A raiva nos deforma. O ódio também. (Foto: ChatGPT)

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Começo esta crônica com raiva. Ódio mesmo. Não sei como ela vai terminar. João é um canalha. Medíocre, invejoso, arrogante, hipócrita, ardiloso. Sério como só os mais burros conseguem ser. Um canalha nelsonrodrigueano típico. Eu o imagino. Uma hora a verdade vem à tona. Como é que ninguém enxerga? Não, não. Tem gente que enxerga e confidencia a meio tom: também acho o João um canalha. E ninguém faz nada.

Mas o que se pode fazer a respeito? João é um canalha incorrigível. Como todos os canalhas. Tenho vontade de esmurrá-lo. De lhe dar uma humilhante rasteira. De ver aquele sorrisinho cínico manchado de sangue. Aquele olhar de peixe morto. Tenho vontade de meter o dedo no meio da fuça do sujeito e gritar com toda a força disso que é ódio, não nego: CANALHA. Porque é isso o que João é: um canalha espalhando canalhice pelo mundo. Errando. Insistindo no erro. Se escondendo sob a máscara de pai de família, de homem sério. Por que são sempre sérios os canalhas?

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E, no entanto, sei bem que meu murro ou berro não fariam diferença. O canalha jamais se reconhecerá como tal. Jamais pedirá desculpas. Porque posso, porém, fantasio João com o rabo entre as pernas, curvado sob o peso da humilhação de se saber o canalha que de fato é. Imagino-o cabisbaixo, pensativo, arrependido e percorrendo os círculos do inferno na busca por uma explicação para sua canalhice. Uma expiação. Assim como estou fazendo com esta minha raiva.

João é um canalha que vai continuar sendo. Não adianta. Vai continuar incomodando só de existir. E se deixar de existir ainda assim vai incomodar com a lembrança de sua existência inegavelmente canalha. Um canalha que é amado por uns e outros. Como pode? Que tem lá suas vitórias e, até onde sei, pega no sono sem maiores dificuldades. João é, para mim, um canalha. Assim como devo ser canalha para uns tantos. Provavelmente para o João, que neste momento chafurda na própria canalhice enquanto eu estou aqui, babando fel e infeliz. Exatamente como querem os canalhas.

(Este é o primeiro capítulo de mais um livro que eu provavelmente não concluirei).



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/joao-e-um-canalha/