Flávio Bolsonaro ocupa uma posição peculiar nesse cenário das Eleições 2026. (Foto: Octavio Guzmán/EFE)

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Desde 2022 setores influentes do país apostaram na construção de uma alternativa capaz de derrotar o lulismo e o bolsonarismo: a chamada terceira via, que romperia a polarização que domina a política nacional. Governadores, ex-ministros e líderes partidários foram apresentados como candidatos capazes de unir o centro político, atrair o apoio do mercado financeiro e conquistar a simpatia da grande mídia.

Mas faltou combinar com os eleitores, que não cooperaram com o projeto. Apesar da intensa exposição recebida por alguns nomes, nenhum deles demonstrou força suficiente para alterar o quadro político consolidado.

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Entre as apostas recentes esteve o ex-governador mineiro Romeu Zema. Sua imagem foi apresentada como a de um gestor eficiente, capaz de dialogar simultaneamente com o empresariado, com o eleitorado conservador e com os setores da mídia que resistem ao bolsonarismo. Suas críticas ao STF receberam ampla repercussão, alimentando a expectativa de que poderia conquistar o voto bolsonarista.

A tentativa não prosperou. As pesquisas continuaram sinalizando que a polarização permanece intacta, não havendo espaço para uma candidatura intermediária com chances realistas de vitória.

Agora começa um novo movimento: já que não foi possível criar uma terceira via capaz de substituir a direita bolsonarista, talvez a solução seja transformar o representante dessa direita na terceira via, adaptando sua candidatura às exigências do sistema.

A lógica é simples. Se Flávio Bolsonaro é o único nome com potencial para derrotar Lula, a estratégia mais eficaz não é tentar impedir sua ascensão, mas condicioná-la. Em vez de inviabilizar sua candidatura, moldá-la dentro dos limites considerados aceitáveis pelos centros do poder, que enxergam com preocupação a continuidade do ambiente de confronto político vivido nos últimos anos.

O recado é claro: para se tornar viável, Flávio precisa demonstrar previsibilidade, moderação e disposição para assumir compromissos valorizados pelo mercado financeiro, pela grande mídia e por instituições que hoje se sentem ameaçadas. Caso contrário, enfrentará um ambiente cada vez mais hostil.

O objetivo não é necessariamente garantir uma vitória petista, mas usar a hipótese da reeleição como um espantalho, um bicho-papão, um mecanismo disciplinador

Esse movimento envolve três mecanismos. O primeiro é a influência exercida pelas pesquisas eleitorais na formação das expectativas políticas. O segundo é a construção de um ambiente de pressão por meio de uma cobertura jornalística enviesada. O terceiro é o incentivo à percepção de que Lula continua sendo o favorito da disputa.

O objetivo não é necessariamente garantir uma vitória petista, mas usar a hipótese da reeleição como um espantalho, um bicho-papão, um mecanismo disciplinador. Diante da perspectiva de mais quatro anos de governo petista, setores da direita seriam levados a aceitar concessões que, em condições normais, rejeitariam.

Evidentemente, trata-se apenas de uma hipótese, que pode parecer conspiratória. Ainda assim, ela oferece uma chave de interpretação para movimentos recentes que parecem contraditórios. Explicaria, por exemplo, por que determinadas controvérsias envolvendo o governo voltaram a receber da mídia um tratamento brando, enquanto episódios ligados à oposição são tratados como escândalos.

Contribui para essa dinâmica a fragmentação da própria direita. Correntes que compartilham objetivos semelhantes dedicam mais energia às disputas internas do que ao enfrentamento do inimigo comum. Divergências legítimas são transformadas em disputas por protagonismo, consumindo tempo, recursos e capital político. Em vez de ampliar sua capacidade de mobilização, a oposição se dispersa em conflitos domésticos que a enfraquecem.

Resta saber se a tentativa de transformar Flávio em uma versão mais moderada da direita produzirá o resultado esperado. A experiência mostra que candidatos raramente chegam à eleição exatamente como iniciaram a campanha. Pressões institucionais e eleitorais fazem parte da democracia, e adaptações são inevitáveis. Ao mesmo tempo, existe um limite para essa acomodação. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre ampliar apoios e preservar a identidade política.

O próprio Flávio Bolsonaro ocupa uma posição peculiar nesse cenário. Embora carregue o sobrenome que simboliza a principal força da direita brasileira nas últimas décadas, sua trajetória pública sempre foi menos confrontacional que a do pai. Seus apoiadores enxergam nessa característica uma vantagem eleitoral, capaz de ampliar alianças sem romper com a base conservadora. Seus críticos, por outro lado, questionam se sua postura mais moderada será suficiente para preservar o entusiasmo do eleitorado bolsonarista.

O desfecho dependerá de diversos fatores: da força eleitoral de Lula, da capacidade de mobilização da oposição, da atuação das instituições e, sobretudo, das escolhas feitas pelo próprio Flávio.

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