Eu tinha 8 anos quando soube que meu pai tinha esclerose múltipla.

Aos 12, eu era seus braços e pernas. Enquanto minha mãe trabalhava em tempo integral, nos levava aos treinos de beisebol e cozinhava o jantar, eu consertava lava-louças quebradas, arrumava cortadores de grama e, às vezes, fazia a barba dele. Aos 15, fiquei forte o suficiente para erguê-lo da calçada quando sua cadeira de rodas tombava. Quando tinha 17 anos, parei de procurá-lo nas arquibancadas dos meus jogos de futebol americano.

Nunca falávamos sobre o diagnóstico do meu pai em família. Era um fato da vida, e era minha obrigação como filho “ser homem” e lidar com isso, independentemente da minha idade. Quando eu estava crescendo, meninos que demonstravam emoção eram considerados fracos. Fui ensinado a enterrar tudo por décadas e fingir que estava bem. Não estava.

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Meu pai morreu há uma década. Não escrevi muito sobre ele, o que pode parecer estranho para alguém que escreve sobre paternidade. Mantive minhas emoções represadas, e como resultado me isolei em alguns momentos, o que levou a uma depressão e ansiedade ocultas. A “face” que mostrava para o resto do mundo não correspondia a quem eu era. Outros homens lidam com isso de outras formas, como violência, abuso de substâncias e, às vezes, até suicídio.

Mesmo agora, é difícil controlar minhas emoções quando escrevo sobre ele, e fico absolutamente apavorado de expor essa vulnerabilidade ao mundo.

Mas talvez seja hora. Jordan Ritter Conn, autor de “American Men” (“Homens Americanos”, em tradução livre), certamente pensa assim.

Shannon Carpenter (à direita), autor de “The Ultimate Stay-at-Home Dad”, aparece com seu pai, Preston Carpenter, por volta de 1995 • Cortesia de Shannon Carpenter via CNN Newsource

Nos últimos anos, “as conversas estavam ficando cada vez mais altas sobre homens que não estavam dispostos a mostrar vulnerabilidade”, disse Conn a mim recentemente. “Eu queria me aprofundar naquelas partes da vida dos homens que frequentemente nos dizem que eles não vão mostrar.”

Tipicamente, os homens são retratados como heróis, vilões ou alívio cômico. Em “American Men”, no qual Conn acompanha quatro homens que lutam com sua masculinidade e vulnerabilidade, o livro mostra como é viver como uma pessoa inteira em vez de duas fragmentadas — os homens que o mundo espera que sejamos e os homens que realmente somos.

Conversei com Conn sobre por que é bom para os homens se abrirem e como fazer isso. Esta conversa foi levemente editada e condensada para maior clareza.

Muitos homens vivem sozinhos dentro de suas próprias cabeças e não contam aos outros como se sentem. Como os homens começam a se abrir?

Jordan Ritter Conn: Muitas vezes precisamos de algum tipo de permissão e estrutura para nos abrirmos. Precisamos saber, sem sombra de dúvida, que a pessoa sentada à nossa frente está genuinamente interessada em nossas experiências e é curiosa sem qualquer senso de julgamento.

Foi assim que consegui fazer os homens se abrirem tanto enquanto trabalhava neste livro. Eles sabiam que eu não iria recuar quando me contassem até as verdades mais feias, porque, à medida que me mostravam pequenos pedaços de si mesmos, eu respondia sem julgamento. Levou tempo.

Há outros lugares onde podemos replicar esse tipo de sentimento, como em um ambiente religioso ou terapêutico. É possível até em ambientes mais casuais. É uma questão de simplesmente não ter medo de fazer perguntas diretas uns aos outros e, então, não desviar o olhar quando a outra pessoa começa a se compartilhar abertamente.

O autor Jordan Ritter Conn afirma que se abrir pode ajudar os homens a desenvolverem conexões mais fortes • Samantha Hearn via CNN Newsource

Como os homens lidam com a superação do sentimento de vergonha quando se abrem pela primeira vez?

Conn: No melhor cenário possível, você se abre, alguém ouve e te afirma, e você se sente conectado, tem sua experiência refletida de volta para você e compreendida.

Isso nem sempre acontece, é claro. Às vezes as pessoas são ruins em ouvir. Às vezes dizem a coisa errada. Às vezes pode ser doloroso.

Um dos homens em “American Men” carregava essas feridas incríveis desde que era uma criança pequena. Na primeira vez que ele se abre com um terapeuta, esse terapeuta responde da pior maneira imaginável. E Joseph descobre que está… bem. Ele consegue lidar com isso. Ele provou a si mesmo que pode dizer a coisa aterrorizante em voz alta, que pode suportar até mesmo a pior resposta possível. Ele continua. Ele se abre repetidas vezes até obter a ajuda de que precisa.

Muitos homens estão isolados em sua própria dor e frequentemente a minimizam. Como eles podem se abrir e obter ajuda para tratar essa dor?

Conn: Precisamos nos convidar mutuamente para uma conexão mais próxima. Pense nos homens da sua vida. Não apenas seu pai, irmãos ou marido, mas seus laços mais casuais. O cara do seu escritório, da sua liga de fantasy football, da sua igreja ou da escola do seu filho.

Pense naquilo que você sabe que eles têm enfrentado — a perda de um dos pais, desemprego, divórcio ou dificuldades com a parentalidade. Pergunte como eles estão, não apenas imediatamente após essa dificuldade, mas três meses, seis meses, dois anos depois.

E então se coloque em um estado de curiosidade genuína sobre as respostas deles. Não tente apressadamente fazê-los se sentir melhor. Não passe simplesmente para o próximo assunto. Fique com o que eles estão dizendo, ouça, reflita de volta para eles e deixe-os continuar falando até que sintam algum senso de alívio.

E quanto aos homens cujos sentimentos se expressam como raiva? Quais estratégias os homens que você entrevistou utilizaram?

Conn: Um dos homens do livro se envolve em muitas brigas. Ele havia sido intimidado quando criança porque seus colegas percebiam que ele era gay, e à medida que cresceu e foi assumindo sua sexualidade, sempre que é lembrado dessas humilhações, ele explode.

Os homens frequentemente respondem à humilhação buscando qualquer senso de controle ou poder. Somos ensinados que a raiva é uma emoção aceitável para expressarmos — nenhuma outra emoção é. Não queremos afundar sob essa raiva, mergulhar nessa sensação de tristeza, humilhação, luto ou qualquer outra emoção mais aterrorizante que está alimentando a raiva.

Quando você é alguém propenso à raiva, pode ser um longo processo desconstruir o instinto de ficar com raiva pelo menor motivo. Acho que isso vem de, aos poucos, sentir mais amor e cuidado por si mesmo, lembrando a si mesmo de que você é mais do que suas humilhações. A raiva que você sente está encobrir outra coisa, algum outro sentimento que vale a pena explorar e com o qual vale a pena ficar.

Você encontrou alguma paz ao entrevistar esses homens?

Conn: Encontrei uma sensação de paz em como foi poderoso para cada um deles ver suas histórias no mundo. Estou em contato com todos os quatro agora, quase todos os dias. É algo muito poderoso, ver sua realidade refletida de volta para você, saber que outras pessoas estão se conectando a ela, que você não está sozinho.

É tão simples e básico, mas é tudo o que qualquer pessoa está sempre procurando. Apenas saber que o que quer que estejam sentindo, outra pessoa já sentiu. Que estão conectados a outros que sofreram, lutaram, se preocuparam e trabalharam em direção ao triunfo, assim como eles. Que você pode falar em voz alta sobre suas realidades mais aterrorizantes e encontrar alguém que diga: “Sim, eu sei exatamente o que você quer dizer.”

O que os pais podem tirar disso que os ajudará a ser melhores pais e melhores homens?

Conn: Pensando no meu filho, se ele decidir pegar este livro quando for mais velho, quero que ele e qualquer outra pessoa que o leia sinta que as coisas com as quais estão lutando, as emoções com as quais estão tendo dificuldade, a insegurança que sentem em relação a si mesmos — que saibam que muitas pessoas já se sentiram da forma como eles se sentem nesses momentos difíceis.

E saber o mal que fazemos a nós mesmos e aos outros por causa da nossa própria incapacidade de sempre corresponder ao tipo de padrões que herdamos. Apenas saber que isso é algo que já foi sentido antes, algo que já foi vivenciado antes. E simplesmente ter a sensação de não estar sozinho.

 



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/homens-escondem-sua-vulnerabilidade-como-comecar-a-se-abrir/