O smartphone continua na mão minutos depois de a pessoa decidir, mentalmente, que já é hora de guardá-lo. Uma notícia ruim leva a outra, um post alarmante puxa o próximo, e o que começou como uma checagem rápida de atualizações se transforma em uma sessão prolongada de rolagem por conteúdos negativos.

Esse comportamento tem nome: doomscrolling, termo que une as palavras em inglês “doom”, associada a catástrofe ou fatalidade, e “scrolling”, o ato de deslizar o dedo pela tela. Ele descreve o hábito de consumir, de forma repetitiva e muitas vezes involuntária, notícias e publicações que despertam desconforto, medo ou angústia, mesmo quando esse consumo já não traz nenhuma informação nova ou útil.

Um termo que ganhou força durante a pandemia

A expressão começou a circular ainda antes da pandemia de Covid-19, mas foi a partir de 2020 que se popularizou de forma definitiva, à medida que boa parte do mundo passou a acompanhar em tempo real números de contágios, mortes e medidas de isolamento.

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O cenário de incerteza generalizada tornou a rolagem contínua por atualizações quase uma rotina, e o termo chegou a figurar entre as palavras do ano em dicionários de língua inglesa naquele período. Anos depois, mesmo com a pandemia superada, o padrão de comportamento permanece: conflitos internacionais, crises econômicas e catástrofes climáticas continuam alimentando o mesmo ciclo de consumo compulsivo de más notícias.

Por que é tão difícil parar de rolar a tela

Explicar por que o doomscrolling se tornou tão difícil de interromper passa por entender como o cérebro humano reage a ameaças. Historicamente, a capacidade de identificar rapidamente um perigo era uma vantagem evolutiva: quanto antes uma ameaça era percebida, maior a chance de escapar dela a tempo.

Esse mesmo mecanismo de alerta, porém, não foi desenhado para lidar com um fluxo interminável de informações negativas vindas de qualquer parte do mundo, disponível a qualquer hora do dia. O resultado é uma sensação constante de vigilância, mesmo diante de fatos que não representam nenhum risco imediato para quem está lendo.

A partir desse mecanismo, o próprio desenho das redes sociais contribui para prolongar o hábito. Os algoritmos das plataformas tendem a priorizar conteúdos com maior engajamento, e notícias negativas costumam gerar reações mais rápidas e intensas do que as positivas. Títulos alarmantes acionam um senso de urgência que aumenta a probabilidade de cliques, o que faz esse tipo de conteúdo circular ainda mais.

Os efeitos do hábito na saúde mental

O impacto do doomscrolling sobre o bem-estar emocional já é amplamente documentado. Segundo o portal norte-americano D’Amore Mental Health, a exposição contínua a notícias negativas está associada a aumento da ansiedade e de sintomas depressivos, especialmente em pessoas que já apresentam alguma predisposição a esses quadros.

O acúmulo de informações sobre crises, conflitos e catástrofes tende a reforçar uma visão de mundo mais pessimista e ameaçadora, o que pode se transformar em um ciclo difícil de romper: quanto mais ansiosa a pessoa se sente, mais ela busca informações para tentar entender ou controlar aquilo que a preocupa, e quanto mais ela busca, mais ansiosa fica.

Esse desgaste emocional também tem reflexos na vida social. O tempo prolongado dedicado à rolagem de conteúdos tende a substituir momentos que seriam dedicados à convivência com outras pessoas, reduzindo o suporte emocional que as relações pessoais costumam oferecer. Some ainda a esse quadro um efeito físico relevante: por ser praticado com frequência à noite, o doomscrolling compromete a qualidade do sono, o que agrava o cansaço e a irritabilidade no dia seguinte.

Jovens são o grupo mais vulnerável, apontam estudos

Se o comportamento afeta pessoas de todas as idades, a literatura científica recente indica que os jovens estão entre os mais suscetíveis a seus efeitos. De acordo com um estudo publicado na revista científica Current Psychology e indexado na base de dados PubMed relacionou o hábito a maior sofrimento psicológico, menor satisfação com a vida e dependência mais acentuada das redes sociais.

Os pesquisadores responsáveis pelo levantamento identificaram ainda uma ligação entre o comportamento e traços de personalidade como o neuroticismo, além do medo de ficar de fora de assuntos e acontecimentos, fenômeno conhecido pela sigla em inglês FOMO (Fear of Missing Out, ou medo de perder algo, em tradução livre) — o que ajuda a explicar por que adolescentes e adultos jovens tendem a ser mais atingidos pelo padrão do que outras faixas etárias.

Como reduzir o impacto do hábito no dia a dia

Especialistas em saúde mental costumam recomendar mudanças simples de rotina para conter os efeitos do doomscrolling sem exigir o abandono total do consumo de notícias.

Estabelecer um limite de tempo diário para checar atualizações, substituir parte desse tempo por atividades que favoreçam o relaxamento e o convívio social, e prestar atenção a como o próprio humor se altera durante a rolagem são passos apontados como eficazes para interromper o ciclo. Reconhecer o padrão é, segundo essas fontes, o primeiro movimento necessário para retomar um uso mais consciente das telas — antes que a busca por informação se transforme, ela mesma, em uma fonte adicional de desgaste emocional.

À medida que o volume de notícias em tempo real só tende a crescer, o debate sobre os limites saudáveis do consumo digital ganha urgência renovada, e o doomscrolling segue como um dos sintomas mais visíveis de uma relação ainda desequilibrada entre tecnologia, informação e bem-estar mental.

 



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/doomscrolling-o-que-e-e-como-afeta-a-saude-mental/