O futuro da política fiscal brasileira será um desafio inevitável para o próximo governo, independentemente do resultado das eleições. É o que avalia Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, que destaca a piora das contas públicas como um problema estrutural que precisará ser enfrentado com urgência.
Segundo Kawauti, a deterioração das contas públicas pode ser observada com clareza na trajetória da relação dívida/PIB, que vem crescendo desde 2022.
“A gente vê uma piora das contas públicas que acaba gerando inclusive problemas para o consumidor final, para o brasileiro, que acaba pagando juros muito mais altos por conta disso”, afirmou a economista.
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Publicado em 2026-10-08 15:59:45Propostas vagas e falta de planejamento
Apesar da gravidade do cenário, Kawauti aponta que as candidaturas ainda não apresentaram propostas práticas e detalhadas para o enfrentamento do problema.
“O diagnóstico está feito, o fiscal no Brasil é muito ruim, mas o remédio para resolver esse problema não está muito claro”, disse. Para ela, o ideal seria que os candidatos apresentassem algum tipo de cronograma ou agenda com medidas concretas antes do segundo turno.
“O que a gente tem visto por enquanto são propostas mais vagas do que de fato de implicações práticas”, acrescentou.
A economista ressalta que o ajuste fiscal deverá envolver não apenas revisões nas regras de limite de gastos, como as do arcabouço fiscal, mas também reformas nas linhas de despesas.
“O Brasil gasta muito e gasta mal”, afirmou, citando possibilidades como desindexação e reforma administrativa como caminhos a serem discutidos.
O papel do ministro da Fazenda e do Banco Central
Para Kawauti, a capacidade de consolidação do ajuste fiscal dependerá fortemente do nome escolhido para conduzir a política econômica. “O nome do ministro da Fazenda vai dar para a gente algum tipo de norte em relação à decisão que vai ser tomada”, avaliou.
Segundo ela, um perfil mais técnico do que político funcionaria como uma âncora para o mercado ao longo dos próximos quatro anos.
Além do ministério da Fazenda, a economista chama atenção para as indicações ao Banco Central. Duas cadeiras na diretoria da instituição estão vagas desde janeiro, e mais duas devem ficar disponíveis em janeiro do ano seguinte.
“Afinal de contas, é quase metade do grupo que decide a taxa de juros, o Copom, que é composto por nove membros”, destacou Kawauti. A economista considera que indicações com viés mais político do que técnico representam um risco real, ainda que não seja o cenário mais provável.
Congresso e prêmio de risco nos ativos
Questionada sobre o papel do Congresso no ajuste fiscal, Kawauti ponderou que, em caso de alinhamento entre Executivo e Legislativo, as pautas econômicas teriam mais facilidade de avançar.
No entanto, alertou que o Congresso eleito não foi formado apenas em torno de pautas econômicas, o que pode dispersar energias.
“Esse primeiro ano do governo vai ser um ano de um teste muito grande para o mercado entender que a gente vai ter uma trajetória melhor do fiscal nos próximos quatro anos”, afirmou.
Em relação aos preços dos ativos, a economista avalia que o prêmio de risco ainda está embutido nas curvas de juros e em outros mercados. “Mesmo com esse rali que a gente viu ao longo desse começo de semana, a gente ainda tem muito prêmio de risco pesando sobre os ativos”, disse, citando renda fixa, renda variável e o câmbio como exemplos.
Para Kawauti, os preços só devem se normalizar quando houver definições práticas e concretas sobre o rumo da política econômica.