Copom se reúne na próxima semana para definir a taxa Selic. (Foto: ChatGPT sobre foto de Raphael Ribeiro/Banco Central do Brasil)

Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne mais uma vez para decidir se interrompe ou se mantém (e, neste caso, com que intensidade) o ciclo de afrouxamento monetário iniciado em março, quando o colegiado reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual após mantê-la em 15% por nove meses – no fim de abril, o Copom promoveu nova queda de 0,25 ponto, deixando os juros básicos da economia em 14,50% ao ano. No início de 2026, havia uma confiança muito maior na queda dos juros: ela não só viria, mas ainda seria significativa – no primeiro Boletim Focus do ano, a estimativa para a Selic ao fim de 2026 era de 12,25%, chegando a 10,50% em dezembro de 2027 e voltando a um dígito em 2028. No boletim divulgado nesta segunda-feira, as previsões são, respectivamente, de 13,50%, 11,50% e 10%. O que mudou?

O cenário externo é a resposta mais evidente. A guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel, iniciada com um ataque norte-americano e israelense no fim de fevereiro, estremeceu mercados em todo o mundo e causou um choque do petróleo cujas consequências ainda estão se fazendo sentir. Nem as tréguas acertadas entre Donald Trump e os aiatolás iranianos fizeram os preços da commodity retroceder; eles ainda estão muito acima dos valores pré-guerra, e os efeitos inflacionários se espalham por inúmeros outros produtos que dependam do petróleo ou de seus derivados (especialmente os combustíveis) de alguma forma.

A “desancoragem das expectativas de inflação” tem sido um gatilho importante para o Copom manter uma política monetária contracionista

Recomendamos para você

Além da guerra, um fenômeno meteorológico está entre as circunstâncias sobre as quais as autoridades brasileiras não têm controle algum: a possibilidade de um “Super El Niño” que alterará padrões climáticos globais e deve afetar importantes regiões produtoras, seja com seca e calor extremo (mais prováveis no Norte e Nordeste do Brasil), seja com excesso de chuvas (mais provável no Sul), além de causar irregularidade hídrica no Sudeste e no Centro-Oeste. E analistas afirmam que não é preciso haver quebras de safra generalizadas para afetar o preço dos alimentos; algumas perdas pontuais já serão suficientes para desorganizar plantios e colheitas.

O que já está desorganizado, no entanto, são as contas públicas – e neste caso a responsabilidade é toda de quem toma as decisões internamente. Disposto a gastar o possível e o impossível para conseguir a reeleição em outubro, Lula tem empilhado “bondade” atrás de “bondade” – sempre entre aspas, pois feita sempre com o chapéu alheio, o do pagador de impostos brasileiro, e com efeitos de médio e até curto prazo bastante nocivos. Entre renúncias fiscais, subsídios e outros programas, o governo está queimando ao menos R$ 190 bilhões para manter a economia superaquecida por meio do estímulo ao consumo, uma estratégia que rende no curtíssimo prazo, mas acabou em recessão severa na última vez em que foi colocada em prática.

VEJA TAMBÉM:

Por tudo isso – e por alguns outros fatores também, como as chances menores de corte de juros nos Estados Unidos, o que poderia reduzir a atratividade do dólar e aliviar o câmbio – as previsões para a inflação não param de subir. Se no começo do ano o mercado financeiro estimava um IPCA de 4,06% em 2026 (acima da meta, mas ao menos dentro do intervalo de tolerância), hoje a previsão é de 5,11%. A “desancoragem das expectativas de inflação” tem sido um gatilho importante para o Copom manter uma política monetária contracionista. É com este cenário complicado que os diretores do Banco Central terão de trabalhar na próxima semana.

CNJ identifica juízes com salário acima de R$ 1 milhão