O Brasil não precisa escolher um modal: precisa conectá-los
Em artigo à CNN Infra, Cynthia discute por que o Brasil precisa superar a lógica de escolher um modal prioritário e passar a olhar para a infraestrutura como uma rede
Durante décadas, o debate sobre infraestrutura de transportes no Brasil foi conduzido quase como uma disputa entre modais: precisamos de mais rodovias, mais ferrovias ou mais hidrovias?
O Plano Nacional de Logística 2050 (que orienta os planos para o setor até 2050) oferece a oportunidade de superar essa lógica. O desafio brasileiro não é escolher um vencedor, mas construir uma rede em que cada modal seja utilizado onde é mais eficiente.
Segundo dados da Infra S.A, empresa pública vinculada ao Ministério do Transporte, apresentados no contexto do PNL 2050, 54% da movimentação de cargas do país está concentrada no transporte rodoviário, enquanto as ferrovias respondem por 27% e o segmento aquaviário por 19%. Mais do que simplesmente alterar esses percentuais, o novo planejamento coloca no centro da discussão a necessidade de ampliar as alternativas logísticas e, principalmente, a conexão entre elas.
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Publicado em 2026-09-29 07:28:28É nesse contexto que as hidrovias ganham uma importância que vai além da expansão de mais um modal.
Corredores como Amazonas, Madeira, Parnaíba e São Francisco mostram que os rios podem funcionar como parte de sistemas logísticos maiores, conectados a terminais, portos, ferrovias e rodovias.
O raciocínio parece simples, mas representa uma mudança importante na forma como o Brasil pensa sua infraestrutura. Uma hidrovia eficiente perde competitividade se a carga encontra gargalos ao chegar ao porto. Uma ferrovia de alta capacidade entrega menos valor quando não existem bons acessos aos terminais.
Da mesma forma, ampliar uma rodovia pode apenas deslocar o congestionamento para outro ponto da cadeia. Infraestrutura não termina onde termina o ativo. Esse entendimento é particularmente relevante diante do crescimento esperado da demanda logística brasileira nas próximas décadas.
Em algumas regiões, as projeções utilizadas pelo PNL consideram aumento de cerca de 300% na demanda pelo transporte de cargas como soja e milho nos próximos 15 anos.
Absorver uma expansão dessa magnitude sem planejamento integrado significaria pressionar ainda mais estruturas que, em muitos corredores, já enfrentam limitações. A resposta, portanto, não pode ser simplesmente construir mais. É necessário construir melhor, recuperar o que já existe e, sobretudo, entender como cada investimento interfere no restante da rede.
Pela primeira vez, o PNL também coloca a recuperação de ativos e a manutenção dos corredores de transporte entre as prioridades do planejamento. É uma mudança relevante porque infraestrutura eficiente não depende apenas de grandes projetos novos, mas da capacidade de preservar e melhorar aquilo que já está em operação. Essa lógica também ajuda a qualificar a discussão sobre recursos.
Em um país com necessidades de infraestrutura muito superiores à disponibilidade imediata de capital público e privado, escolher onde investir é tão importante quanto definir quanto investir. Projetos precisam ser avaliados não apenas pelo benefício individual de uma obra, mas pelo impacto que conseguem produzir sobre todo um corredor logístico.
É aí que a multimodalidade deixa de ser um conceito técnico e passa a ser uma questão de competitividade. Quando rodovia, ferrovia, hidrovia e porto operam de maneira coordenada, torna-se possível buscar rotas mais eficientes, reduzir gargalos e oferecer alternativas ao transporte da produção. O ganho não está necessariamente em substituir um modal por outro, mas em evitar que um deles seja utilizado onde outra solução seria mais adequada. O caso das hidrovias é emblemático. O PNL identifica gargalos relacionados a calado, dragagem, balizamento e infraestrutura de terminais fluviais.
Ao mesmo tempo, corredores como o São Francisco evidenciam o potencial de combinar trechos hidroviários, ferrovias, terminais e instalações portuárias.
No Amazonas e no Madeira, a navegação ainda cumpre uma função adicional: além do transporte de cargas, integra territórios nos quais os rios são essenciais para o abastecimento e para o deslocamento da população. Há também uma dimensão importante para quem investe em infraestrutura. Quanto maior a clareza sobre os corredores considerados estratégicos pelo país, suas demandas futuras e os investimentos necessários para conectá-los, maior tende a ser a capacidade de estruturar projetos com visão de longo prazo.
Infraestrutura exige capital intensivo e horizontes extensos de retorno; por isso, planejamento consistente e continuidade são elementos fundamentais para a tomada de decisão.
O PNL 2050, evidentemente, não resolve sozinho os gargalos logísticos brasileiros. Ele estabelece uma direção. A transformação desse planejamento em infraestrutura dependerá dos planos setoriais, da qualidade dos projetos, da capacidade de financiamento, da articulação entre os diferentes níveis de governo e da participação do setor privado.
Entre desenhar um corredor estratégico e fazê-lo funcionar plenamente existe uma extensa agenda de execução. Talvez esteja justamente aí o principal teste para os próximos anos.
O Brasil já conhece boa parte de seus gargalos.
O desafio agora é impedir que o planejamento volte a ser fragmentado quando chegar o momento de transformar diagnósticos em obras, concessões, manutenção e investimentos. Se a integração permanecer apenas nos mapas, continuaremos construindo boas infraestruturas que funcionam abaixo de seu potencial.
Se ela orientar efetivamente as decisões sobre onde e como investir, o país poderá deixar de discutir qual modal merece prioridade para responder à pergunta que realmente importa: como fazer pessoas e cargas percorrerem todo o caminho com mais eficiência, segurança e competitividade? Esse é o salto que a infraestrutura brasileira precisa dar até 2050.
Cynthia Barau é diretora-jurídica do CTC Infra*