Ouça este conteúdo
Há um fio que conecta a pequena propriedade de 48 hectares de Germano Kruguer em Cascavel (PR) à mesa do consumidor brasileiro: o cooperativismo. Não é uma abstração. É um sistema produtivo que, em 2025, faturou R$ 223 bilhões, empregou diretamente 154 mil pessoas, exportou US$ 8,16 bilhões e respondeu por 66% do PIB agropecuário do Paraná, segundo indicadores mais recentes publicados pelo Sistema Ocepar, que reúne as empresas do segmento no estado.
Em uma década, o faturamento do setor, estruturado por grandes indústrias, triplicou: saiu de R$ 69,4 bilhões em 2016 para os atuais R$ 223 bilhões, e os investimentos saltaram de R$ 2,1 bilhões para R$ 9,2 bilhões no mesmo período. São resultados de um modelo que transforma pequenas economias em força produtiva de escala internacional que fomenta a segurança alimentar.
Recomendamos para você
Alta do farelo de soja dá suporte aos preços do grão em Chicago
Óleo de soja continua pressionado pela queda das cotações do petróleo...
Publicado em 2026-06-23 17:29:54
Indústria prevê queda das exportações com possível novo tarifaço dos EUA
Indicador da CNI passou a mostrar expectativa de queda para próximos seis meses...
Publicado em 2026-06-23 16:27:17
Paraná se consolida como um dos 5 maiores mercados de carros elétricos do país
Com alta de 191% em Curitiba e mais de 9,4 mil veículos vendidos em 2025, estado avança na eletrif...
Publicado em 2026-06-23 16:23:00O Paraná reúne 255 cooperativas de todos os ramos, das quais 61 são agropecuárias, diversas delas com destaque no mapa do cooperativismo mundial. Das 21 cooperativas brasileiras presentes no ranking World Cooperative Monitor, que lista as 300 maiores do mundo, seis paranaenses atuam no agronegócio:
- a Coamo, do noroeste do estado, na 25ª posição;
- a C.Vale na 34ª;
- a Lar Cooperativa Agroindustrial na 38ª;
- a Copacol na 80ª;
- a Frimesa na 123ª;
- e a Coopavel na 139ª.
Não por acaso, cinco delas estão concentradas no oeste do Paraná, região que se consolidou como o maior complexo cooperativista agroindustrial do país. “Além dessas que são as gigantes, o conjunto de 61 cooperativas do agro sustentam grande parte do protagonismo do estado na produção de alimentos — respondem por mais de 80% do faturamento total do setor cooperativista paranaense, cerca de R$ 184 bilhões”, enfatiza o presidente do Sistema Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), José Roberto Ricken.
Juntas, essas empresas empregam diretamente cerca de 109 mil trabalhadores, de acordo com o gerente de Desenvolvimento do Sistema Ocepar, Flávio Turra. "As cooperativas agropecuárias são as que estão diretamente na produção de grãos e de proteína animal. Garantem alimentos de qualidade e mais baratos na mesa dos brasileiros", afirma ele.
230 mil cooperados e a força de pequenas propriedades
Ao todo, são 230 mil agricultores cooperados vinculados às indústrias cooperativas agropecuárias, proprietários de áreas que têm, em média, como a de Kruguer, mencionado no início desta reportagem, em torno de 50 hectares. “Éramos pequenos demais para sobreviver sozinhos no mercado com o cultivo exclusivo de grãos. Diversificamos para peixe e frango e hoje somos grandes o suficiente porque nos organizamos coletivamente”, descreve o pequeno pecuarista, cooperado há 30 anos.
Esse é o diferencial estrutural que explica por que o Paraná se tornou referência nacional no segmento. O estado responde por quase um terço de todo o faturamento do setor cooperativo do país, que chegou a R$ 758 bilhões no último ano, segundo a Organização Brasileira das Cooperativas (OCB).
O que a cooperativa faz é juntar muitas pequenas economias e dar escala com foco na sobrevivência de quem está no campo e quem precisa se alimentar com qualidade e preço acessível.
Flávio Turra, gerente de Desenvolvimento do Sistema Ocepar.
"Na prática, o que a cooperativa faz é juntar muitas pequenas economias e dar escala com foco na sobrevivência de quem está no campo e quem precisa se alimentar com qualidade e preços acessíveis ", resume Turra. Individualmente, um produtor com pequenos módulos de terra não tem poder de negociação, não acessa tecnologia de ponta, não industrializa, não exporta. Dentro de uma cooperativa, ele faz tudo isso com assistência técnica contínua, garantia de mercado e participação nos resultados.
“No cooperativismo, quem lucra é quem produz e todos saem ganhando, porque o sistema reduz de 20% a 30% o preço final de um alimento”, reforça Elias Zydek, presidente do quarto maior player do mercado suíno do Brasil e primeiro do Paraná, a Frimesa.
Da lavoura às granjas, rodando pelo Brasil e embarcando para o mundo
Segundo Turra, as cooperativas do estado receberam, em 2025, 29 milhões de toneladas de grãos, ante 21 milhões em 2015 — crescimento de 38% em uma década, impulsionado pelo aumento de produtividade e pela expansão das estruturas cooperativas.
Somando a atuação das unidades, como filiais e entrepostos, em estados como Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso, o volume chega a 42,5 milhões de toneladas, o que representa aproximadamente 13% da produção nacional de grãos na safra 2025/2026, que promete alcançar 359 milhões de toneladas, segundo o Ministério da Agricultura.
Na proteína animal, a fatia de mercado é ainda mais expressiva. Membro da diretoria e conselheiro da Cotriguaçu, a central que reúne cinco das dez maiores cooperativas do agro brasileiro que estão no oeste do Paraná, Dilvo Grolli lembra que o estado é o maior produtor nacional de carne de frango, alcançando 5,5 milhões de toneladas anuais, o dobro do segundo colocado, o estado de Santa Catarina.
“As cooperativas respondem por 48% dessa produção estadual, ou seja, cerca de 3 milhões de toneladas de proteína animal vêm das propriedades dos nossos cooperados, passam pelas nossas indústrias e chegam às mesas pelo planeta”, diz Grolli. A cooperativa comandada por ele, a Coopavel, recebe milho, transforma em ração, integra o pequeno produtor que cria o frango, o suíno, o peixe, e, no fim da linha, tem produto exportado pela indústria com valor agregado. “É um sistema completo", descreve.
Para o presidente da Cotriguaçu e diretor-presidente da cooperativa C.Vale, Alfredo Lang, esse modelo tem vocação estratégica global. "O cooperativismo consegue organizar produção, armazenagem, industrialização e distribuição com maior estabilidade”. Em um cenário de mudanças climáticas e tensões geopolíticas, isso representa, segundo ele, segurança alimentar real para o Brasil e outros 190 países importadores de produtos.
O que os dados da última década revelam
A série histórica do Sistema Ocepar evidencia que, no período de 2016 a 2025, o número de cooperados saltou de 1,43 milhão para 4,42 milhões, crescimento de 209%. Os investimentos passaram de R$ 2,1 bilhões para R$ 9,2 bilhões anuais, alta de 338%. As exportações saíram de US$ 2,03 bilhões para US$ 8,16 bilhões, quadruplicando em dez anos.
Os impostos recolhidos cresceram de R$ 1,99 bilhão para R$ 5,9 bilhões, reforçando o peso fiscal e econômico do setor. A participação das cooperativas no PIB agropecuário paranaense subiu de 56% para 66% em uma década de expansão.
Turra reforça que comparar faturamento com PIB exige cautela metodológica pelos conceitos distintos, mas oferece uma perspectiva de dimensão: "O faturamento das cooperativas agropecuárias equivale a aproximadamente um quarto do PIB total do Paraná. Não 'representa', e sim 'equivale'. A diferença importa, mas a proporção impressiona”, diferencia ele.
Industrialização: a fronteira que ainda avança
Se há um movimento que define a próxima fase do cooperativismo paranaense, que espera um faturamento de R$ 500 bilhões até o ano de 2030, é o avanço da agroindustrialização. Das 157 indústrias cooperativas em operação no estado, a meta do Sistema Ocepar é ambiciosa: até 2027, superar 50% de industrialização de tudo que é recebido dos cooperados. Hoje, esse índice está em 48%.
"O produto in natura rende cerca de 2% de margem. Com agregação de valor, chegamos a 4% ou 5% a mais", detalha Turra. Essa diferença, multiplicada pela escala das operações cooperativas, representa bilhões de reais adicionais distribuídos entre os produtores rurais, o setor público com arrecadação de impostos, o fortalecimento do sistema e a possibilidade de produzir mais alimentos a preços mais acessíveis, complementa Ricken.
Para Dilvo Grolli, a equação vai além da rentabilidade imediata. "Produtividade sem sustentabilidade não tem futuro, e sustentabilidade sem viabilidade econômica não se sustenta no campo", resume. A Coopavel, cooperativa com 55 anos de atividade e 8,3 mil cooperados comandada por ele, industrializa mais de 90% dos grãos que recebe.
A mesma cooperativa organiza o Show Rural, evento que em 2025 reuniu mais de 430 mil visitantes em cinco dias e movimentou R$ 7,5 bilhões em negócios. “E isso significa tecnologia chegando ao produtor em escala, possibilitando aumento produtivo sem aumento de áreas, elevação na produção de alimentos, mais comida e comida com preço mais acessível na mesa dos brasileiros”, diz ele.
Cerca de 60% de tudo o que as indústrias cooperativas produzem vai para a alimentação dos 213 milhões de brasileiros. Depois de abastecer o mercado interno, o excedente ganha os navios com destino a 190 países pelo mundo.
Segurança alimentar enraizada no território
Há um dado que resume com precisão cirúrgica o enraizamento do cooperativismo paranaense: em 135 dos 399 municípios do estado, um terço do total, a maior empresa local é uma cooperativa — seja sua sede, uma unidade industrial ou um entreposto. "Gera emprego, renda e essa economia circula no comércio regional. O produtor reinveste, uma imensa engrenagem econômica e social é movida por esse movimento", aponta Turra.
Para a economista e especialista de mercado agro Regina Martins, esse é o oposto da lógica extrativista de grandes corporações que, focadas na rentabilidade, acabam drenando recursos para fora das comunidades onde estão inseridas. Para ela, essa perspectiva histórica explica a capilaridade.
O cooperativismo paranaense nasceu antes mesmo da lei que o regulamentou, em 1971. As primeiras cooperativas surgiram nas colônias de imigrantes europeus do sul do estado, como a Batavo, hoje com mais de 100 anos.
"A mentalidade da cooperação veio com os colonizadores porque eram pequenos produtores. Depois, a estrutura fundiária de pequenas propriedades tornou o modelo não apenas desejável, mas necessário para a sobrevivência do produtor e para garantia à alimentação ", contextualiza ela.
Prioridade está em abastecer mercado interno
A prioridade produtiva, conforme ressalta o presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos, é o mercado interno, historicamente. Frango, suíno, leite, derivados: ele afirma que há ao menos um produto de cooperativas paranaenses nas prateleiras de cada município do estado e em milhares de pontos pelo Brasil.
Vasconcelos ousa desafiar que, na casa de cada brasileiro, há ao menos um alimento vindo delas. “Em um planeta que pressiona por mais alimentos, em menos área, com mais eficiência e menos impacto ambiental, o Paraná cooperativista responde a demanda, antecipa cenários e os faz com raízes na terra de 230 mil famílias produtoras que encontraram no coletivo o caminho que o individual nunca poderia oferecer. Milhões se beneficiam”, reforça.
Delina Soares é a prova. Natural do Acre, a 2,3 mil quilômetros do oeste do Paraná, onde reside atualmente, tinha em casa produtos das cooperativas paranaenses, sem saber que as raízes produtivas eram onde ela viria a trabalhar. “Sempre tivemos em casa Frimesa, C.Vale, Lar”, conta.
Quando chegou ao Paraná, ela foi trabalhar na Lar, em Medianeira. “Hoje, meu sustento vem do cooperativismo e eu também sou cooperada porque minha conta bancária é em uma cooperativa de crédito. O Brasil precisa cooperar mais”, avalia ela, sorridente.