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No início do ano, o papa Leão XIV começou um ciclo de catequeses, nas audiências gerais de quarta-feira, dedicado ao Concílio Vaticano II. Na quarta-feira passada, ele falou da constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia. Vocês sabem, é aquele documento que pede para “conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular”; que “reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano”, canto que terá, “na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”; e também pede que se tenha “em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos”. O quê? Vocês não sabiam que tudo isso está nos documentos do Vaticano II? Mas que concílio é esse que estão vendendo pra vocês?
Na catequese de quarta-feira passada, o papa encerrou o trecho sobre os documentos conciliares com um pedido: “exorto todos aqueles que são chamados a preparar a celebração dos divinos mistérios, em particular os sacerdotes que exercem o ministério da presidência litúrgica, a manter sempre o respeito pelos textos e pelas normas da liturgia que brota de uma atitude interior de disponibilidade e confiança em Deus, manifestando humildade perante a sua grandeza e sincera fidelidade à comunhão eclesial”. Respeito pelos textos e pelas normas da liturgia, algo que os papas vêm pedindo há muitas décadas, porque hoje o que mais existe, infelizmente, é desrespeito. Por mais que o Concílio Vaticano II afirme que “ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica”, o católico médio está cansado de ver padres que fazem o que bem entendem com a Santa Missa.
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Publicado em 2026-06-02 10:08:29Pior é que o papa Leão XIV não está pedindo nenhuma novidade. Vejam o que o papa Francisco escreveu em Desiderio desideravi: “todos os aspectos do celebrar devem ser cuidados (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestes, canto, música...) e todas as rubricas devem ser observadas” (destaque meu). E, antes dele, João Paulo II e Bento XVI também ressaltaram a importância de seguir as instruções dos livros litúrgicos com precisão.
“Todos os aspectos do celebrar devem ser cuidados (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestes, canto, música...) e todas as rubricas devem ser observadas.”
Papa Francisco, na carta Desiderio desideravi.
Esquilos amestrados no ofertório
Quem estuda Direito aprende que o cidadão comum pode fazer tudo aquilo que a lei não proíbe, enquanto o administrador ou funcionário público só pode fazer aquilo que a lei permite expressamente. A liturgia católica funciona como essa segunda situação: os celebrantes e seus assistentes só podem fazer aquilo que está descrito no missal – em outras palavras, precisam dizer o preto e fazer o vermelho, como diz o padre Zuhlsdorf, em referência às cores das instruções e das partes ditas pelo sacerdote ou pelo povo.
Para usar um exemplo que eu adorava citar na época do finado Orkut, o missal não diz que é proibido usar esquilos amestrados para levar o pão e o vinho ao padre no ofertório, mas nem por isso é permitido fazer isso. Sim, é um exemplo extremo, mas que ilustra a regra geral: se não está previsto no missal, não é para ser feito.
Essa é a regra geral, mas há uma série de casos em que a Igreja foi ainda mais explícita ao dizer o que não se pode fazer. Canto do Glória com letra diferente, tipo “a vós louvam, Rei celeste, os que foram libertados”? Não pode – está na Instrução Geral do Missal Romano, parágrafo 53. Ministros extraordinários da comunhão sendo empregados cotidianamente enquanto o padre fica sentado lá no presbitério? Não pode – existe uma instrução inteira apenas sobre a participação dos leigos na missa, além dos parágrafos 154 a 160 da Redemptionis sacramentum. Palmas pra lá e pra cá, parabéns aos aniversariantes da semana? Não pode – São João XXIII já dizia isso (está registrado em vídeo), e o papa Francisco também nos recorda algo fundamental em uma catequese de 2017:
“Quando vamos à Missa é como se fôssemos ao calvário, a mesma coisa. Mas pensai: no momento da Missa vamos ao calvário – usemos a imaginação – e sabemos que aquele homem ali é Jesus. Mas, será que nos permitiríamos conversar, tirar fotografias, dar um pouco de espetáculo? Não! Porque é Jesus! Certamente estaríamos em silêncio, no pranto e também na alegria de sermos salvos. Quando entramos na igreja para celebrar a Missa pensemos nisto: entro no calvário, onde Jesus oferece a sua vida por mim. E assim desaparece o espetáculo, desaparecem as tagarelices, os comentários e estas coisas que nos afastam de algo tão bonito que é a Missa, o triunfo de Jesus.”
E no Calvário, como disse uma vez São Padre Pio, só quem aplaudia eram os soldados e os demônios.
“Ah, mas isso é rigorismo, é engessar demais a missa”
Não é, não. Primeiro, porque o próprio missal já dá ao padre uma boa liberdade em uma série de momentos, da escolha da saudação inicial, do ato penitencial, até a oração eucarística. E, para arrematar, o papa Francisco também tem a resposta na Desiderio desideravi: quando as normas são respeitadas, quando a liturgia é bem celebrada, está presente “o maravilhamento pelo fato de que o plano salvífico de Deus nos foi revelado na Páscoa de Jesus (...) A beleza, como a verdade, gera sempre assombro e quando se referem ao mistério de Deus, levam à adoração. O assombro é parte essencial do ato litúrgico, porque é uma atitude de quem sabe que se encontra perante a peculiaridade dos gestos simbólicos; é o enlevo de quem experimenta a força do símbolo, que não consiste em remeter para um conceito abstrato, mas em conter e exprimir na sua concreção aquilo que significa”.
O padre Luís Fernando Alves Ferreira, da diocese de Itumbiara (GO) e mestrando em Liturgia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, lembra que, na audiência da semana passada, o papa Leão XIV ainda deu uma explicação para quem tenta fazer uma liturgia a seu modo: “trata-se da atitude arbitrária de quem considera a liturgia insuficiente. Deixar-se tomar pela mão e ser conduzido para dentro do mistério requer despojar-se totalmente de si, como disse o papa Francisco na Desiderio desideravi”. Um fenômeno que se mistura ao mero estrelismo ou à ignorância sobre as normas litúrgicas, da parte de quem julga ser possível fazer isso ou aquilo na missa, ainda que não esteja nos livros. O padre Luís Fernando cita uma frase do então cardeal Joseph Ratzinger no seu essencial, indispensável, obrigatório Introdução ao Espírito da Liturgia: “Somente o respeito pela natureza preestabelecida da liturgia e pela sua fundamental não arbitrariedade pode doar-nos aquilo que dela esperamos: a festa em que vem ao nosso encontro a grande realidade que nós não fazemos sozinhos, mas que, precisamente, recebemos como dom”.
Formação litúrgica deficiente só piora o problema
Na Desiderio desideravi, o papa Francisco destacava a necessidade de uma boa formação litúrgica, tanto para quem celebra quanto para quem assiste à missa. “Mas há um problema da baixa qualidade na formação litúrgica no Brasil, identificada ao menos desde 1974 nos Documentos da CNBB. Minha dissertação de mestrado aqui em Roma foi justamente sobre este tema. É possível ver que houve um crescimento e melhora na formação litúrgica nos seminários, mas que não foi homogênea. Entretanto, é recorrente a constatação de uma lacuna que se torna evidente nos abusos e arbitrariedades que ocorrem em matéria litúrgica”, diz o padre Luís Fernando.
“Quando entramos na igreja para celebrar a Missa pensemos nisto: entro no calvário, onde Jesus oferece a sua vida por mim. E assim desaparece o espetáculo, desaparecem as tagarelices.”
Papa Francisco, em audiência geral em 2017
O sacerdote acrescenta que pesquisou o currículo das faculdades católicas brasileiras e constatou que “se vê de tudo em matéria litúrgica: desde faculdades que atendem satisfatoriamente o que pediu o Concílio Vaticano II até outras nas quais não se encontra nenhuma referência à liturgia. Este descompasso não deixa de mostrar sua marca mais evidente: a arbitrariedade com a sagrada liturgia”. E, embora as missas mal celebradas não sejam exclusividade brasileira, ele ainda aponta um problema bem nosso: “nós, brasileiros, temos um gênio rebelde. Consideramos a regra e a norma como uma imposição arbitrária ‘de Roma’, um convite à transgressão. Assim, a primeira coisa a se fazer em matéria de formação litúrgica é convencermo-nos de que a regra e a norma são nossas aliadas e não nossas inimigas. Estamos do mesmo lado. Elas nos protegem e ajudam a celebrar”, diz o padre.
“Na missa tridentina não tem essas coisas”
Já posso ouvir o tradicionalista radical dizendo isso, e de fato não tem mesmo. Acontece que daí a querer invalidar o próprio rito novo, afirmar que nas paróquias por aí o católico já não encontra os meios necessários para a salvação, como fez o em breve cismático padre Davide Pagliarani, superior da Fraternidade São Pio X, é um salto lógico gigantesco e absurdo. Se é verdade que alguns ritos foram simplificados (ainda considero o ofertório tridentino muito superior ao atual, por exemplo), por outro lado o padre Luís Fernando enumera alguns tesouros recuperados na reforma de 1969. “Encontramos em todo o Missal orações provenientes do Sacramentário Veronese, do século 6.º; do Sacramentário Gelasiano, do século 7.º; e dos Gregorianos, dos séculos 9.º e seguintes, além de traços muito reconhecíveis da liturgia galicana e a herança comum da oração da Igreja nas novas orações eucarísticas. A revisão do Lecionário realizou o mesmo percurso de recuperação da tradição. O novo Pontifical Romano preservou os textos do Veronese na prece de ordenação dos diáconos e presbíteros, e conservou parte da prece de ordenação dos bispos presente na Traditio apostolica de Hipólito de Roma, do século 3.º”.
Mas nem seria preciso ir muito longe: quem quer que já tenha visto uma missa celebrada com toda a dignidade no rito novo – e nem precisa ser no Vaticano – pode perceber a beleza que existe ali, mas que acaba soterrada pelas invencionices. “Os papéis na parede são supérfluos, os cartazes, as evoluções e danças, o barulho, mil vezes barulho, são todos dispensáveis. Mas a Coleta não. Nem o Prefácio, nem a genuflexão, nem o salmo responsorial, nem a vela, nem a cruz”, diz o padre Luís Fernando.
Quem também atesta esse fato é o bispo Athanasius Schneider. Ele pode estar dizendo muita besteira a respeito das iminentes ordenações episcopais da SSPX, mas, fora isso, tem sido um grande defensor da ortodoxia católica e da dignidade da liturgia. Na diocese onde é bispo auxiliar (Astana, no Cazaquistão) não existe missa tridentina. O motivo? Ele explicou em entrevista ao youtuber Adrian Milag: “Pouquíssima gente pede [a missa tridentina] porque a maioria das nossas liturgias, graças a Deus, é muito digna. (...) As pessoas são devotas e não conhecem a missa tridentina; alguns nem sentem a necessidade dela porque as circunstâncias são boas, mesmo com o Novus Ordo. Então, a maioria dos bispos diz ‘certo, continuemos assim’”.
Se nos locais onde se celebra bem a missa nova a demanda pela liturgia tradicional é menor, temos aí uma evidência empírica da beleza presente também no rito novo. Curiosamente, ou talvez tragicamente, os bispos que têm uma aversão irracional pela missa tridentina até poderiam usar isso como estratégia, empenhando-se em promover celebrações dignas no rito novo em suas dioceses (se o fizessem, acabariam provando que Deus sempre consegue tirar o bem do mal). Mas não tenho notícia de que haja esse empenho, indicando que o problema de vários desses bispos não é com o rito em si, mas com qualquer traço de solenidade e reverência na liturgia.
Humildade e fidelidade
No fim das contas, tudo se resume a essas duas palavras mencionadas pelo papa Leão XIV. O padre que avacalha a missa (e qualquer desvio das possibilidades previstas nos livros litúrgicos já é avacalhação, goste o padre ou não) não tem a humildade de perceber que a liturgia não pertence a ele, mas à Igreja, e tampouco percebe que o direito dos fiéis a uma missa bem celebrada prevalece sobre a vontade do celebrante de acrescentar ou suprimir elementos. E, ao moldar a liturgia aos próprios interesses, o sacerdote falha na fidelidade à Igreja, pois já não celebra como ela quer, e sim como ele deseja.