A escalada do conflito no Oriente Médio e seus reflexos sobre os mercados globais de energia e fertilizantes começam a alterar o comportamento de produtores rurais brasileiros e a dinâmica comercial do agronegócio, segundo avaliação da 3tentos. 

Para o CEO da companhia, João Marcelo Dumoncel, o principal impacto imediato aparece no mercado de fertilizantes nitrogenados, segmento mais sensível às oscilações geopolíticas por causa da forte dependência global de gás natural e da relevância dos países próximos ao Estreito de Ormuz na oferta internacional. 

“O maior impacto está em fertilizantes, muito mais do que em defensivos. Principalmente nos nitrogenados”, afirmou o executivo. 

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Segundo ele, parte relevante dos produtores havia antecipado compras antes da deterioração mais recente do cenário internacional, mas a disparada dos preços acabou interrompendo negociações. 

“Tem pelo menos 30% da demanda represada”, afirmou. 

O executivo ressalta que a volatilidade ainda é elevada e o mercado segue reagindo rapidamente às notícias envolvendo Oriente Médio, Rússia e Ucrânia. Na semana passada, segundo ele, houve algum recuo pontual nos preços da ureia. 

Apesar da cautela dos produtores neste momento, a avaliação da empresa é de que a recomposição das compras será inevitável ao longo do segundo semestre, especialmente para culturas mais dependentes de nitrogênio. 

“No segundo semestre o produtor vai comprar de qualquer jeito, porque ele vai plantar o milho de verão”, disse Dumoncel.  

Segundo ele, caso os preços permaneçam em patamares elevados, a alternativa será reduzir o nível tecnológico das lavouras. “ Em vez de usar 400 quilos, o produtor pode usar 300 quilos por exemplo”, afirmou. 

A preocupação é maior no milho, cultura com elevada necessidade de fertilização nitrogenada. Ainda assim, a companhia avalia que parte do impacto poderá ser diluída porque a demanda mais forte do Centro-Oeste ocorrerá apenas no início de 2027. 

“O milho safrinha do Centro-Oeste, para nós, tem a maior demanda de nitrogenados e será plantado em janeiro e fevereiro do ano que vem. Ainda existe tempo de espera”, afirmou. 

No milho verão do Sul, porém, a janela de decisão está mais apertada. 

“O milho verão já está no limite de compra. Talvez exista perda de produtividade do ponto de vista de nitrogenados”, disse. 

Na soja, o impacto aparece mais concentrado em fósforo do que em nitrogênio. 

“Na soja houve subida de preço de fósforo. O produtor já absorveu essa alta e o mercado retomou”, afirmou. 

Mesmo com alguma acomodação recente, Dumoncel reconhece que o choque de custos sobre o produtor rural é significativo. 

“Existe um aumento de custos considerável e isso pode afetar a cadeia como um todo”, disse. 

Na avaliação da companhia, o cenário de custos elevados se soma a um ambiente financeiro mais restritivo para o agronegócio brasileiro, marcado por juros altos, commodities pressionadas e redução de liquidez no campo. 

“Existe uma descapitalização do setor. O aumento de juros, aliado à queda dos preços das commodities e ao aumento de custos, cria uma pressão importante sobre o crédito”, afirmou. 

Segundo ele, a 3tentos passou a operar com critérios mais rígidos de análise de risco por meio da TentosCap, braço financeiro da companhia. 

“Estamos superativos nesse aspecto de análise de crédito e garantias. Estamos mais rigorosos nos índices aceitáveis de alavancagem, liquidez e endividamento”, afirmou. 

Apesar do cenário mais pressionado, Dumoncel afirma que a inadimplência continua sob controle. 

“A inadimplência historicamente é baixa e segue assim. No ano passado tivemos algum incremento e algumas prorrogações”, disse. 

A percepção da empresa é que a recuperação parcial da safra gaúcha em 2026 deve melhorar a capacidade de pagamento dos produtores do Estado. 

“O produtor gaúcho vai conseguir pagar a conta do ano e amortizar parte dos estoques de contas passadas”, afirmou. 

Guerra incentiva biocombustíveis 

Se no segmento de insumos a guerra pressiona custos e gera incerteza, no mercado de combustíveis renováveis o conflito acabou reforçando a relevância estratégica dos biocombustíveis para o Brasil, segundo a companhia. 

“O tema dos biocombustíveis ficou muito evidente com a guerra, mas nós já vínhamos falando que eles são essenciais para uma matriz energética como a do Brasil”, afirmou Dumoncel. 

Para ele, o debate deixou de estar concentrado apenas em sustentabilidade e passou também a envolver segurança energética e competitividade econômica. 

“Existe a questão da sustentabilidade e da redução de emissões, mas principalmente segurança energética e apelo de preço”, disse. 

O executivo afirma que o aumento da mistura de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel ajuda a reduzir a exposição brasileira às oscilações internacionais do petróleo e derivados. 

Segundo ele, mesmo com a mistura obrigatória de 15% de biodiesel atualmente em vigor, o Brasil ainda depende de importações relevantes de diesel fóssil. 

“Mesmo com o B15, o Brasil ainda importa um volume relevante de diesel. Cada ponto adicional de biodiesel reduz essa dependência”, afirmou. 

A avaliação da empresa é de que o avanço dos mandatos de mistura continuará sustentando a demanda por biodiesel nos próximos anos. 

Nesse contexto, a 3tentos já prepara suas operações para uma eventual elevação da mistura obrigatória para B16, prevista na Lei do Combustível do Futuro. 

“A expectativa é que o B16 avance o quanto antes. E sei que o governo já está fazendo testes pensando em B20”, afirmou. 

A estratégia da companhia passa diretamente pela expansão industrial em biocombustíveis. A empresa aguarda a liberação final da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para iniciar as operações da nova planta de etanol de milho em Porto Alegre do Norte (MT). 

“A planta já passou pela última vistoria da ANP e está em testes a seco”, afirmou Dumoncel. 

Quando atingir capacidade plena, a unidade terá potencial para processar 2,8 mil toneladas de milho por dia, produzindo etanol e coprodutos destinados à nutrição animal. 



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/guerra-eleva-fertilizantes-e-reforca-aposta-da-3tentos-em-biocombustiveis/