Embora frequentemente confundidas, a doença celíaca, a alergia ao trigo e a intolerância ao glúten são condições diferentes, com causas, diagnósticos e tratamentos distintos. A associação entre elas surge porque todas envolvem reações após o consumo de alimentos com glúten, proteína presente no trigo, cevada e centeio. No entanto, os mecanismos que provocam os sintomas são bastante variados.

A doença celíaca é uma condição autoimune crônica que afeta cerca de 1% da população mundial. Nela, o sistema imunológico reage ao glúten como se fosse uma ameaça, desencadeando uma inflamação no intestino delgado que pode prejudicar a absorção de nutrientes.

“Isso provoca danos nas vilosidades intestinais, que são responsáveis pela absorção de nutrientes. Os sintomas podem incluir diarreia, inchaço, fadiga, anemia, perda de peso, osteoporose e até infertilidade. É uma condição crônica, sem cura, e o único tratamento é a retirada total do glúten da dieta, para sempre”, explica Patrícia Almeida, gastroenterologista e hepatologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Já a alergia ao trigo, comumente chamada de alergia ao glúten, é uma resposta imediata do sistema imunológico a uma ou mais proteínas presentes no trigo. Ela pode causar sintomas como coceira, urticária, inchaço, dificuldade para respirar e, em casos graves, anafilaxia. Ao contrário da doença celíaca, ela não causa danos intestinais. O tratamento é evitar o trigo e não necessariamente todos os cereais com glúten.

A reação alérgica ocorre logo após a ingestão ou até mesmo o contato com o trigo, e o diagnóstico é feito com testes alérgicos específicos.

“É possível que sintomas relacionados ao consumo de trigo não estejam ligados ao glúten. Outros componentes do trigo, como frutanos (FODMAPs), inibidores de amilase-tripsina e lectinas, podem desencadear sintomas gastrointestinais, principalmente em pacientes com síndrome do intestino irritável ou intolerância a carboidratos. Portanto, nem todo sintoma após ingestão de trigo é necessariamente causado pelo glúten”, detalha Isaac Altikes, gastroenterologista do Hospital Santa Catarina – Paulista.

A intolerância ao glúten, também chamada de sensibilidade ao glúten não celíaca não envolve uma resposta autoimune nem alérgica, mas causa sintomas desconfortáveis, como dores abdominais, gases, cansaço e alterações intestinais, que surgem após o consumo de glúten e desaparecem quando a proteína é retirada da alimentação.

Nesse caso, o diagnóstico é feito por exclusão, descartando previamente a doença celíaca e a alergia ao trigo.

“Após descartar celíaca e alergia, propõe-se uma dieta de exclusão por quatro a seis semanas, com reintrodução gradual para confirmar se os sintomas retornam. Esse processo deve sempre ser feito com acompanhamento profissional”, acrescenta Almeida.

Apesar de parecerem semelhantes, essas condições exigem tratamentos distintos e devem ser acompanhadas por médicos especialistas, como gastroenterologistas e alergistas.

O autodiagnóstico e a retirada indiscriminada do glúten da dieta, sem orientação profissional, podem mascarar outras doenças ou levar a deficiências nutricionais.

“Retirar o glúten da dieta sem diagnóstico confirmado pode trazer riscos, como deficiências nutricionais de fibras, vitaminas do complexo B e ferro, além de dificultar o diagnóstico correto de doença celíaca, já que a exclusão prévia do glúten pode negativar exames sorológicos e histológicos. Além disso, dietas sem glúten podem ser mais caras e restritivas, sem benefício comprovado para indivíduos sem doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten não celíaca”, acrescenta Altikes.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/doenca-celiaca-alergia-e-intolerancia-ao-gluten-entenda-as-diferencas/