Escavações revelam cemitério indígena em sítio arqueológico no Amazonas Um estudo arqueológico realizado no Seringal do Jauari, em Itacoatiara, no interior do Amazonas, confirmou que a área abriga um antigo cemitério indígena. Durante as escavações, pesquisadores identificaram quatro pontos com urnas funerárias e mais de 200 fragmentos de materiais arqueológicos. O local é um fragmento florestal marcado pela presença de seringueiras e também é reconhecido como sítio arqueológico, com vestígios que ajudam a contar a história dos povos indígenas que ocuparam a região antes da chegada dos europeus. O trabalho foi realizado depois que o proprietário de uma área dentro do sítio iniciou a construção de um muro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) notificou o responsável e solicitou a realização de um estudo arqueológico antes de novas intervenções no terreno. ? Participe do canal do g1 AM no WhatsApp O proprietário contratou uma equipe especializada para realizar o projeto de salvamento arqueológico. A intenção é preservar a maior parte da área e fazer poucas intervenções no terreno. Os locais considerados de menor potencial arqueológico poderão ser utilizados futuramente, desde que respeitadas as orientações técnicas e legais. “Ele praticamente será um guardião desse sítio. Então qualquer obra que ele irá fazer vai consultar sempre a parte arqueológica e a parte ambiental”, explicou a engenheira ambiental Kesia Maia. Local onde achados arqueológicos foram encontrados durante escavação em Itacoatiara. Liam Cavalcante/Rede Amazônica Quatro urnas funerárias são encontradas Durante cerca de uma semana de escavações, os arqueólogos identificaram quatro locais com urnas funerárias. A descoberta confirmou a hipótese de que a área funcionava como um cemitério indígena. Segundo a arqueóloga Elaine Cristina Guedes Vanderlei, as urnas não serão retiradas. As escavações foram interrompidas justamente para preservar o contexto funerário. “É de fato um sítio arqueológico muito complexo e que conta um pouco da história pré-colonial, antes do contato com os europeus”, afirmou. A pesquisa também se conecta a um estudo realizado há 14 anos. Em 2012, pesquisadores encontraram uma urna funerária a cerca de 200 metros da área atualmente estudada. Segundo o professor Carlos Augusto da Silva, a urna encontrada naquele período continha restos mortais de oito pessoas, sendo duas crianças. Para os pesquisadores, os novos achados ajudam a confirmar a função funerária do local. A expectativa é que áreas de habitação, onde ficavam as moradias dos antigos habitantes, estejam nas proximidades do cemitério. Além das urnas, a equipe retirou mais de 200 fragmentos arqueológicos durante os trabalhos. Entre os materiais estão peças de cerâmica, fragmentos com pinturas e decorações e um objeto que pode ter sido utilizado como ferramenta. O material coletado será levado para Manaus, onde passará por higienização, catalogação e análise em laboratório da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). As quatro urnas encontradas durante a pesquisa permanecerão preservadas no próprio local. Fragmentos arqueológicos encontrados durante os trabalhos. Liam Cavalcante/Rede Amazônica Alunos conhecem sítio arqueológico Durante os trabalhos, estudantes da Escola Municipal Isaac Peres visitaram o Seringal do Jauari para conhecer a pesquisa e aprender sobre a importância da preservação do patrimônio arqueológico. A professora Lucifran Lima da Silva acompanhou a visita. Segundo ela, a escola já trabalhava com o tema e tinha preocupação com a preservação da área. “É importante que essas crianças que estão crescendo saibam a sua história, o que aconteceu aqui, as urnas arqueológicas e o que elas significam”, disse. A professora destacou ainda que o contato com o sítio ajuda a despertar a curiosidade dos estudantes sobre a história dos povos indígenas que viveram na região. Itacoatiara tem 46 sítios arqueológicos Itacoatiara possui atualmente 46 registros no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA), em áreas urbanas e rurais do município. O número é superior ao registrado em 2012. Naquele ano, o Iphan informava que havia 27 sítios arqueológicos cadastrados em Itacoatiara e realizava estudos para inventariar outras áreas. O Sítio Jauari já era pesquisado naquele período. Uma reportagem do g1 publicada em agosto de 2012 registrou escavações realizadas por pesquisadores no local. Na época, o Iphan informou que os estudos faziam parte de um trabalho de levantamento do patrimônio arqueológico do município. Entre os objetivos estava identificar quais sítios ainda resistiam à ação humana e quais outras áreas poderiam ser cadastradas. Quatorze anos depois, novas pesquisas voltaram ao Jauari e ampliaram o conhecimento sobre a ocupação indígena antiga na região. Preservação A realização do estudo está relacionada ao licenciamento ambiental e à proteção do patrimônio arqueológico. Quando uma obra ou intervenção pode afetar esse tipo de patrimônio, o Iphan participa do processo para garantir que os vestígios sejam identificados e preservados. No Jauari, a pesquisa permitiu delimitar as áreas de maior concentração de vestígios e orientar possíveis intervenções futuras. Para os pesquisadores, preservar o sítio significa manter parte da memória dos povos que viveram na região antes da colonização. Além do valor arqueológico, o Seringal do Jauari mantém uma área de vegetação com presença de seringueiras, reunindo em um mesmo espaço elementos da história indígena e da ocupação mais recente da região. O material coletado durante a pesquisa ainda será analisado pelos especialistas. Os estudos devem ajudar a identificar com mais detalhes como viviam os povos que ocuparam o local e ampliar o conhecimento sobre a história antiga de Itacoatiara e da Amazônia. Alunos acompanham trabalho de arqueólogos durante escavação. Liam Cavalcante/Rede Amazônica
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