O francês Henri B. Kagan e o japonês Kenso Soai ganharam o Nobel de Química de 2026 por descobrirem como as reações químicas podem produzir apenas uma das duas versões espelhadas de uma molécula. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (7) pela Academia Real das Ciências da Suécia. O fenômeno explica um traço fundamental da vida, enigma que intrigava os químicos havia mais de um século, e tornou-se decisivo para a fabricação de remédios.
Muitas moléculas, como os aminoácidos que formam as proteínas do corpo, existem em duas formas que são o reflexo uma da outra, como a mão direita e a esquerda. Nos seres vivos, só uma delas aparece. Em laboratório, as reações sempre geravam as duas em partes iguais. Kagan e Soai mostraram como romper esse empate.
Professores eméritos da Universidade Paris-Sud e da Universidade de Ciências de Tóquio, eles foram premiados "pela descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica" e dividem igualmente 12 milhões de coroas suecas.
Recomendamos para você
Nobel de Química vai para francês e japonês por reações que levam à homoquiralidade
Anúncio do Prêmio Nobel ao pesquisador francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai foi feito ...
Publicado em 2026-10-07 08:18:18
Aposta de oito dezenas feita no Paraná garante prêmio de R$ 100 mil na Mega-Sena; veja outras cidades premiadas
Mega-Sena, concurso 3067: confira os números sorteados Três apostas do Paraná acertaram c...
Publicado em 2026-10-07 07:39:45
Mega-Sena: três apostas feitas em PE ganham prêmios de R$ 33 mil na quina
G1 | Loterias - Mega-Sena 3067 Três apostas feitas em Pernambuco acertaram cinco dos seis ...
Publicado em 2026-10-07 07:37:36Para Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química, a dupla solucionou uma questão secular: como essa preferência por um único lado pode surgir de forma espontânea. Ele classificou as reações desenvolvidas pelos dois como "espetaculares".
Moléculas que são o reflexo uma da outra
Os químicos chamam de homoquiral a química da vida. O termo vem das palavras gregas para "mesmo" e "mão" e indica que os organismos usam sempre a mesma versão de cada molécula.
Essa distinção vai além da curiosidade. As proteínas e os receptores do corpo também têm "lado", e por isso uma substância só produz o efeito esperado se tiver a orientação certa, do mesmo jeito que uma luva direita não serve na mão esquerda.
No desenvolvimento de medicamentos, só uma das imagens espelhadas costuma ter a ação desejada. A outra pode ser inútil ou nociva. O caso mais lembrado é o da talidomida, receitada a gestantes nas décadas de 1950 e 1960. O remédio deixou milhares de bebês com malformações, inclusive no Brasil, que ainda hoje paga pensão às vítimas. Por isso, produzir apenas a versão útil de uma molécula virou meta da química farmacêutica.
Kagan: mais pureza do que se julgava possível
O primeiro passo decisivo veio em 1986. Kagan descobriu uma nova forma de manipular reações químicas que permitia obter um excesso de uma das versões maior do que se acreditava possível.
Até então, a expectativa era de proporção direta. Um catalisador, a substância que acelera e direciona a reação, só com metade de pureza renderia um produto com o mesmo grau de pureza. Kagan mostrou que essa relação nem sempre é uma linha reta, e esse comportamento ficou conhecido como efeito não linear. Em certas reações, a vantagem de uma das formas cresce ao longo do processo, e o produto sai mais puro do que o catalisador que o originou.
Soai: a reação que produz a si mesma
Soai deu o passo seguinte com a autocatálise, fenômeno em que o próprio produto atua como catalisador da sua formação. Cada molécula criada ajuda a fabricar novas cópias de si mesma, com a mesma orientação, e a preferência inicial se amplifica em cascata.
Em 1995, o japonês publicou o desenho da primeira reação química com potencial para ser homoquiral. A meta só foi alcançada em 2003, quando ele apresentou uma reação na qual apenas uma das duas imagens espelhadas se formava. Até então, segundo a academia sueca, nada além da própria vida havia conseguido esse resultado.
Da origem da vida à indústria de remédios
As descobertas oferecem uma explicação química para um traço fundamental dos seres vivos: mostram como uma leve assimetria pode se transformar em domínio absoluto de um único lado, sem intervenção externa.
O impacto também alcança a indústria. A academia destaca que os trabalhos foram decisivos para os químicos que planejam reações de fabricação de fármacos. Controlar qual versão de uma molécula se forma reduz desperdício e etapas de purificação, e evita que o paciente receba uma substância sem efeito ou com riscos.
O prêmio reconhece descobertas que ligam a bancada de laboratório à pergunta sobre como a matéria inanimada se organizou de forma assimétrica. O conhecimento que ajuda a esclarecer as origens da vida também orienta a produção de remédios mais precisos.
O que é o Prêmio Nobel?
A láurea foi criada pelo químico e empresário Alfred Nobel. Inventor da dinamite em 1867, o sueco doou a maior parte de sua fortuna em testamento para a criação de prêmios de física, química, medicina, literatura e paz (o prêmio de economia foi criado anos mais tarde).
O documento dizia que os prêmios deveriam ser concedidos "àqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício à humanidade".
Contudo, hoje em dia, conforme explica Juleen Zierath, membro do Instituto Karolinska, o júri do Nobel de Medicina, essa regra não é mais tão levada à risca.
"Você pode ter feito essa descoberta em um estágio muito inicial de sua carreira de pesquisa, ou pode ter feito essa descoberta em um estágio muito avançado de sua carreira de pesquisador", ressalta a pesquisadora.
Como o prêmio é escolhido?
Todos os anos, o Comitê do Nobel envia um pedido de nomeação para membros da comunidade científica.
Isso significa que alguns candidatos elegíveis recebem um convite especial para enviar seus nomes. Sem esse convite, nenhum postulante pode concorrer ao prêmio.
"Você não pode se nomear, mas membros de comunidades científicas, reitores de faculdades de medicina, ex-laureados com o Prêmio Nobel e outros que trabalham no ramo científico mais amplo e que receberam esse pedido podem fazer uma indicação", diz Zierath.
Quantas pessoas podem compartilhar o mesmo prêmio?
Até três pessoas podem compartilhar um Prêmio Nobel, ou uma organização pode ganhar a láurea da Paz.
A Fundação Nobel, responsável por realizar os desejos do seu fundador, ressalta que essa regra está descrita no testamento de Alfred Nobel.
“Em nenhum caso o valor do prêmio pode ser dividido entre mais de três pessoas", destaca um trecho do documento. Alguns pesquisadores, porém, criticam essa escolha e afirmam que as descobertas científicas de hoje em dia são muito mais coletivas: um trabalho de vários pesquisadores.
A láurea pode ser concedida postumamente? Tem limite de idade?
Não, um Prêmio Nobel não pode ser concedido postumamente.
Apesar, disso, a Fundação ressalta que, desde 1974, se o destinatário do prêmio falecer após o anúncio, a láurea ainda poderá ser concedida.
Sobre o limite de idade, o prêmio também não tem uma regra a respeito.
"O que eu diria é que, na maioria das vezes, levamos muitos anos até que o campo científico reconheça que a descoberta que você fez é uma distinção que deveria ser considerada para um Prêmio Nobel. Então, às vezes você tem que ser bastante paciente", ressalta Zierath.