos e estavam sujeitos a diversas restrições sociais e políticas. A existência histórica desse sistema demonstra que a ordem política islâmica não concebia igualdade plena entre as religiões nos moldes das democracias liberais modernas. Essa diferença continua sendo relevante quando se discute a compatibilidade entre o islamismo e os princípios ocidentais de liberdade religiosa.

Duas frentes de conflito

Saad argumenta que existem dois tipos distintos de confronto entre o islamismo e o Ocidente. O primeiro é o conflito militar direto. Nesse campo, as nações ocidentais possuem superioridade profissional, tecnológica, econômica e militar esmagadora. Grupos extremistas podem causar danos significativos, mas dificilmente derrotariam militarmente os grandes Estados ocidentais.

O segundo campo é cultural, demográfico e ideológico. Nesse terreno, segundo Saad, a disputa ocorre de forma silenciosa. Não envolve carros de combate, aeronaves ou mísseis. Envolve educação, natalidade, imigração, instituições, mídia e valores.

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Uma sociedade pode vencer todas as guerras externas e ainda assim perder sua identidade interna. Nesse sentido, o islamismo não seria a causa primária da crise ocidental, mas um fator que expõe fragilidades já existentes. A história demonstra repetidamente que civilizações enfraquecidas por dentro tornam-se mais vulneráveis às pressões vindas de fora.

Demografia importa

Entre os fatores destacados por Saad está a questão demográfica. Toda civilização depende de sua capacidade de transmitir sua cultura às gerações seguintes. Quando uma população deixa de ter filhos em número suficiente, ela inevitavelmente envelhece e diminui.

Grande parte da Europa enfrenta há décadas taxas de natalidade abaixo do nível necessário para manter sua população. Ao mesmo tempo, imigrantes provenientes de sociedades islâmicas apresentam taxas de fertilidade superiores. A simples matemática demográfica não determina o futuro de uma civilização, mas certamente influencia sua trajetória.

Para os cristãos, essa questão aponta para algo mais profundo. Uma sociedade que perde a confiança na família, no casamento e na maternidade acaba comprometendo sua própria continuidade. Nenhuma política pública consegue substituir famílias fortes e estáveis.

Imigração e integração

Outro aspecto importante desse debate é a imigração em larga escala. Entre 2014 e o fim de 2025, estima-se que entre 7 milhões e 8 milhões de imigrantes oriundos da África e do Oriente Médio tenham ingressado na União Europeia. No mesmo período, os Estados Unidos receberam aproximadamente entre 1,2 milhão a 1,7 milhão de imigrantes dessas mesmas regiões, enquanto o Brasil acolheu algo entre 55 mil e 70 mil pessoas provenientes da África e do Oriente Médio.

Uma sociedade que perde a confiança na família, no casamento e na maternidade acaba comprometendo sua própria continuidade

Esses dados ajudam a explicar por que questões relacionadas à integração cultural, à identidade nacional e à coesão social se tornaram temas centrais do debate público em diversas sociedades ocidentais. E, embora a escala do fenômeno seja muito diferente da observada na Europa, as experiências europeias oferecem lições importantes sobre os desafios da integração cultural e da manutenção da coesão social.

O cristão deve evitar dois extremos. O primeiro é a xenofobia, incompatível com a dignidade humana ensinada pelas Escrituras. Todo imigrante é portador da imagem de Deus e deve ser tratado com justiça e respeito. O segundo extremo é a ingenuidade cultural. Toda sociedade tem o direito legítimo de esperar que novos habitantes respeitem suas leis, suas instituições e seus valores fundamentais.

A integração exige esforço dos dois lados. Quando uma sociedade perde a disposição de transmitir sua própria cultura, a assimilação torna-se cada vez mais difícil. A dificuldade não está simplesmente na presença de imigrantes, mas no enfraquecimento da cultura receptora, quando ela deixa de acreditar que possui algo valioso a transmitir.

O abuso das liberdades ocidentais

Talvez o argumento mais provocativo de Saad seja que grupos hostis ao Ocidente frequentemente utilizam as próprias liberdades ocidentais para enfraquecê-lo – a liberdade de expressão, a liberdade religiosa e os direitos civis são conquistas preciosas da civilização ocidental.

Mas essas liberdades pressupõem certa base moral compartilhada. Elas funcionam melhor quando existe um consenso mínimo acerca da dignidade humana, da verdade, da ética, da responsabilidade pessoal e do bem comum. Quando uma sociedade abandona completamente suas convicções fundamentais, suas instituições tornam-se vulneráveis.

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O problema não está na liberdade em si. O problema está em tentar preservar a liberdade enquanto se destrói o fundamento moral que a sustenta.

A verdadeira crise do Ocidente

Do ponto de vista cristão, a principal ameaça ao Ocidente não é externa. O islamismo pode representar desafios reais. Movimentos radicais podem gerar instabilidade. Mudanças demográficas podem alterar o perfil de sociedades inteiras. Mas nenhuma dessas forças seria decisiva se o próprio Ocidente permanecesse confiante em sua herança moral e espiritual.

A crise mais profunda é interna. É o progressivo abandono dos fundamentos espirituais e morais que moldaram a civilização ocidental. É a perda da visão de mundo cristã que moldou, em diálogo com a herança judaica e greco-romana, as instituições do Ocidente. É o enfraquecimento da família. É a erosão da responsabilidade pessoal. É a substituição da verdade objetiva pelo relativismo. É a incapacidade de distinguir entre tolerância e capitulação cultural. Como o Império Romano do Ocidente, uma civilização raramente é destruída apenas por seus adversários. Na maioria das vezes, ela enfraquece primeiro por dentro.

Sociedades permanecem seguras quando existem pessoas dispostas a proteger suas famílias, comunidades e instituições. O problema do Ocidente não é apenas a existência de ameaças externas, mas a crescente relutância em reconhecê-las. Em nome de uma tolerância mal compreendida, muitos passaram a aceitar passivamente aquilo que gerações anteriores considerariam inaceitável.

Mais importante do que temer ameaças externas é fortalecer famílias, igrejas, escolas e outras instituições intermediárias e a responsabilidade pessoal

Embora o Brasil não enfrente os mesmos desafios demográficos e migratórios da Europa, a advertência permanece: o maior perigo para uma nação frequentemente surge quando ela perde a confiança nos valores que a sustentam. Por isso, mais importante do que temer ameaças externas é fortalecer famílias, igrejas, escolas e outras instituições intermediárias e a responsabilidade pessoal. Para os cristãos brasileiros, a resposta não está no alarmismo nem na apatia, mas na fidelidade às verdades que devem ser transmitidas às próximas gerações.

Uma resposta cristã

Se há algo correto na análise de Saad, é a percepção de que civilizações costumam enfraquecer por dentro antes de serem transformadas por pressões externas. Se isso for verdade, a principal resposta cristã não começa na política, mas na renovação espiritual, moral e cultural.

Assim, a resposta cristã ao desafio islâmico não é o medo, a hostilidade ou a passividade. É a combinação de verdade e amor. Os cristãos não são chamados a ignorar os desafios reais diante de suas sociedades, mas também não podem permitir que esses desafios os conduzam ao ressentimento, ao desespero ou à perda da compaixão.

A missão da Igreja continua sendo anunciar o evangelho de Jesus Cristo a todas as nações, inclusive aos povos muçulmanos – porque os muçulmanos também necessitam da graça salvadora do Senhor Jesus. Não por acaso, alguns dos crescimentos mais significativos de conversões ao cristianismo em nosso tempo estão acontecendo justamente em contextos islâmicos, como no Irã, na Argélia e em partes da Ásia Central, ainda que de forma majoritariamente clandestina e sob forte pressão social e legal.

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Ao mesmo tempo, os cristãos são chamados a cultivar lares piedosos, fortalecer suas igrejas, educar seus filhos e contribuir para o bem comum. Nenhuma civilização permanece saudável apenas pela força de leis ou instituições. Sua vitalidade depende de homens e mulheres que vivam e transmitam convicções profundas acerca da fé, da verdade, da virtude e da dignidade humana.

Ainda assim, nossa esperança última não repousa na preservação de qualquer civilização terrena, por mais valiosa que ela seja. Como ensinou Agostinho de Hipona, os cristãos pertencem, em última instância, à Cidade de Deus, que jamais poderá ser abalada. Por isso, amamos nosso próximo, proclamamos o evangelho e trabalhamos fielmente em nossa geração, sabendo que a história permanece sob a providência daquele que governa todas as coisas.

Impérios erguem-se e caem; povos prosperam e desaparecem. Os cristãos, porém, vivem como peregrinos fiéis na Cidade dos Homens, sem esquecer que sua verdadeira cidadania está na Cidade de Deus. Por isso, servem sua pátria, honram suas responsabilidades e buscam o florescimento de sua comunidade, sem jamais confundir os reinos deste mundo com o reino que não terá fim.

Oremos, então, com as palavras do Livro de Oração Comum: “Graças te damos, Senhor, porque tu nos convidas a sermos teus cooperadores. Concede-nos o teu Espírito, para que possamos, na multiplicidade dos dons e ministérios, servir a ti e ao próximo com fé e simplicidade de coração. Que tua Igreja seja instrumento de renovação e sinal de esperança para o mundo. Dá-nos, ó Pai, a tua graça e confirma a obra de nossas mãos. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/islamismo-crise-confianca-ocidente-europa/