Desenrola incentiva atraso de pagamento e contraria BC, diz Vale
Economista-chefe da MB Associados aponta que medida vai na contramão dos esforços para queda dos juros
O programa Desenrola, em sua nova versão voltada a adimplentes com atraso de até 90 dias, egressos do Fies, trabalhadores informais e microempreendedores individuais, foi alvo de críticas do economista Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.
Para ele, a iniciativa cria um incentivo ao atraso no pagamento de dívidas e contraria a política monetária em curso no país.
Vale aponta dois caminhos de problemas no programa.
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Publicado em 2026-07-04 17:09:47O primeiro é de natureza fiscal: os recursos utilizados são, em grande parte, de caráter parafiscal, com uso de fundos como o FGO (Fundo Garantidor de Operações) e FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).
"O Ministério da Fazenda virou quase que um braço desse tipo de operação", afirmou o economista, comparando a atuação atual à do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em governos anteriores.
O segundo problema apontado por Vale é o chamado risco moral. Segundo ele, ao premiar quem atrasa parcelas com taxas de juros menores, o programa desincentiva o pagamento em dia.
"Se eu atraso qualquer parcela da dívida e sou premiado com uma taxa de juros menor, o que a pessoa vai pagar em dia?", questionou.
Para o economista, o caminho correto seria atacar as causas estruturais do spread bancário elevado no Brasil, e não oferecer soluções paliativas de curto prazo.
Vale também destacou que o novo Desenrola vai na contramão da política monetária. Enquanto o Banco Central trabalha para desacelerar o crédito e conter a inflação, o governo lança medidas que estimulam o consumo.
"O governo vai contra a sua própria política monetária", afirmou.
O economista ressaltou que o consumo segue acelerando trimestre a trimestre, mesmo com a taxa de juros em níveis elevados, o que impede que a política monetária produza os efeitos esperados sobre a inflação.
Outro ponto de atenção levantado na análise diz respeito à participação dos bancos privados. A Febraban já sinalizou que a adesão pode ser limitada, o que, segundo Vale, tende a concentrar o protagonismo nos bancos públicos.
"Há muita dúvida se de fato os bancos privados vão participar", disse.
Para o economista, diferentemente do Desenrola anterior — voltado a inadimplentes —, este novo programa oferece menos incentivos aos bancos privados, já que os devedores com atraso de até 90 dias frequentemente retomam os pagamentos sem necessidade de renegociação.
Sobre o Banco Central, Vale defendeu que a instituição deveria ser ainda mais explícita em sua comunicação sobre os impactos das políticas fiscais e parafiscais do governo.
"Ele precisa ser mais explícito ainda na próxima decisão em relação às políticas fiscais e parafiscais que o governo está fazendo", afirmou.
O economista concluiu que os subsídios excessivos na economia brasileira contribuem para manter a taxa básica de juros e o spread bancário elevados, prejudicando o consumidor no longo prazo.
"O que o governo está fazendo agora é uma medida paliativa de curto prazo com objetivo eleitoral", encerrou.