Infraestrutura tecnológica de saúde: uma resposta à escassez de médicos
Em artigo à CNN Infra, Fabio Veras afirma que a concentração de médicos especialistas nas capitais penaliza o interior, eleva os gastos públicos e compromete a produtividade brasileira
Imagine uma mãe que vive em uma cidade de 15 mil habitantes, a 200 quilômetros da capital. Seu filho apresenta dificuldades de desenvolvimento e precisa de um neuropediatra. Não há esse especialista no município. A consulta depende de uma vaga em outra cidade, pode exigir meses de espera e horas de viagem. Em outra família, uma criança sofre com infecções recorrentes no ouvido, mas não encontra um otorrinolaringologista. A demora no atendimento pode comprometer sua audição e o desenvolvimento da linguagem.
Os dados demonstram que é esse o contraste do Brasil rural e pujante, que produz alimentos, minerais, riqueza e empregos, mas frequentemente não consegue assegurar atendimento especializado aos próprios cidadãos. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, o país contava com 353 mil médicos especialistas ao final de 2024. O Sudeste concentrava 46,3% dos médicos brasileiros, enquanto capitais e grandes centros reuniam parcela desproporcional da oferta. Os especialistas existem, mas estão longe de onde milhões de brasileiros vivem.
Prefeituras disputam esses profissionais oferecendo remunerações elevadas, transporte e hospedagem. Mesmo assim, muitas não conseguem contratá-los. Os grandes centros oferecem melhores oportunidades de carreira, hospitais de referência e infraestrutura diagnóstica. Quando conseguem atrair especialistas, municípios ainda enfrentam rotatividade e descontinuidade dos atendimentos. A alternativa tem sido manter carros, vans e ônibus transportando pacientes por centenas de quilômetros para consultas de poucos minutos, consumindo recursos públicos e impondo riscos e perdas às famílias.
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Publicado em 2026-10-14 06:54:46Mas o custo maior está nas doenças agravadas. Sem acompanhamento cardiológico oportuno, problemas cardiovasculares podem evoluir para infartos e insuficiência cardíaca. O diabetes mal controlado pode provocar doença renal, perda da visão e amputações. São complicações que exigem tratamentos caros, internações, reabilitação e podem resultar em incapacidade permanente.
A ausência de especialistas não pressiona apenas o orçamento da saúde. Também aumenta despesas previdenciárias, reduz a capacidade de trabalho e custa PIB ao Brasil.
A infraestrutura tecnológica permite inverter essa lógica. Plataformas digitais que integram teleconsultas, prontuários, exames e regulação de filas conectam especialistas dos grandes centros a pacientes de pequenos municípios, distritos distantes e comunidades rurais. Com internet estável, estrutura adequada e apoio presencial, uma unidade municipal pode oferecer acesso a uma rede de médicos que seria inviável manter permanentemente na cidade.
Nem todo atendimento pode ser remoto. Procedimentos e avaliações que exigem exame físico presencial continuam indispensáveis. Mas consultas compatíveis com telemedicina, acompanhamento de doenças crônicas e análise de exames podem reduzir deslocamentos, antecipar diagnósticos e, com oferta suficiente, até zerar filas acumuladas de determinadas especialidades.
Há ainda uma oportunidade financeira pouco explorada. Na tabela convencional do SUS, a consulta especializada tem valor de referência de R$ 10, embora esse não seja seu financiamento total. Já o programa federal Agora Tem Especialistas, por meio das Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs), prevê pacotes que reúnem consultas, exames e investigação diagnóstica, com valores que podem alcançar R$ 200, R$ 270, R$ 350 ou R$ 400, conforme a modalidade.
Uma rede municipal ou regional que execute 2 mil OCIs mensais, ao valor médio hipotético de R$ 200, poderá registrar R$ 4,8 milhões anuais em produção assistencial elegível ao financiamento federal. A R$ 270, seriam R$ 6,48 milhões. Esses montantes dependem de execução, aprovação e regras de repasse; não representam receitas automáticas. Mas demonstram o potencial de uma gestão capaz de integrar atendimento, financiamento e tecnologia.
É justamente aqui que o software se transforma em infraestrutura estratégica. Sistemas integrados permitem organizar especialistas, agendamentos, exames, prontuários, filas e registros assistenciais, reduzindo desperdícios e ampliando a capacidade operacional dos municípios. Para os estados, oferecem a possibilidade de regionalizar serviços e compartilhar especialistas entre dezenas de cidades.
Os governos federal e estaduais que assumirão em 2027 precisam tratar a infraestrutura tecnológica da saúde como política de desenvolvimento econômico. O Brasil não conseguirá manter todas as especialidades presencialmente em seus 5.570 municípios. Mas pode construir redes capazes de oferecer acesso qualificado, independentemente da distância geográfica.
Durante décadas, o Brasil levou pacientes até os especialistas. A infraestrutura tecnológica permite, em muitos casos, levar os especialistas até os pacientes. A mudança pode salvar vidas, reduzir gastos e preservar a produtividade de um interior que sustenta parte relevante da economia nacional.
* Fabio Veras é membro do Conselho Nacional de Proteção de Dados, empresário, tem formação executiva em inovação e empreendedorismo pelo Stanford Center for Professional Development e pelo Sutardja Center for Entrepreneurship and Technology, da Universidade de Berkeley.