EUA estão tentando estrangular economia iraniana, avalia professora
Em entrevista ao CNN 360º, Mariana Kalil analisou retomada dos ataques das forças americanas, que atingiram cerca de 90 alvos no Irã, incluindo área próxima à usina nuclear
Forças dos Estados Unidos realizaram ataques a várias cidades costeiras iranianas, atingindo cerca de 90 alvos na província de Bushehr. Segundo o Irã, os bombardeios alcançaram uma área próxima à uma usina nuclear local, gerando repercussão internacional imediata sobre as implicações estratégicas e humanitárias do conflito.
Para Mariana Kalil, professora de geopolítica da ESG (Escola Superior de Guerra), a escolha dos alvos vai além da dimensão nuclear.
"Para além de um ataque perto de uma usina nuclear, a gente teve, entre esses 90 ataques, um ataque muito importante a uma ponte que é responsável por grande parte do comércio do Irã com a Rússia e com a China", afirmou Kalil em entrevista ao CNN 360º desta quinta-feira (9).
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Publicado em 2026-07-09 17:24:26Na avaliação dela, "os Estados Unidos estão tentando estrangular a economia iraniana, inclusive nesses ataques mais recentes".
Kalil explicou que atingir pontes e estruturas estratégicas faz parte dos objetivos táticos de uma guerra, visando impedir que o adversário mantenha sua força militar, econômica e política. No entanto, ela foi enfática ao condenar os ataques próximos a instalações nucleares.
"Ataques próximos às usinas nucleares são super condenáveis porque podem gerar desastres, inclusive com impactos ambientais muito importantes e impactos humanos extremamente relevantes", disse.
Kalil também destacou que a Rússia foi amplamente criticada por adotar conduta semelhante na Ucrânia, e que os Estados Unidos, ao repetirem o padrão, perdem autoridade moral para criticar Moscou.
Perspectivas para um cessar-fogo
Mariana Kalil foi cautelosa ao analisar uma possível retomada das negociações entre Washington e Teerã. Segundo ela, a teoria predominante nas relações internacionais sugere que acordos de paz se tornam mais prováveis quando as partes envolvidas estão próximas do colapso.
"É uma teoria triste, a população precisaria sofrer, os governos precisariam ficar próximos de cair, mas, de acordo com essa teoria, a gente estaria longe de um acordo que de fato vingasse", avaliou.
Ela apontou ainda a presença de Israel como uma variável complicadora, já que o país não está à mesa de negociações e possui objetivos distintos dos americanos, o que pode prolongar o conflito independentemente de qualquer entendimento bilateral entre EUA e Irã.
Kalil apontou que o Irã teria encontrado no controle do Estreito de Ormuz uma espécie de "bomba atômica" geopolítica, capaz de abalar a economia mundial. "E eu vou além: os Estados Unidos já sabiam disso", afirmou.
Ela lembrou que, durante o governo Bolsonaro, os Estados Unidos chegaram a convidar o Brasil para realizar exercícios militares navais no Estreito de Ormuz, o que demonstra que a inteligência americana estava ciente da importância estratégica da região.
Para ela, isso levanta questionamentos sobre os reais motivos que levaram à decisão de bombardear o Irã neste momento.
Pressões internas
Na avaliação da professora, o conflito tende a se estender por um longo período. Ela destacou que Donald Trump enfrenta pressões internas crescentes, incluindo queda de popularidade associada à inflação e à contradição entre sua promessa de isolacionismo em política externa e o engajamento militar em curso.
"Os Estados Unidos são imprevisíveis quando a gente está falando de um governo Trump", disse.
Por outro lado, a especialista ressaltou que o regime iraniano possui estruturas profundamente enraizadas, como a Guarda Revolucionária, o que torna improvável uma capitulação rápida.
"O Irã não é a Venezuela. Se o regime da Venezuela não caiu, apesar de estar sendo usado e instrumentalizado, certamente o regime iraniano irá demorar muito mais para cair", ressaltou Kalil.
Segundo a professora, ainda haverá um período muito longo até que os dois países cheguem perto da desistência em relação ao conflito. Ela acrescentou que os próprios Estados Unidos podem ser os primeiros a recuar, pressionados pela opinião pública interna.