O presidente Lula e o ministro Nunes Marques, novo presidente do TSE. (Foto: Alejandro Zambrana/Secom/TSE)

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E o sujeito que pareceu beber detergente para protestar contra a Anvisa? Seria ótimo símbolo da loucura ideológica do nosso tempo, não tivesse o rapaz desmentido, dizendo que era, na verdade, iogurte de coco. Tornou-se, então, uma metáfora reveladora do teatro em que vivemos.

Enquanto o furdunço em torno disso acontecia, o topo da cadeia alimentar se reunia na capital federal para uma sessão de fingimento muito mais sofisticada. Na posse do ministro Nunes Marques como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a aparência de normalidade e civilidade era mais repulsiva do que se vários ali tivessem partido para as vias de fato, como de fato gostariam.

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Testemunhamos, por exemplo, Alexandre de Moraes dando beijinhos nas bochechas de Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama fingiu bem, fazendo parecer iogurte o que era, na verdade, uma dose de Ypê: Brasília, cuja fórmula nada secreta mascara as crostas de ódio, maquiando a realidade com um suave perfume de decoro e etiqueta social.

O desengordurante da falta de vergonha custa caro

Mas o desengordurante da falta de vergonha custa caro. Horas depois, a mesma elite política e judiciária (dá na mesma, eu sei) migrou para a festa da posse. Os ingressos custaram a bagatela de R$ 800 para ver o novo presidente do TSE subir ao palco e soltar a voz junto a Jorge Aragão e Gusttavo Lima, cantando: “Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu!” Enfim, sinceridade.

Mas para que a festa da elite continue, as engrenagens jurídicas nos bastidores precisam rodar sem tantas arestas. Na tarde do mesmo dia da festa, o senador Alessandro Vieira, usando o antigo Twitter, informou: “O presidente [do STF] Fachin, respondendo a recurso nosso, reconheceu (com muito jeito) que a atuação de Gilmar Mendes no caso Maridt (o fundo da família Toffoli) não seguiu as regras processuais e proibiu novos malabarismos similares”.

A expressão é fascinante. “Muito jeito” é o vernáculo gourmetizado, de terno e gravata, para o popular e notório “jeitinho”. E é disso que se trata porque a decisão só veio depois que a bizarrice de Gilmar Mendes já havia surtido todos os seus efeitos impeditivos sobre a investigação. Haja detergente para limpar essa engrenagem.

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De volta à base da pirâmide, enquanto o camarote fiscal bailava, o trabalhador comum celebrava uma migalha concedida pelos mesmos donos do poder. O governo que instituiu um imposto para compras acima de U$ 50 na Shoppe e similares agora o retirou provisoriamente (até a eleição) como quem dá beijinhos na bochecha na entrada da tal festa da democracia que nos custará bem mais do que R$ 800 para participar.

E terminamos a semana com mais encenações sendo desmascaradas. Flávio Bolsonaro, que havia dito que nunca havia falado com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi desmentido não apenas por um áudio seu pedindo dinheiro ao sujeito, como por outros mais e também mensagens escritas, sendo que, em uma das últimas, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

O espetáculo nacional de fingimento seguirá seu roteiro de encenações. A verdade só costuma se revelar quando a maquiagem derrete em operações policiais. E mesmo assim, à esquerda, à direita, ao centro, não falta quem prefira engolir o detergente da militância a enxergar o encardido da realidade. Até já é possível escutar, na festa de posse do próximo presidente, seja quem for, os ecos do samba atravessado: “Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais trouxa do que o eleitor”.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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