EUA intensificam esforço para revogar cidadania de pessoas naturalizadas
Conteúdo Exclusivo CNN: Em menos de dois meses, 29 processos foram apresentados; casos abertos até agora incluem pessoas acusadas de cometer fraude, abuso sexual de menor ou de ter expressado apoio ao terrorismo antes ou durante o processo de naturalização
O governo de Donald Trump planeja abrir pelo menos 250 casos de desnaturalização até outubro deste ano, intensificando significativamente seus esforços para revogar a cidadania de pessoas naturalizadas nos Estados Unidos, de acordo com um alto funcionário do Departamento de Justiça.
Em menos de dois meses neste ano, o Departamento de Justiça abriu 29 casos de desnaturalização visando americanos nascidos no exterior, acusados de obter a cidadania americana de forma fraudulenta.
Advogados de direito civil estão ativamente revisando mais casos, enquanto o departamento acelera um ritmo que já superou o de anos anteriores: entre 2008 e 12 de junho de 2026, foram registrados 166 processos de cassação de cidadania, uma média de menos de 10 por ano, de acordo com o Transactional Records Access Clearinghouse da Syracuse University.
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Publicado em 2026-06-20 05:00:17Os casos abertos pelo governo Trump até agora incluem pessoas acusadas de cometer fraude, abuso sexual de menor ou de ter expressado apoio ao terrorismo antes ou durante o processo de naturalização.
A iniciativa faz parte da agenda de imigração mais ampla do presidente Donald Trump — que vai muito além de visar pessoas em situação irregular no país.
Nos bastidores, o Departamento de Justiça retirou advogados cíveis de diversas divisões — incluindo os designados para investigar fraudes, que o governo definiu como outra prioridade máxima — para conduzir casos de desnaturalização, de acordo com o alto funcionário do Departamento de Justiça.
Os casos também estão sendo encaminhados aos escritórios dos procuradores dos EUA em um momento em que muitos já estão sob enorme pressão.
"Esta é uma ferramenta legal que o Congresso mantém em vigor há décadas", disse a fonte à CNN.
Ele acrescentou que os casos de desnaturalização devem ser priorizados "para proteger a integridade da cidadania americana e garantir que as pessoas presentes neste país que desfrutaram dos benefícios da cidadania o façam de forma legal, e que as pessoas certas estejam adquirindo a cidadania."
O governo federal tem autoridade, por legislação federal, para avançar na revogação da cidadania de um indivíduo caso ele tenha feito declarações falsas relevantes para o processo de naturalização ou caso a cidadania tenha sido obtida ilegalmente, ou seja, sem que o indivíduo fosse elegível para tal.
Os casos de desnaturalização geralmente se enquadram em uma dessas categorias e prosseguem como casos cíveis ou criminais, dependendo das circunstâncias.
As desnaturalizações não se aplicam àqueles que nasceram no país e receberam a cidadania por direito de nascimento. Separadamente, Trump tentou, por meio de decreto executivo, encerrar a cidadania automática por direito de nascimento. A Suprema Corte decidirá em breve se essa medida política é legal.
Na última década, quase 8 milhões de pessoas se tornaram cidadãos naturalizados dos EUA, de acordo com o Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA.
Redirecionamento de recursos do Departamento de Justiça
O governo dos EUA sinalizou que quer priorizar as desnaturalizações em um memorando de junho de 2025 do procurador-geral assistente Brett Shumate.
Shumate listou 10 categorias de prioridades para os casos, incluindo indivíduos que representam perigo à segurança nacional, que cometeram crimes de guerra, que praticaram fraude ou que cometeram crimes graves não declarados durante o processo de naturalização, entre outros.
"Essas categorias têm como objetivo orientar a Divisão Civil na priorização dos casos a serem perseguidos; no entanto, essas categorias não limitam a Divisão Civil de perseguir qualquer caso específico, nem estão listadas em uma ordem particular de importância", diz o memorando.
A unidade de desnaturalização é composta por 12 advogados que estão trabalhando em um acúmulo de casos e continuam recebendo encaminhamentos do Departamento de Segurança Interna.
Isso inclui casos de fraude de identidade, bem como casos de condenações anteriores, casos de criminosos de guerra e casos de terrorismo, disse a fonte ouvida pela reportagem.
Dado o volume, no entanto, o Departamento de Justiça está recrutando profissionais de outros escritórios de sua divisão civil, incluindo advogados especializados em fraude civil, indicados políticos do escritório principal, entre outros advogados, para ampliar a capacidade.
Os escritórios dos procuradores dos EUA, por sua vez, também estão recebendo encaminhamentos de casos e os distribuindo pelo país, dependendo de onde o caso será protocolado.
O alto funcionário do Departamento de Justiça pontuou que os escritórios dos procuradores dos EUA podem protocolar "várias centenas de casos a mais".
Os casos são intensivos e demorados, o que é em parte a razão pela qual as administrações anteriores se concentraram principalmente em pessoas envolvidas em crimes de guerra e terrorismo.
O governo de Joe Biden, por exemplo, protocolou um total de 24 casos ao longo de quatro anos, de acordo com o Departamento de Justiça.
"Eles podem ser capazes de agilizar o processo de iniciação desses casos, mas independentemente das medidas que tomem antes de os casos serem protocolados, o próprio processo de litígio ainda será um enorme impedimento para o objetivo de desnaturalizar pessoas em grande escala", disse Stacey Young, que serviu no Departamento de Justiça americano em vários governos e é fundadora e diretora executiva da Justice Connection.
"Encontrar pessoas que cometeram fraudes graves"
A desnaturalização é rara e só pode ocorrer em tribunal federal.
Historicamente, os EUA revogaram cidadanias por uma série de razões, desde mentiras sobre a data de chegada, idade ou estado civil de uma pessoa até razões políticas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os EUA revisaram casos de naturalização de alemães-americanos que eram pró-nazistas.
Advogados do Departamento de Justiça haviam concentrado anteriormente seus esforços em pessoas condenadas por crimes graves, tornando os casos levados a tribunal mais claros, disseram fontes à CNN.
Atualmente, porém, alguns advogados do Departamento de Justiça estão sentindo maior pressão para perseguir qualquer caso que possa ser argumentado perante a lei — incluindo supostas fraudes baseadas na forma como os documentos foram preenchidos, destacaram as fontes à CNN.
Autoridades do Departamento de Justiça sustentam que a agência está focada em pessoas que mentiram sobre histórico criminal ou atos criminosos que estavam em andamento quando solicitaram a cidadania americana.
"Pessoas que receberam uma multa por estacionamento — essas não serão alvo dos nossos recursos e podem nem se qualificar para a desnaturalização segundo o estatuto", disse o alto funcionário da agência.
"Trata-se realmente de encontrar pessoas que cometeram fraudes graves contra os Estados Unidos, identificar esses indivíduos e proceder o mais rapidamente possível", comentou.
Em uma declaração deste mês, o procurador-geral interino Todd Blanche pontuou que "obter a cidadania americana é um privilégio e, sob a liderança inabalável do presidente Trump, este Departamento de Justiça mantém uma política de tolerância zero para o abuso desse processo".
Se o governo obtiver êxito em um caso de desnaturalização, a pessoa retornará ao status de imigração que possuía antes de adquirir a cidadania americana.
Em geral, ela costuma retornar ao status de residente permanente, embora, dependendo dos motivos da desnaturalização, também possa enfrentar processos de deportação.
"A razão para a robustez das proteções, a razão pela qual o padrão exige provas claras e convincentes, etc., deve-se às decisões da Suprema Corte", disse Daniel Kanstroom, professor de direito na Boston College Law School.
Kanstroom observou que a ênfase do governo nas desnaturalizações é "potencialmente preocupante", mas não representa atualmente motivo de alarme, uma vez que os casos apresentados até agora se enquadram geralmente no tipo de casos que governos anteriores perseguiram.
*Hannah Rabinowitz, da CNN, contribuiu para esta reportagem