A engenharia levou a Artemis II ao espaço, mas são Homero, Virgílio, Dante e outros que explicam por que vale a pena ir até lá. (Foto: Cristobal Herrera-Ulashkevich/EFE/EPA)

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A missão Artemis – o ousado programa da Nasa para levar os humanos de volta à Lua e, mais cedo ou mais tarde, enviá-los a Marte – continua a capturar a imaginação do mundo, e com razão. Como alguém que estuda as humanidades profissionalmente e que já escreveu para o Public Discourse sobre os motivos pelos quais pessoas de fé e cultura deveriam estar entre os defensores mais ardorosos da exploração espacial, sinto-me profundamente tocado toda vez que contemplo aquilo que estamos tentando fazer: deixar este planeta, atravessar o vazio e fincar nossa bandeira no cosmos.

Mas, escondida sob as manchetes sobre lançamentos de foguetes e órbitas lunares, havia uma história mais silenciosa, uma história que deveria inquietar qualquer pessoa preocupada com o futuro de nossa civilização no longo prazo: a Universidade de Syracuse anunciou recentemente que planeja eliminar uma ampla gama de programas acadêmicos, incluindo Estudos Clássicos, Italiano, Francês e Alemão. A justificativa, como quase sempre acontece nesses casos, é financeira: os programas não geram receita suficiente e não produzem alunos suficientes. Na fria aritmética do ensino superior do século 21, eles não justificam sua própria existência.

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Esse raciocínio, embora compreensível, não é apenas míope; é autodestrutivo, de maneiras que o nosso momento cultural atual torna quase dolorosamente evidentes, porque estamos cortando esses programas exatamente no momento em que fazemos, com mais urgência, as perguntas que somente eles podem responder.

Considere o nome desta recente missão lunar: Ártemis é a irmã gêmea de Apolo, deusa da lua e da caça na mitologia grega. E, claro, o grande capítulo anterior da exploração espacial americana levava o nome de Apolo, o deus do sol, da luz, da poesia e da música. Esses nomes não foram escolhidos ao acaso; foram escolhidos porque as pessoas que construíram esses programas tinham formação clássica. Elas sabiam que os gregos olhavam para o mesmo céu noturno e viam nele não apenas dados, mas drama: deuses, heróis e histórias sobre os desejos mais profundos da alma humana.

Deixar de ensinar Homero é iniciar o longo processo de esquecer por que a exploração importa – por que a dificuldade vale a pena, por que o risco vale a pena, por que qualquer parte disso vale a pena

Mas agora estamos propondo deixar de ensinar justamente o material que deu nome a essas missões. É um pouco como uma família cujo amor pelos clássicos contos de fadas a inspira a fazer uma peregrinação à Disney World, apenas para, anos depois, decidir parar de mostrar A Bela Adormecida, Pinóquio e Branca de Neve para seus filhos. Quem faz isso se esquece de que o encantamento não é incidental ao destino; o encantamento é a razão pela qual se vai.

Ou pense no curso de Alemão. Não é coincidência que a ciência dos foguetes que tornou possível o programa Apollo tenha se apoiado tão fortemente na tradição intelectual alemã. Os físicos e matemáticos que tornaram concebível a viagem espacial – muitos deles formados em uma cultura universitária que valorizava a Wissenschaft, a unidade de todo o conhecimento – entendiam que a ciência não existe no vazio e que a física habita o mesmo universo da filosofia. Wernher von Braun, independentemente de sua história complicada, foi moldado por uma tradição que ainda não traçava uma linha rígida entre o humanista e o cientista.

E então há Homero e Virgílio. A Odisseia e a Eneida são, em sua essência, histórias sobre seres humanos que ouvem o chamado do horizonte e respondem a ele, com grande coragem e pagando um altíssimo preço. Odisseu não é apenas o santo padroeiro dos antigos marinheiros gregos; ele é o santo padroeiro de todo ser humano que já olhou para as estrelas e sentiu o chamado do “outro lugar” (no caso dele, de volta para casa). Deixar de ensinar Homero não é simplesmente privar os estudantes de livros antigos. É iniciar o longo processo de esquecer por que a exploração importa em primeiro lugar – por que a dificuldade vale a pena, por que o risco vale a pena, por que qualquer parte disso vale a pena.

Estou ciente de que essas afirmações podem soar abstratas para administradores enfrentando déficits orçamentários reais. Mas acredito que elas sejam, na verdade, urgentemente práticas. Estamos nos estágios iniciais de um projeto civilizacional de ambição quase incompreensível: tornar-nos, algum dia, uma espécie multiplanetária. Os engenheiros, físicos e astrofísicos nos levarão até lá. Não tenho dúvidas disso. Mas que tipo de civilização queremos levar conosco quando formos? Essa não é uma pergunta que a ciência, a tecnologia, as engenharias ou a matemática possam responder. É uma pergunta para as humanidades.

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Isso me leva, finalmente, àquele que talvez o mais silenciosamente devastador dos programas que Syracuse marcou para eliminação: o de Italiano. Tenho pensado (e escrito) muito ultimamente sobre Dante Alighieri, que terminou cada um dos três livros de sua Divina ComédiaInferno, Purgatório e Paraíso – com a mesma palavra: stelle, “estrelas”. Não foi coincidência. Dante estava nos dizendo algo sobre a direção da jornada humana: para cima, para fora e rumo às estrelas – ad astra. Como escrevo em meu próximo livro, Dante’s Guide to Life, essa era sua maneira de nos lembrar que as estrelas são onde reside nosso destino.

Pense no que isso significa estruturalmente. Dante começa sua jornada no ponto mais baixo: no abismo do Inferno, o mais distante possível das estrelas. Depois sobe, dolorosa e lentamente, a montanha do Purgatório. E termina ascendendo pelas esferas celestes do Paraíso. Em cada etapa dessa jornada – no fim do Inferno, no fim do Purgatório, no fim do Paraíso – ele ergue os olhos e vê as estrelas. Elas são sua bússola, seu destino, sua esperança.

Dante está nos dizendo que, não importa quão profundamente mergulhados na escuridão possamos estar, as estrelas estão sempre lá, sempre nos chamando para cima e para fora. Ele está nos dizendo – sete séculos antes dos irmãos Wright, oito séculos antes da Apollo 11 – que a história humana não termina nesta Terra. Ela termina, se terminar em algum lugar, entre as estrelas. Deixar de ensinar Dante é deixar de ensinar essa lição. E este seria um momento estranho e decepcionante para se fazer isso, justamente quando estamos (literalmente) alcançando as estrelas.

Cortar nossos laços com Dante, com os clássicos e com as línguas e literaturas que carregaram a sabedoria mais profunda da humanidade através dos séculos não é uma decisão orçamentária. É uma decisão antropológica. É uma decisão sobre que tipo de seres somos. A questão do que significa ser humano – para que existimos, para que direção estamos avançando, quais obrigações temos uns para com os outros – é precisamente a questão que as humanidades fazem, e que elas mantêm viva.

A ciência, a engenharia e os espantosos feitos da engenhosidade humana nos levarão à Lua, a Marte e além. Mas são as humanidades que nos dizem por que estamos indo até lá

Quando estudamos os clássicos, não estamos apenas memorizando textos antigos. Estamos nos tornando aprendizes da longa conversa que os seres humanos travam há milênios sobre o que faz uma vida valer a pena, e a construção de uma civilização valer a pena. Eliminar essa conversa de nossas universidades é formar graduados que sabem fazer coisas extraordinárias, mas que jamais foram seriamente questionados sobre a razão pela qual deveriam fazê-las. Uma civilização capaz de projetar um foguete que escape da gravidade terrestre, mas incapaz de articular por que a jornada importa, é uma civilização que respondeu à questão dos meios enquanto abandonava a questão dos fins. E uma civilização sem consciência de seus próprios fins – de seu próprio propósito, de sua própria visão do bem – não é uma civilização pronta para levar seus valores ao cosmos. É apenas uma civilização que aprendeu, de maneira muito impressionante, a ir rápido, mas pouco mais do que isso.

Sim, são a ciência, a engenharia e os espantosos feitos da engenhosidade humana que nos levarão à Lua, a Marte e além. Ninguém discute isso. Mas são as humanidades – a Odisseia, a Eneida e a Divina Comédia de Dante – que nos dizem por que estamos indo até lá. Elas são as raízes da própria árvore que agora tentamos fazer crescer até o céu. Por que cortar essas raízes justamente agora, no momento em que mais precisamos delas?

Uma civilização que pode alcançar as estrelas, mas esqueceu por que queria fazê-lo em primeiro lugar, não é uma civilização triunfante. É uma civilização perdida. É um corpo sem alma. É realmente esse o tipo de civilização que queremos ser?

Daniel Ross Goodman é escritor, pesquisador visitante na Universidade Rutgers e especialista em literatura italiana. Seu próximo livro, Dante’s Guide to Life: How The Divine Comedy Can Change Our Fortunes, Our World, and Ourselves, trata dos ensinamentos da Divina Comédia a respeito da jornada humana.

©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: We’re Going to the Stars. Do We Still Know Why?

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