As cooperativas agrícolas brasileiras  emergem como uma das principais vencedoras do ciclo recente de aperto financeiro de algumas partes do agronegócio. Levantamento da L.E.K. Consulting mostra que a participação dessas organizações no PIB do setor passou de 8,1% em 2019 para 15,4% em 2024, crescimento de cerca de 90% no período.  

O avanço ocorreu em um ambiente marcado pela reversão dos preços das commoditiesaumento da inadimplência rural dificuldades financeiras enfrentadas por parte das revendas de insumos. 

Segundo Eric Emiliano, sócio da L.E.K. Consulting responsável pelos setores de agronegócio e alimentos, o movimento reflete uma transformação mais ampla no sistema de financiamento do campo. 

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“O Plano Safra vem perdendo representatividade ao longo dos anos, principalmente entre os grandes produtores. Durante muito tempo a cadeia financiou o agro por meio de barter e crédito comercial. Nos últimos anos, esse modelo sofreu um choque importante com o aumento da inadimplência”, afirma. 

A diferença de desempenho entre cooperativas e revendas ficou mais evidente após a queda dos preços da soja e do milho. Enquanto empresas como AgroGalaxy, Lavoro e Belagrícola entraram em processos de recuperação judicial ou extrajudicial, cooperativas preservaram crescimento e ampliaram participação de mercado.  

Para Bruno Brandi, senior manager da consultoria, o cenário expôs fragilidades de parte do setor de distribuição. “Em muitos casos as revendas estavam funcionando como bancos. Elas financiavam o produtor por meio de barter e prazos estendidos. Quando a inadimplência aumentou, esse modelo mostrou suas limitações”, diz. 

Segundo a consultoria, a inadimplência do crédito ligado ao agronegócio, historicamente próxima de 3%, aproxima-se atualmente de 15%, patamar superior ao observado na crise de 2016 e 2017. 

“A gente está vendo uma inadimplência da ordem de três vezes o último pico relevante do setor. O produtor enfrentou duas safras consecutivas em que o custo cresceu mais do que a receita”, afirma Emiliano. 

Nesse contexto, cooperativas passaram a ocupar parte do espaço deixado pelas revendas ao ampliar a oferta de crédito, barter, assistência técnica e serviços aos associados. 

“As cooperativas criam um ecossistema completo para o produtor. Elas financiam, compram, armazenam e comercializam. Isso reduz a inadimplência e fortalece o relacionamento de longo prazo”, afirma Brandi. 

O estudo aponta que a resiliência dessas organizações está ligada à diversificação de receitas e à capacidade de capturar valor em diferentes etapas da cadeia produtiva.  

Capitalizadas após anos de expansão, as cooperativas agora avançam em quatro frentes principais: industrialização, biocombustíveis, expansão geográfica e aquisições de ativos de empresas em dificuldades financeiras.  

A industrialização permite captar mais valor agregado dos produtos já produzidos e comercializados; enquanto a entrada no setor de biocombustíveis acompanha uma onda favorável de mercado e diversifica receitas.  

A L.E.K também aponta que as cooperativas podem aproveitar empres em recuperação judicial para expansão de território e capturar sinergias operacionais.   

O Sul do país lidera em crescimento absoluto o número de cooperativas do país, enquanto o Centro-Oeste e Sudeste oferecem maior potencial de expansão, dado grande mercado e baixa presença das cooperativas.  



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/cooperativas-agricolas-dobram-participacao-no-pib-do-agronegocio/