Percorrer a área externa do Hospital Público Eugenio Espejo, em Quito, é se deparar com uma realidade diária que angustia dezenas de familiares de pacientes que precisam comprar por conta própria medicamentos e insumos que o hospital não consegue fornecer para diferentes tratamentos.

Esse é um dos grandes problemas que continuam afetando o sistema de saúde do Equador, enquanto os pacientes imploram por um atendimento mais humano e justo.

Encontramos María del Carmen Sigcho sentada em uma das escadas da entrada principal do hospital, junto a outras pessoas que aguardam, ao relento, notícias de seus entes queridos. Ela conta que seu familiar está internado há dois meses devido a uma pancreatite e que o tratamento exige que a família compre medicamentos caros praticamente todos os dias, porque o hospital não dispõe deles.

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“A situação econômica é crítica. Às vezes tem, às vezes não tem, mas precisamos fazer todo o possível para fornecer a medicação de que ele precisa. Quase todos os dias nos pedem as receitas. Fico surpresa que eles não tenham luvas cirúrgicas e que nós tenhamos que trazer. É um estado crítico, compramos tudo fora”, comenta Sigcho.

Poucos minutos depois, chegou Denis Arévalo com uma sacola de uma farmácia particular contendo medicamentos para seu parente que sofre de lúpus, uma doença autoimune crônica na qual o sistema imunológico ataca, por engano, os próprios tecidos e órgãos, segundo os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.

“Alguns dos medicamentos mais caros temos que ir comprar fora. Gastei hoje US$ 66; são despesas que não estavam previstas no início do mês”, conta Denis Arévalo.

O impacto no bolso das famílias

À preocupação com a saúde de seus familiares soma-se o impacto econômico de arcar com despesas que o sistema público não consegue cobrir. É uma questão de vida ou morte, de recuperação ou de agravamento do quadro clínico. Alguns deixam seus empregos e suas atividades para atender às necessidades dos pacientes e às próprias exigências do hospital.

“A vida que levamos não dá conta. Pedem para eu comprar ampolas. Fui a quatro farmácias e não encontrei nada, apenas nas que eles indicam”, afirma Guido Muñoz, um aposentado cujo familiar iniciou um tratamento de quimioterapia contra leucemia.

Muñoz e outras pessoas do lado de fora do hospital mostram à CNN alguns papéis informais que contêm listas de medicamentos e insumos, como injeções, fraldas, luvas cirúrgicas e cânulas, que o hospital solicita que sejam comprados de forma particular.

Com esses papéis escritos à mão, eles percorrem diversas farmácias de Quito até conseguir os itens solicitados. Essa mesma situação foi amplamente relatada em outros hospitais do país.

“Pedimos mais humanidade. Toda semana gasto US$ 200 ou US$ 300 em receitas médicas”, acrescenta Muñoz.

O abastecimento médio de medicamentos, dispositivos e materiais em nível nacional no Equador chega, em média, a apenas 34%, segundo dados oficiais que remontam a fevereiro.

A CNN enviou ao Ministério da Saúde, à Presidência e à Secretaria de Comunicação diversas perguntas sobre a crise de saúde no país sul-americano, mas não recebeu resposta.

Por meio de decreto, o presidente Daniel Noboa determinou, em maio, a criação de uma empresa estatal com “autonomia orçamentária” para centralizar o abastecimento de medicamentos, além da infraestrutura e dos sistemas de informática dos hospitais do Ministério da Saúde. O objetivo é que essa empresa fique responsável pelo fornecimento de medicamentos, equipamentos, dispositivos médicos e outros materiais.

A Federação Médica Equatoriana apoiou a decisão, mas exigiu do governo a participação de representantes da sociedade que garantam um bom funcionamento. Além disso, manifestou preocupação com alguns aspectos, como a compra de medicamentos da Índia.

“(Daremos nosso apoio à decisão) desde que venha acompanhada de transparência, eficiência, planejamento técnico e prestação de contas”, afirmou o presidente da Federação Médica Equatoriana, Santiago Carrasco, que vê na criação dessa empresa uma “oportunidade” para fortalecer a capacidade operacional do Estado e melhorar a gestão de recursos.

“Nossa luta é pela vida”: a peregrinação dos pacientes com insuficiência renal

Nas proximidades do Palácio de Carondelet, sede do governo equatoriano, vários grupos de pacientes renais realizam constantemente manifestações para exigir do governo mais atenção e eficiência na cobertura de seus tratamentos de diálise. Eles sentem que essa é uma forma de fazer sua voz ser ouvida, para que não se tornem apenas uma estatística.

“Este local é emblemático porque fizemos manifestações aqui e não recebemos resposta. Esgotamos todos os recursos. Queremos que o Estado garanta um tratamento contínuo e integral de diálise”, disse à CNN Kevin Valdez, porta-voz do Frente de Pacientes Renais.

Valdez afirma que dezenas de pacientes não conseguem ter acesso a medicamentos e insumos completos para a diálise e precisam adquiri-los de forma particular. “Pedem álcool, gazes, agulhas. Estamos cansados de implorar por um direito constitucional. Não existe bolso equatoriano capaz de suportar essa crise”, acrescenta Valdez.

O Estado equatoriano acumula uma dívida complexa com dezenas de centros privados de diálise no país, e isso tem afetado os tratamentos dos pacientes, que, em alguns casos, tiveram de reduzir os dias de diálise ou buscar fora do sistema público os insumos e medicamentos necessários.

De acordo com a Associação de Clínicas de Diálise, a dívida do Estado com centros privados chega a centenas de milhões de dólares.

“Não é justo que nós, pacientes renais, tenhamos que pagar as consequências da burocracia e dos processos do Estado. Não temos tempo; cada sessão de diálise perdida significa menos vida para nós. Dependemos de uma máquina para viver, já não temos a função renal propriamente dita e uma máquina faz esse trabalho”, afirma.

Valdez, que é professor de inglês e francês, acrescenta que não tem sido fácil encontrar emprego em sua área, pois afirma que as empresas o “descartam” quando ele informa que tem insuficiência renal. “Infelizmente, o paciente renal é totalmente marginalizado e sofre discriminação no trabalho e na sociedade”, reforça.

Ele acredita que é necessário fortalecer a promoção da doação de órgãos, pois afirma que, em muitos casos, a vontade de cidadãos falecidos que aceitaram ser doadores em vida não é respeitada.

Corrupção, instabilidade e máfias hospitalares

O agravamento da complexa situação da saúde no Equador, que já sofreu um duro golpe durante a pandemia de Covid-19, veio acompanhado do argumento do governo de que, dentro de vários hospitais, existem redes de corrupção e máfias que utilizam os centros de saúde como ferramentas para negócios ilegais e para extorsão de gestores, diretores médicos e fornecedores.

Nos últimos anos, vários diretores de hospitais públicos e do sistema de seguridade social foram assassinados, e, por trás desses crimes, os dois últimos governos apontaram o crime organizado como responsável.

Em março passado, após a morte violenta de um funcionário de um hospital, o presidente Daniel Noboa classificou como “covardes” aqueles que tentam submeter o sistema de saúde aos interesses do crime organizado.

“Ele se recusou a assinar contratos com máfias que atuam por trás de supostos serviços de limpeza. É assim que o crime organizado tenta se infiltrar no sistema de saúde: capturando contratos, pressionando autoridades e usando a violência quando não conseguem se impor”, afirmou o presidente.

Para o ex-ministro da Saúde e consultor da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), José Ruales, a corrupção não pode ser usada como argumento para paralisar o sistema público de saúde. Ele também questiona o fato de que, durante o governo de Daniel Noboa, tenham sido nomeados oito ministros da Saúde em menos de três anos, sem que eles conseguissem dar continuidade às políticas públicas do setor.

“A corrupção é um problema dentro do setor público e também está relacionada a práticas do setor privado. Acredito que é preciso enfrentá-la e identificar onde ela ocorre. O fato de termos tantas mudanças de ministros da Saúde, que chegam com novas equipes — muitas delas sem conhecimento de saúde pública — tem deteriorado a continuidade dos programas”, afirma Ruales.

Ruales demonstra preocupação com os números de desabastecimento de medicamentos e defende uma melhoria na gestão da saúde, com profissionais capacitados e experientes.

“Observa-se improvisação nos processos de gestão pública, na liderança do setor de saúde, na definição de objetivos claros e no estabelecimento de metas consistentes. Há uma redução do orçamento. Existe um corte fiscal significativo”, afirma.

O ex-ministro da Saúde faz um apelo ao governo para que avalie e revise os planos de saúde elaborados em anos anteriores, nos quais estão indicadas as necessidades e os alertas para o futuro da saúde pública. Ruales acredita que, enquanto as dificuldades de abastecimento nos hospitais não forem superadas, o impacto financeiro sobre os cidadãos continuará afetando sua qualidade de vida.

“Isso rompe com o conceito de um sistema de saúde que deve criar uma rede de proteção social, capaz de proteger as famílias de uma catástrofe financeira quando um de seus membros adoece”, enfatiza.

Enquanto o governo aposta em seu oitavo ministro da Saúde em menos de três anos, familiares e pacientes vivem uma angústia que não é apenas médica, mas também financeira, enfrentada nas ruas, ao relento e em meio à incerteza.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/hospitais-do-equador-sofrem-com-escassez-de-materiais-medicos/