O economista José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), criticou um “arrocho fiscal” e afirmou que o equilíbrio das contas públicas não pode ser encarado como “um fim em si mesmo”.
Em texto distribuído na noite desta sexta-feira (7), Gabrielli culpou o Banco Central pelo crescimento acelerado da dívida e argumentou que “não dá para aceitar” recomendações de construir um superávit primário acima de 2% do PIB para fazer frente a isso.
“A redução do déficit público não pode depender exclusivamente da contenção de despesas e do arrocho fiscal, medidas que historicamente penalizam os mais vulneráveis”, afirma Gabrielli no texto, de sete páginas, disparado a contatos praticamente ao mesmo tempo em que foi divulgado o programa de governo à reeleição de Lula.
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Publicado em 2026-08-08 11:15:51O ex-presidente da Petrobras defende os pisos constitucionais da saúde e da educação como “conquistas” do movimento social. Para ele, sua mudança pode ter impactos negativos nesses setores, mas pode haver mais “eficiência e eficácia” no gasto.
Outras medidas frequentemente cobradas por economistas e pelo mercado são minimizadas no texto: “Conter os reajustes das aposentadorias, dos salários dos funcionários públicos e do salário mínimo é, como diz o povo, ‘enxugar gelo’ se os juros continuarem altos”, escreve.
Segundo ele, são necessárias medidas que ampliem a eficiência, a transparência e a qualidade do gasto público.
“Isso inclui a revisão criteriosa e a eventual extinção de benefícios fiscais e subsídios que não apresentam retorno econômico ou social claro, desonerando os cofres públicos e direcionando recursos para áreas de maior impacto.”
Gabrielli ataca também a regressividade do sistema tributário brasileiro e diz que é possível alcançar mais equilíbrio pelo lado da receita, sem aumentar a carga de impostos, mas melhorando sua progressividade.
“Aumentar a taxação sobre os super-ricos, enquanto se desonera o consumo e a produção, é essencial para financiar o estado de bem-estar social de forma equitativa. Estamos aqui falando no topo da pirâmide dos rendimentos tributários brasileiros”, sustenta.
“Sequestro do orçamento”
O ex-presidente da Petrobras chama as emendas parlamentares, que atingiram um valor recorde de R$ 61 bilhões em 2026, de “sequestro do orçamento”.
Segundo o documento, as emendas representam, no Orçamento de 2026, mais de um quinto das despesas discricionárias da União. A pulverização desses recursos, muitas vezes sem critérios técnicos ou alinhamento com prioridades nacionais, reduziria a capacidade do Executivo de planejar e executar políticas públicas de longo prazo.
Para o autor, o volume de emendas compromete a coordenação dos investimentos em áreas consideradas estratégicas, como infraestrutura, ciência, tecnologia e inovação. O documento defende uma articulação maior entre Executivo e Legislativo para enfrentar o problema e afirma que um orçamento mais coeso permitiria direcionar os recursos públicos para objetivos nacionais, em vez de interesses locais e de curto prazo.
Documento atribui avanço da dívida ao custo dos juros
Ao tratar do endividamento, o documento sustenta que o principal motor recente da expansão da dívida não está no crescimento dos gastos primários, mas no elevado custo financeiro associado às taxas de juros.
A argumentação se apoia na comparação entre o déficit primário e os encargos da dívida: segundo o texto, desde 2023 pouco mais de 10% da expansão da dívida líquida teria vindo do acúmulo de déficits primários, enquanto quase 90% seriam explicados pelo pagamento de juros.
É nesse ponto que o autor direciona a crítica ao Banco Central. O documento afirma que a política monetária contracionista, ao manter juros elevados para combater a inflação, aumenta o custo de carregamento da dívida e reduz a capacidade de investimento do Estado.
A crítica, porém, não contempla toda a evolução recente do endividamento: segundo dados divulgados pelo próprio BC, a dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026, ou R$ 10,4 trilhões, maior nível desde abril de 2021. Naquele mês, a alta de 0,9 ponto percentual em relação a maio foi influenciada principalmente pelos juros nominais, que responderam por 0,8 ponto percentual, mas também pelas emissões líquidas de dívida, com 0,6 ponto percentual.
A comparação também mostra que a dívida bruta estava em 71,38% do PIB quando Lula assumiu o governo, em janeiro de 2023. Ou seja, embora o documento enfatize o peso dos juros na trajetória do endividamento, os números do BC mostram uma elevação de mais de 10 pontos percentuais do PIB desde então.