O presidente argentino, Javier Milei, chegará nesta sexta-feira (24) ao Brasil para apoiar a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro em uma convenção partidária, na esperança de estender ao maior país da América Latina a onda regional de vitórias eleitorais da direita.

O raro apoio de um chefe de Estado estrangeiro na convenção de oficialização da candidatura injeta novo ânimo na campanha de Bolsonaro após meses de escândalos e disputas internas. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro caiu para trás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de intenção de voto.

"A presença de Milei na convenção ajuda a energizar e mobilizar a base mais ideológica do partido", disse Silvio Cascione, chefe da Eurasia Group para o Brasil, destacando o alinhamento com vitórias recentes da direita na Colômbia, no Peru e no Chile.

'Erosão interna'

A campanha de Bolsonaro prepara-se para um recomeço após meses de adversidades. Em maio, o senador confirmou relatos de que um banqueiro — posteriormente preso em uma grande investigação de fraude e suborno — forneceu recursos para a produção de um filme sobre a trajetória política de seu pai.

O caso voltou a ser alvo de escrutínio nesta semana, após a Polícia Federal receber autorização para investigar o financiamento.

No mês passado, um desentendimento público com sua madrasta ameaçou sua imagem junto ao eleitorado feminino. Nesta semana, novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros trouxeram à tona os resultados mistos das tentativas de sua família de obter intervenção do presidente americano Donald Trump.

Pesquisas do instituto Quaest mostram que Bolsonaro agora apresenta uma desvantagem de oito pontos percentuais em um eventual segundo turno contra Lula, enquanto em abril ele detinha uma vantagem técnica. "A campanha de Flávio enfrenta um desgaste interno", disse o analista político Rafael Favetti.

O Bolsonaro mais velho, que não deu sinais de que deixará a política definitivamente, continua exercendo influência por meio de sua esposa, Michelle Bolsonaro, e de outros, enfraquecendo a posição de Flávio como o herdeiro natural da marca Bolsonaro, acrescentou o analista.

Até o final da quinta-feira, a assessoria de imprensa do senador não havia respondido a um pedido de comentário.

Onda de direita

O apoio a Milei — cuja vitória em 2023 na Argentina iniciou uma onda de quase uma dúzia de eleições na América Latina vencidas por candidatos alinhados a Trump — serve como lembrete dos ventos favoráveis ??mais amplos que dão uma chance a Bolsonaro.

Em toda a região, preocupações com a criminalidade e a estagnação econômica impulsionaram conservadores com uma agenda amplamente compartilhada de "ordem em primeiro lugar, mercados em segundo e uma relação mais próxima com Washington", informou o JPMorgan a clientes nesta semana.

O líder argentino viajará em seguida ao Peru para a posse de Keiko Fujimori, em 28 de julho; ao Equador, para conversas com o presidente conservador Daniel Noboa; e à Colômbia, para a posse do direitista Abelardo de la Espriella, em 7 de agosto.

A agenda de Flávio Bolsonaro, até o momento, tem muito em comum com as plataformas vitoriosas desses líderes, baseadas na defesa da lei e da ordem.

Quanto à segurança pública, ele propôs reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e construir novas prisões de segurança máxima, inspirando-se no presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Na economia, ele promete cortes de impostos e privatizações para criar um governo mais enxuto, ao mesmo tempo em que critica Lula pela inflação dos alimentos, fator que prejudicou a popularidade do presidente.

'Mais ao centro'

No entanto, a grande questão que paira sobre a campanha de Bolsonaro é como herdar os apoiadores fervorosos de seu pai e, ao mesmo tempo, conquistar um apelo mais amplo entre os brasileiros cansados ??de uma década de política intensamente polarizada.

Em dezembro, depois que seu pai apoiou sua candidatura — efetivamente deixando de lado o popular governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas —, o senador tentou definir-se pela moderação.

"Eu me considero, verdadeiramente, um Bolsonaro mais ao centro", disse ele à Reuters em uma entrevista em seu gabinete em Brasília, em dezembro. Ele realizou viagens à Europa, ao Oriente Médio e a Washington — onde se reuniu com Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio —, promovendo a ideia de uma aliança conservadora global em ascensão.

No entanto, deslizes em território nacional deixaram potenciais aliados à margem e deram novo ânimo a desafiantes conservadores que ainda registram intenções de voto na casa de um dígito. Analistas ainda preveem um segundo turno acirrado entre Lula e Bolsonaro em outubro, mas, por ora, a vantagem mudou de lado a favor do atual presidente.

"Essas eleições dependem de Lula escorregar numa casca de banana", disse Favetti, sediado em Brasília.



Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/24/milei-viaja-ao-brasil-em-tour-para-impulsionar-extrema-direita.ghtml