O Hospital Colônia de Barbacena, símbolo do “Holocausto Brasileiro”, teve suas atividades encerradas. A desinstitucionalização dos últimos pacientes doi oficializada em cerimônia nesta segunda-feira (25).
A unidade era o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Segundo a Prefeitura de Barbacena, o fechamento representa o fim de “um capítulo doloroso da saúde mental no Brasil e abrindo caminho para uma nova era baseada na dignidade humana, na liberdade e no cuidado humanizado”.
Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, o local era inicialmente voltado ao tratamento de tuberculose. Em 1911 passou a funcionar como um hospital psiquiátrico e tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos.
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Publicado em 2026-05-26 18:29:31Com a efetivação da transferência dos últimos 14 pacientes remanescentes no hospital para um lar terapêutico no município de Barbacena, o Centro Hospitalar Psiquiátrico seguirá sendo referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais, dentro dos critérios da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O encerramento contou com a presença do secretário de Estado de Saúde Fábio Baccheretti, do prefeito de Barbacena, Carlos Augusto Soares do Nascimento, da presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Mias Gerais (Fhemig), Renata Dias, ex-pacientes, e várias autoridades da região e do Estado, além de convidados.
Durante o evento, foi realizado o fechamento simbólico da porta do Pavilhão Antônio Carlos com um cadeado.
“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. Vários aqui presentes estiveram conosco nesse caminho. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria, um legado do qual me orgulho com vocês”, lembrou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.
A cerimônia também reuniu gestores, profissionais da saúde, assistidos, familiares e membros da comunidade, muitos dos quais participaram ativamente do processo de transformação e reconstrução da política de saúde mental no município.
Atualmente, Barbacena conta com Serviços de Residências Terapêuticas (SRT), que acolhem mais de 160 moradores. Inseridas na comunidade, essas residências são espaços de reconstrução de vínculos, autonomia e cidadania para pessoas que viveram longos períodos de internação e perderam o convívio familiar.
Internações
Segundo o Governo de Minas Gerais, os moradores viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos.
Muitos foram internados em uma época em que situações de abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade podiam levar uma pessoa ao confinamento.
Parte dessas histórias permanece sem registro completo, mas os números conhecidos revelam a dimensão da tragédia. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente.
“Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado”, afirmou a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado.
Holocausto Brasileiro
Os atos praticados durante décadas no Hospital Colônia já foram retratados em diversas obras, principalmente no livro-reportagem “Holocausto Brasileiro”, da autora Daniela Arbex.
No livro, ela desvenda os horrores e as violações de direitos humanos cometidos na Colônia de Barbacena. As páginas relembram as práticas no antigo manicômio vitimaram mais de 60 mil pessoas, internadas à força, muitas vezes sem diagnóstico de doença mental.
Entrevistas com ex-funcionários e sobreviventes resgatam a história do lugar, que torturou milhares de pessoas com o consentimento do Estado, entre 1960 e 1980. A obra é considerada um marco no jornalismo investigativo e expõe de forma avassaladora a realidade do tratamento de saúde mental no Brasil antes da reforma psiquiátrica e a mentalidade manicomial predominante da época.
O documentário “Holocausto Brasileiro” da HBO, de 2016, também relata as condições desumanas a que eram submetidos os pacientes do maior hospício do Brasil. A produção é uma adaptação livro homônimo da jornalista Daniela Arbex, lançado pela editora Intrínseca em 2013.