Helena de Troia (ao centro), em detalhe de "O rapto de Helena", de Guido Reni. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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Aprendi a ler em voz alta, com Homero. Tinha uns 16 anos e declamava a Ilíada sozinho no quarto, sem entender metade. Gostava do som antes de gostar do sentido. Foi assim que entrei na literatura, e foi de Homero que saí para a história da arte e para os mármores quebrados que ainda hoje me impulsionam diante de uma vitrine de museu, quando ouso levar meus filhos. Digo isto correndo o risco do pedantismo, e assumo o risco: é a única biografia que tenho para tratar do tema.

Graças a Deus não me tornei um especialista no assunto. Falo por diletantismo. E, sendo diletante, estou ansioso pelo novo filme da Odisseia. Mas hoje não quero falar do épico. Com relação a polêmicas identitárias, tenho mais afinidade. É disso que trata o meu texto.

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Christopher Nolan escalou Lupita Nyong’o para Helena de Troia. A mulher mais bela do mundo, filha de Zeus e de Leda, espartana, aquela cujo rosto lançou mil navios – entregue a uma atriz queniana de origem luo. Nolan explicou a escolha pela “força e pela postura” que viu na atriz. Ninguém duvida da força nem da postura de Nyong’o. O que ela não tem, e ninguém tem como ter, é o vínculo com o mito que Homero contou: uma rainha grega, branca, raptada de um palácio grego por um príncipe troiano.

Para os gregos, a beleza era brilho. Leukós, a palavra que traduzimos por “branco”, quer dizer antes de tudo luminoso, e é o que marca o corpo dos deuses

Homero põe a beleza dela na boca dos velhos de Troia, que a veem passar na muralha e murmuram, no Canto III: a?n?s athanát?isi the?is eis ?pa éoiken – “no rosto, ela se parece com as deusas imortais”. O verso louva o rosto, e diz que por aquele rosto troianos e aqueus padecem a guerra sem que ninguém os possa censurar. É o atestado homérico do que está em disputa: o rosto de Helena.

Para os gregos, a beleza era brilho. Leukós, a palavra que traduzimos por “branco”, quer dizer antes de tudo luminoso, e é o que marca o corpo dos deuses: a pele que reluz, o véu de Hera cintilando como o sol do Olimpo.

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Quando Homero chama Helena e Hera de leuk?lenos, “de braços brancos”, inscreve aristocracia e divindade no corpo: a pele que não se queima ao sol porque não trabalha, o esplendor que distingue quem desceu do Olimpo. Nenhum censo de pele entra nisso. A brancura, ali, é categoria teológica antes de ser cor. Por isso a troca importa, e dizer que importa nada tem de questão racial: o que Nolan apaga é um código – o sistema inteiro pelo qual aquela cultura imaginava o divino encarnado. O mesmo poema que dá a Helena braços de luz a faz nascer de um ovo, filha de Zeus em forma de cisne. A fidelidade homérica sempre foi à gramática do esplendor, e é essa gramática que um departamento de elenco resolveu não saber ler.

Dirão que o mito é plástico, que cada época reescreve Homero à sua imagem, que houve Helenas de todas as cores ao longo dos séculos. E é verdade, em parte. Só que ninguém reescreveu Helena de fora dela; reescreveram-na de dentro da própria tradição, brigando com Homero, não fingindo que Homero não existe. Nolan obedece a um departamento e chama isso de diálogo com o texto.

Inverta o caso. Oxum é a orixá iorubá da beleza, do amor e das águas doces, cultuada da Nigéria ao terreiro de candomblé aqui do lado. Imagine um diretor entregando Oxum a uma atriz dinamarquesa, loira, e justificando a opção criativa pela força e pela postura que viu nela. O escândalo seria imediato, e teria razão de ser: ninguém tira a deusa negra das águas para pintá-la de branca, por altivez de espírito atriz. Pois é exatamente esse gesto que Nolan faz na direção contrária. O desrespeito à memória de um povo não corre num sentido só. Quem desrespeita a Grécia desrespeitaria a África no dia em que a conta virasse – só não vira porque a Grécia entrou na lista das culturas que se pode reescrever sem pedir licença.

Verei o filme porque gosto do Nolan, e vou sair do cinema com a sensação exata de quem assistiu a um homem talentoso preencher um formulário com mão firme

O primeiro elogio escrito à beleza de Helena foi uma defesa. Górgias, há 25 séculos, redigiu um Elogio a Helena para inocentá-la da culpa pela guerra: ela fugiu com Páris movida pelos deuses, pela força, pelo desejo ou pela palavra, e contra qualquer um desses poderes nenhuma mulher responde, porque foi agida, não agente. O argumento era engenhoso e tinha um preço: salvava Helena e rebaixava-a a objeto de forças maiores que ela. Nolan cobra o mesmo preço. Também faz de Helena matéria movida de fora. Estaria domesticado pelo departamento de marketing sujeito às exigências ideológicas? Não sei. A escolha dele parece se vender como reparação e funciona como apagamento duplo. Apaga a Helena grega e apaga a mitologia africana, que continua sem filme. Chamam isto de representatividade.

Continuo a ler Homero em voz alta, quando não estou com preguiça. Mudei pouco desde os 16 anos; só a voz, que ficou mais grave e mais cansada. Quando chegar a este filme, vou ver porque gosto do Nolan, gosto até demais, e vou sair do cinema com a sensação exata de quem assistiu a um homem talentoso preencher um formulário com mão firme. A postura estava lá. Tornou-se um funcionário.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/francisco-razzo/helena-troia-odisseia-christopher-nolan/