Argentina com Milei dando certo é pesadelo para os críticos. O medo não é ele falhar. É funcionar. (Foto: Eduardo Velázquez/EFE)

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Quando Javier Milei venceu as eleições na Argentina em 2023, muita gente tratou o resultado como o prenúncio de uma catástrofe econômica. Um manifesto assinado por mais de cem economistas — entre eles Thomas Piketty e Jayati Ghosh — afirmava que a agenda libertária do novo presidente produziria uma devastação econômica e social. Cortes de gastos, austeridade fiscal, enxugamento do Estado e liberalização da economia eram apresentados quase como uma receita de destruição nacional.

Quase três anos depois, a situação da Argentina está longe de ser perfeita: o país ainda apresenta problemas estruturais graves, pobreza elevada e fragilidade cambial. Mas uma coisa ficou evidente: o cenário apocalíptico desenhado por boa parte do establishment econômico internacional simplesmente não aconteceu. E isso deveria criar um enorme constrangimento para quem vendeu a ideia de que Milei levaria a Argentina ao abismo em poucos meses.

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O indicador mais simbólico é a inflação. No final de 2023, a Argentina vivia uma situação calamitosa. A inflação anual ultrapassava 210%, uma das maiores do planeta. Havia fuga permanente para o dólar, perda acelerada do valor do peso e inflação mensal acima de 20%, em determinados períodos. Era um quadro típico de pré-colapso monetário.

Sob Milei, a inflação desacelerou com uma velocidade impressionante: ao longo de 2025 e 2026, vários meses registraram inflação na faixa de 2% a 3%. Ainda é um índice alto para padrões internacionais. Mas, para a realidade argentina, trata-se de uma mudança gigantesca. Depois de décadas convivendo com inflação crônica, o país voltou a experimentar algum grau de previsibilidade econômica.

O ajuste fiscal promovido por Milei também foi algo raro na história recente argentina. Durante décadas, os governos do país seguiram o velho modelo latino-americano de populismo fiscal: aumento contínuo de gastos públicos, subsídios artificiais, déficits permanentes e emissão monetária para fechar as contas (ainda bem que nada disso acontece no Brasil). O resultado sempre foi o mesmo: inflação, crise cambial e deterioração da economia.

Milei atacou o coração desse sistema. Cortou ministérios, reduziu subsídios, enxugou despesas públicas e limitou drasticamente a emissão de moeda. O resultado foi algo que parecia impossível poucos anos atrás: a Argentina voltou a registrar superávit fiscal primário, uma ruptura importante com um padrão histórico que vinha destruindo a economia argentina há décadas.

Por que tantos especialistas erraram tão feio, sem que suas reputações sofressem sequer um arranhão?

No início do governo, o choque foi duro. Houve recessão, queda no consumo e piora social temporária. Os críticos aproveitaram aquele momento para decretar que o fracasso das reformas havia sido confirmado. Mas a economia reagiu mais depressa do que o esperado. A estabilização macroeconômica melhorou as expectativas, e setores estratégicos, como energia, mineração e agro, voltaram a atrair investimentos.

Até os indicadores de pobreza, usados como principal arma contra Milei, começaram a apresentar melhora relativa, à medida que a inflação desacelerava. Isso tem enorme peso político, porque uma das acusações mais repetidas era a de que as medidas liberais destruiriam as condições de vida da população pobre.

A questão que fica é: por que tantos especialistas erraram tão feio, sem que suas reputações sofressem sequer um arranhão?

Em qualquer outra área, previsões sistematicamente equivocadas costumam ter consequências. Analistas financeiros que erram continuamente perdem credibilidade. Meteorologistas que falham repetidamente deixam de ser levados a sério. Mas, no debate econômico internacional, parece existir uma espécie de blindagem ideológica.

Parte da elite econômica global deixou de atuar apenas como observadora técnica da realidade para funcionar também como agente político e moral. E o caso Milei deixou isso muito evidente. A reação ao presidente argentino nunca foi apenas econômica; era também cultural e ideológica. Para a maior parte das elites bem-pensantes, Milei representava uma ameaça direta ao consenso intervencionista que vem prevalecendo nas últimas décadas. Sua defesa agressiva do livre mercado, seus ataques ao tamanho do Estado e sua crítica ao Estado de bem-estar social transformaram o argentino em uma espécie de herege político.

Isso ajuda a explicar o tom quase messiânico das advertências feitas antes da eleição. Havia menos preocupação em analisar friamente a viabilidade econômica das propostas do que interesse ideológico em impedir a ascensão de um político considerado perigoso para determinados consensos.

Mas, quando a realidade não confirma as previsões, raramente aparece uma autocrítica genuína: a narrativa apenas muda de forma. Primeiro, anunciam a destruição imediata. Quando ela não acontece, afirmam que o crescimento não será sustentável. Depois, que os indicadores sociais continuam frágeis. Em seguida, que os efeitos negativos aparecerão no futuro. O discurso vai sendo adaptado continuamente, para desviar o foco do diagnóstico inicial equivocado.

Se a Argentina continuar reduzindo a inflação, equilibrando as contas públicas e retomando o crescimento depois de décadas de populismo fiscal, o governo Milei poderá se transformar em um dos experimentos econômicos mais incômodos do século. É justamente isso que provoca tanto desconforto entre seus críticos: não a preocupação com um eventual fracasso de Milei, mas o medo de que ele seja bem-sucedido.

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