O avanço do biometano no agronegócio brasileiro começa a abrir espaço para um novo modelo de receita no campo: a transformação de resíduos orgânicos em combustível renovável e fonte adicional de renda para produtores rurais.

“É a terceira safra do agro brasileiro”, diz Adilson Teixeira Lima diretor-presidente da H2A Bioenergia, empresa que atua na implantação de plantas de biogás e biometano no país. Segundo ele, resíduos antes tratados apenas como passivos ambientais agora passam a gerar receita para propriedades rurais, cooperativas e agroindústrias.

“Aquilo que antes gerava custo para o produtor, agora passa a gerar faturamento. O dejeto vira receita”, afirmou em entrevista à CNN Agro.

Recomendamos para você

O modelo parte da biodigestão de resíduos orgânicos produzidos por granjas, confinamentos, frigoríficos e agroindústrias. Dejetos de suínos, bovinos, aves, resíduos da indústria alimentícia, além de materiais como silagem de milho e sorgo, podem ser utilizados na produção de biogás.

Depois de purificado, o biogás se transforma em biometano, combustível renovável com características semelhantes às do gás natural fóssil.

Participação do produtor

Fundada em 2013, a H2A Bioenergia inaugurou a primeira usina de biometano da América Latina certificada pela ANP para produção a partir de dejetos suínos.

Localizada em Campos Novos (SC), a planta foi desenvolvida em parceria com a Copercampos e recebeu investimento de R$ 65 milhões. A unidade transforma resíduos da suinocultura em combustível renovável, ampliando a oferta de energia limpa e reforçando a agenda de descarbonização do agronegócio brasileiro.

Atualmente 22 plantas estão em fase de implantação no país, com previsão de investimentos de R$ 2,9 bilhões ao longo dos próximos cinco anos.

Segundo a empresa, o modelo de negócio prevê que a H2A faça os investimentos, opere as plantas e comercialize os subprodutos gerados, enquanto produtores e cooperativas entram com o fornecimento dos resíduos orgânicos e da área para instalação das unidades.

Em troca, os parceiros recebem participação na receita dos projetos.

De acordo com a companhia, em propriedades de maior porte, a remuneração pode superar R$ 100 mil mensais, dependendo do volume de resíduos gerados.

A empresa estima que as plantas em implantação terão capacidade de produzir cerca de 800 mil metros cúbicos de biometano por dia, além de 700 toneladas diárias de CO? de padrão alimentício.

Apesar do volume, o executivo afirma que a produção ainda representa uma fração pequena do potencial brasileiro.

“O Brasil tem capacidade para ser autossuficiente em gás natural usando apenas resíduos do agro”, afirmou.

Além dos resíduos agropecuários, o setor também mira oportunidades no aproveitamento de resíduos sólidos urbanos e aterros sanitários.

Na avaliação do executivo, a expansão do biometano também pode estimular a interiorização industrial no país.

Hoje, boa parte da infraestrutura de gás natural está concentrada na faixa litorânea brasileira, enquanto a produção agropecuária avança principalmente para o interior do país.

Segundo Adilson, a chegada de redes de distribuição de gás ao Centro-Oeste e ao Sul pode atrair novas indústrias para regiões produtoras, reduzindo custos logísticos e fortalecendo cadeias locais de transformação.

Outro mercado visto como estratégico é o transporte pesado.

Com a conversão de caminhões para gás natural e biometano, empresas do setor apostam na substituição gradual do diesel.

Segundo estimativas apresentadas pela companhia, o uso do biometano pode representar economia de até 50% no custo do combustível para operações logísticas do agro.

Descarbonização no Brasil

O crescimento do setor ocorre em meio ao avanço das políticas de descarbonização no Brasil e à busca da indústria por fontes energéticas renováveis.

Segundo o executivo, o mercado brasileiro vive atualmente a “terceira geração” do biogás. A primeira surgiu nos anos 1990, impulsionada pelos créditos de carbono. Depois vieram projetos de geração de energia elétrica a partir do biogás. Agora, o foco está na purificação do combustível para produção de biometano.

A expectativa do setor é de forte expansão nos próximos anos, impulsionada também pelas discussões regulatórias conduzidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

“O Brasil tem potencial para substituir parte importante do gás natural fóssil pelo biometano produzido dentro do agronegócio”, disse.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/h2a-investe-r-29-bilhoes-em-biometano/