No alto, ao centro, a Matriz de Santa Ifigênia. Foto tirada por Paulo Cruz. (Foto: Paulo Cruz/ Gazeta do Povo)

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“Com propriedade e justiça, aplico aos Santos Elesbão e Ifigênia o egrégio título de Dois Atlantes da Etiópia. Com justiça, porque é certo que usamos desta palavra ?Atlante? falando em varões ilustres, que, com valor, ciência ou virtude sustentaram ? decoro e a glória dos Reinos, Repúblicas e Monarquias […]. Remontam-se estes de sorte sobre as nuvens, que, avizinhando-se ao Céu, parece, que em seus ombros o sustentam para que nunca rendido com o seu mesmo peso, afrouxe e venha a cair sobre a terra.” (Introdução à obra Os dois atlantes de Etiópia: Santo Elesbão, Imperador XLVII da Abissínia, advogado contra os perigos do mar; Santa Efigênia, princesa da Núbia, advogada contra os incêndios dos edifícios; ambos carmelitas, publicado em 1738)

Estive novamente em Ouro Preto. Após duas viagens para lá no ano passado – que, inclusive, renderam uma série de artigos aqui, nesta Gazeta do Povo (sobre Aleijadinho e Mestre Ataíde, por exemplo) –, retornei com minha esposa para, mais uma vez, me maravilhar com tudo o que aquela cidade representa – para o Brasil de modo geral e para mim especificamente.

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Como o leitor deve saber, sou protestante; evangélico, para ser preciso nos termos atuais. Mas isso não me impede de admirar a história e a espiritualidade barrocas do país – mais especificamente, de Minas Gerais –, que reputo ser a maior contribuição brasileira às artes e à fé católica. A mulatice barroca de Aleijadinho e Ataíde, na arquitetura e nas artes; de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Francisco Gomes da Rocha, na música sacra; e muitos outros mestres das artes, nascidos em Ouro Preto (antiga Vila Rica), muitos negros (na atual classificação do IBGE), nos desnudam um Brasil que nos escapa, sobretudo nos tempos atuais, no qual tudo o que se relaciona a pessoas negras é pautado, de um lado, pela subalternidade, e, por outro, pela vitimização.

Ouro Preto abriga o Brasil mais brasileiro de todos em seu esplendor máximo. O Brasil das contradições, essencialmente pardo numa nação que, durante muito tempo, se desejou branca. O Brasil da fé popular, da devoção mística, da beleza rústica de suas ladeiras e de sua paisagem deslumbrante. Um paraíso recuperado e mantido pela imponência encantadora de suas igrejas. As horas e horas incansáveis que passei andando por aquelas ruas, atento em cada detalhe, em cada instante de graça, em cada suspiro de esperança, em cada marca de sofrimento, me levaram a um mergulho em mim mesmo, em própria minha fé e em meu amor pelo que é belo – pelo nosso Belo.

Cada uma daquelas igrejas guarda uma quantidade quase infinita de histórias, sobre as quais os inúmeros guias turísticos se debruçam com aqueles que solicitam os seus favores. Desde a localização, até a arquitetura, os detalhes esculpidos, as mensagens ocultas nas pinturas e entalhes, as disputas políticas, as curiosidades e lendas que circundam as tradições. Podemos falar do teto mulato de Ataíde na Igreja de São Francisco (sobre o qual já falei); sobre a singular Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e seu formato elíptico; sobre a suntuosidade dourada da Basílica Menor de Nossa Senhora do Pilar, a igreja com a maior quantidade de ouro em MG (a segunda no Brasil); do túmulo de Aleijadinho, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, reaberta recentemente após quase dez anos fechada para obras de restauro; ou, ainda, da localização privilegiadíssima da Matriz de Santa Ifigênia.

Cada uma daquelas igrejas guarda uma quantidade quase infinita de histórias, sobre as quais os inúmeros guias turísticos se debruçam com aqueles que solicitam os seus favores

Mas, desta vez, quero falar de algo que muito me chamou a atenção desde a primeira vez que estive em Ouro Preto: as Irmandades do Rosário dos Homens Pretos, representadas, na cidade, pela Igreja de Santa Ifigênia e, obviamente, pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Farei isso em duas partes, neste e no próximo artigo.

As irmandades religiosas não surgiram no Brasil, mas possuem raízes na Europa medieval. Em Portugal, desde a Baixa Idade Média, entre os séculos XIII e XIV, já existiam centenas de confrarias leigas organizadas em torno de diferentes critérios de pertencimento. Algumas reuniam membros de um mesmo ofício, como sapateiros, ferreiros ou pescadores; outras congregavam moradores de uma mesma freguesia ou bairro, devotos de determinado santo ou pessoas pertencentes a um mesmo estrato social. Além de promoverem a vida religiosa de seus integrantes, essas associações desempenhavam importantes funções de assistência mútua, oferecendo auxílio aos enfermos, apoio às famílias dos confrades e garantindo sepultamento digno e sufrágios pelos mortos.

Originalmente, essas confrarias não possuíam caráter étnico, uma vez que a sociedade portuguesa medieval ainda não estava estruturada segundo categorias raciais semelhantes às que se consolidariam posteriormente no mundo atlântico. Esse quadro começou a mudar a partir do século XV, com a expansão marítima portuguesa e o crescimento da presença de africanos escravizados e libertos em cidades como Lisboa. Nesse contexto, surgiram confrarias destinadas especificamente à população negra, como as irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que conciliavam a devoção católica com práticas de solidariedade e auxílio mútuo. Esse modelo institucional seria posteriormente transplantado para a América Portuguesa, onde encontraria condições particulares de desenvolvimento, sobretudo nas regiões de intensa concentração de população africana e afrodescendente, como é o caso de Ouro Preto no século XVIII.

De acordo com Julita Scarano, em Devoção e Escravidão – A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no Século XVIII:

“As associações leigas, irmandades, confrarias ou arquiconfrarias têm a reger-lhes um Compromisso, lei que estabelece os estatutos da organização, que deve ser conhecida e seguida por todos os membros que antes da admissão prestam juramento. Também dispõem de um corpo dirigente, a assim chamada Mesa. Os irmãos de Mesa, eleitos pelo grupo, são, por sua vez, os que têm direito de voto sempre que seja preciso resolver casos importantes para a organização. Tomando a Irmandade do Rosário do Distrito Diamantino como modelo, podemos ver que a Mesa consta dos seguintes elementos: o Juiz, geralmente mais de um; o Procurador, ou os Procuradores, cargo de alta responsabilidade, já que lhe cabe estar informado da vida particular de cada irmão e proporcionar-lhe ajuda caso necessário, verificando também se são cumpridores de suas obrigações. Dos grêmios também fazem parte Escrivão e Tesoureiro, que devem saber ler e escrever, além de outras figuras secundárias. Nas irmandades de pretos há outros cargos que não têm cunho administrativo, como os de rei e rainha, que dão grande prestígio e são sumamente honrosos.”

Além de promover a devoção religiosa por meio de missas, procissões e festas em honra de seus padroeiros, as irmandades desempenhavam um amplo conjunto de funções assistenciais e administrativas. Prestavam auxílio financeiro aos irmãos necessitados, visitavam enfermos, custeavam sepultamentos e missas pelos falecidos, ofereciam formas de amparo às famílias dos confrades e administravam patrimônio próprio, como igrejas, capelas, terrenos e outros bens. Em uma sociedade desprovida de sistemas públicos de previdência, assistência social ou saúde, essas associações constituíam uma importante rede de solidariedade, combinando funções religiosas, beneficentes e de proteção mútua para seus membros.

Na classificação social (e, por consequência, étnica) das irmandades, nos diz Scarano que “o branco e o negro, o senhor e o escravo, constituem os extremos da escala social e étnica, enquanto os diferentes matizes no tocante à cor da pele vão determinar os graus intermediários. O branco cria o que podemos chamar ?associações de altarmor?, construindo as igrejas mais ricas; ao passo que os pardos e negros ocupam ora os altares laterais, ora as igrejas situadas em lugares de menor destaque no aglomerado urbano”. Ou seja:

“A cor assinalava a separação dos grupos e havia restrições nesse sentido por parte das irmandades de brancos. Mas as confrarias de brancos e de pretos não eram, como tais, rivais ou inimigas. De modo geral, as rivalidades geralmente se estabeleciam entre grupos do mesmo nível socioeconômico, como aconteceu entre a Ordem Terceira de S. Francisco e a do Carmo, ou entre a de Nossa Senhora do Rosário e a das Mercês. Os interesses pessoais, as relações de amizade ou antagonismos frequentemente se sobrepunham aos interesses gerais, o que não era incomum no Brasil.”

Durante muito tempo, as Irmandades do Rosário foram interpretadas pela historiografia principalmente como espaços de preservação e resistência da cultura africana. Entretanto, estudos mais recentes têm demonstrado que essa leitura é insuficiente. Essas confrarias eram instituições plenamente inseridas no universo do catolicismo colonial, reconhecidas pela Igreja e pela Coroa e organizadas segundo as normas do direito português, mas que, ao mesmo tempo, ofereciam aos africanos e seus descendentes um espaço de sociabilidade, solidariedade, reconstrução de identidades e preservação de memórias de origem.

Assim, as Irmandades do Rosário, por exemplo, não podem ser compreendidas apenas como instrumentos de controle colonial nem exclusivamente como formas de resistência cultural. Sua importância reside justamente em seu caráter híbrido: constituíam espaços de autêntica devoção católica, assistência mútua e organização comunitária; ao mesmo tempo em que permitiam a reelaboração de referências africanas no contexto da sociedade escravista. Essa complexidade é um dos aspectos que tornam as irmandades, especialmente a de Ouro Preto, um objeto privilegiado de estudo para a história social e religiosa do Brasil colonial.

Na próxima semana, aprofundaremos especificamente nas Irmandades do Rosário de Ouro Preto e nas particularidades das igrejas de Santa Ifigênia e Nossa Senhora do Rosário – com menção honrosa à Igreja de São José dos Homens Pardos ou Bem Casados. Até lá!

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